Augusto Nunes, Jornal do Brasil
Dias depois da Passeata dos 100 Mil, Nelson Rodrigues escreveu que a revolução sonhada pelos jovens rebeldes de 1968 acabara no momento em que, atendendo a uma ordem do líder Vladimir Palmeira, os manifestantes se sentaram no chão da Cinelândia. Nessa posição, ninguém derruba nenhum governo, ironizou o grande cronista. Não existe revolucionário sentado.
Nem guerrilheiro de pijama, imaginou-se até sábado passado. Por mais de 50 anos, no imaginário popular, um guerreiro da selva só dormia - se é que dormia - de farda, coturno, quepe, trabuco na cintura e uma granada ao alcance da mão. Não foi assim que Fidel Castro varou as perigosas madrugadas em Sierra Maestra? Não foi com esse figurino de soldado universal que Che Guevara atravessou insone as últimas noites nos grotões da Bolívia?
As fotos de Raúl Reyes sugeriam que o nº 2 das Farc pertencia a essa linhagem de combatentes em tempo integral. Aparecia sempre enfiado num uniforme com bolsos suficientes para acomodar toda a pólvora de um paiol. E a expressão feroz denunciava um homem em vigília permanente, pronto para combates matutinos, vespertinos ou noturnos. Engano, soube-se neste 1º de março, quando Reyes foi morto durante um ataque aéreo das Forças Armadas colombianas.
No instante em que o primeiro petardo caiu sobre o acampamento montado pelas Farc no Equador, a dois quilômetros da fronteira, o chefão dormia. De pijama. Perto dele, ressonavam 15 guerrilheiros. "Em trajes menores", registrou polidamente a imprensa. Tradução: dormiam de cuecas. Pena que não se tenha conferido a devida relevância ao que parece um detalhe, mas é bem mais que isso.
Ganharam espaço muito maior a violação territorial praticada pelo governo Álvaro Uribe, a indignação do equatoriano Rafael Correa, a cólera de Hugo Chávez, o uivo dos ventos da guerra. Cronistas bolivarianos evocaram a indumentária da turma, mas para sublinhar a crueldade dos atacantes: além de desarmadas, as vítimas usavam pijama e cuecas.
Estavam assim por se sentirem em casa, como qualquer civil no recesso do lar. Durante o dia, ex-comunistas reduzidos a narcotraficantes praticam atos terroristas na Colômbia - uniformizados. À noite, em segurança nos domínios de amigos como Rafael Correa e Hugo Chávez, dormem mais à vontade. Os dois acham que as Farc são "um exército insurgente". Mas pode entrar sem pedir licença. Violação só existe se os invasores forem militares da Colômbia.
"O Brasil pode - e deve - ser neutro em conflitos entre países", resumiu na Folha de S. Paulo o jornalista Clovis Rossi. "Mas não pode - nem deve - ser neutro entre o governo colombiano (legítimo) e as Farc (um grupo delinqüente)".
É isso.
Dias depois da Passeata dos 100 Mil, Nelson Rodrigues escreveu que a revolução sonhada pelos jovens rebeldes de 1968 acabara no momento em que, atendendo a uma ordem do líder Vladimir Palmeira, os manifestantes se sentaram no chão da Cinelândia. Nessa posição, ninguém derruba nenhum governo, ironizou o grande cronista. Não existe revolucionário sentado.
Nem guerrilheiro de pijama, imaginou-se até sábado passado. Por mais de 50 anos, no imaginário popular, um guerreiro da selva só dormia - se é que dormia - de farda, coturno, quepe, trabuco na cintura e uma granada ao alcance da mão. Não foi assim que Fidel Castro varou as perigosas madrugadas em Sierra Maestra? Não foi com esse figurino de soldado universal que Che Guevara atravessou insone as últimas noites nos grotões da Bolívia?
As fotos de Raúl Reyes sugeriam que o nº 2 das Farc pertencia a essa linhagem de combatentes em tempo integral. Aparecia sempre enfiado num uniforme com bolsos suficientes para acomodar toda a pólvora de um paiol. E a expressão feroz denunciava um homem em vigília permanente, pronto para combates matutinos, vespertinos ou noturnos. Engano, soube-se neste 1º de março, quando Reyes foi morto durante um ataque aéreo das Forças Armadas colombianas.
No instante em que o primeiro petardo caiu sobre o acampamento montado pelas Farc no Equador, a dois quilômetros da fronteira, o chefão dormia. De pijama. Perto dele, ressonavam 15 guerrilheiros. "Em trajes menores", registrou polidamente a imprensa. Tradução: dormiam de cuecas. Pena que não se tenha conferido a devida relevância ao que parece um detalhe, mas é bem mais que isso.
Ganharam espaço muito maior a violação territorial praticada pelo governo Álvaro Uribe, a indignação do equatoriano Rafael Correa, a cólera de Hugo Chávez, o uivo dos ventos da guerra. Cronistas bolivarianos evocaram a indumentária da turma, mas para sublinhar a crueldade dos atacantes: além de desarmadas, as vítimas usavam pijama e cuecas.
Estavam assim por se sentirem em casa, como qualquer civil no recesso do lar. Durante o dia, ex-comunistas reduzidos a narcotraficantes praticam atos terroristas na Colômbia - uniformizados. À noite, em segurança nos domínios de amigos como Rafael Correa e Hugo Chávez, dormem mais à vontade. Os dois acham que as Farc são "um exército insurgente". Mas pode entrar sem pedir licença. Violação só existe se os invasores forem militares da Colômbia.
"O Brasil pode - e deve - ser neutro em conflitos entre países", resumiu na Folha de S. Paulo o jornalista Clovis Rossi. "Mas não pode - nem deve - ser neutro entre o governo colombiano (legítimo) e as Farc (um grupo delinqüente)".
É isso.