Paulo Nathanael Pereira de Souza (*), Jornal do Brasil
Os governos chamados populistas, que são uma versão decadentista das esquerdas em refluxo em todo o mundo, assumiram como estratégia de chegada e de manutenção do poder, um tipo de ética, que tem feito Aristóteles virar-se no túmulo.
Trata-se de praticar uma inversão da regra de ouro do comportamento humano, que sempre se estribou no princípio, segundo o qual, os fins não justificam os meios. Sobre essa base, sólida como o Pão de Açúcar, construíram-se as regras mais civilizadas do convívio e das organizações sociais. Toda a estrutura legal dos povos, seja na preservação da vida e da integridade das pessoas, seja no respeito aos limites relativos à prática da liberdade individual, apoiou-se nesse valor moral, que, como axioma que é, mereceu o respeito universal, sem necessidade de demonstrações sobre sua sacralidade.
No plano político, as democracias sempre se identificaram com o Estado de direito. Como dizia Francisco Nitti, ele próprio um socialista dos anos 30: "A democracia, sempre diversa em cada época e cada país, é a forma de governo em que todos os cidadãos, sem distinção de nascimento e de riqueza, gozam na lei dos mesmos direitos políticos e civis".
O respeito à lei é a pedra de toque da ética nas democracias. Em razão disso é que, no capítulo das liberdades e dos direitos individuais e sociais, constantes das Constituições dos países livres, a expressão que mais se encontra no texto é "nos termos da lei". Até porque a lei é a forma positiva e expressa dos princípios éticos assecuratórios da liberdade e da incolumidade das pessoas.
O que assusta, hoje, é a facilidade com que governos e forças políticas encasteladas no poder agem, sem o menor escrúpulo em relação à ética. Seu conceito sobre as ações desenvolvidas, já não leva em conta o fato de os fins não justificarem os meios. Ao contrário, são sempre os fins que justificam os meios, ainda quando estes sejam ilegais e, portanto, estejam na contramão da ética.
E por que o fazem? Porque no seu ideário político os fins, que se baseiam, não na legalidade objetiva, mas numa legitimidade subjetiva, inocentam plenamente os meios usados, ainda quando agridem a lei e a ética.
Veja-se o caso brasileiro: minorias ideológicas travestidas de justiçadores sociais invadem propriedades agrícolas e urbanas, ocupam-nas, depredam-nas, arrasam-nas ao arrepio da ordem e da lei, sob o argumento de que estão a fazer justiça. Trata-se de uma justiça feita pelas próprias mãos, a mais primitiva e injusta forma de promover justiça, porque antecede os comportamentos civilizados. E o que é mais para lamentar, contando não raro com o apoio ativo ou passivo de autoridades, que pavimentam seus sucessos através da inversão da ética procedimental.
O pior disso tudo é que, perdidas as referências dos fins harmonizados com os meios e obtidas todas as licenças para a prática dos meios impróprios que se justificam pelos fins, o caos se instala no seio das sociedades, a ponto de se tolerarem todos os abusos, praticados em nome do que, cada qual, a seu talante, considerar um direito seu ou de seus sequazes. Esse talvez seja o maior perigo a pairar sobre as práticas políticas contemporâneas, nestes tempos tão difíceis de serem explicados pelas ciências sociais, nem sempre tão científicas quanto o nome parece indicar.
O problema se mostra tão mais grave, quanto se sabe que até nas nações milenares, como o Reino Unido, esse abalo no entendimento da ética já se vem tornando uma prática comezinha. Informam os noticiários que a esposa do presidente da Câmara dos Comuns britânica pagou uma fortuna de libras em taxis, como parte da conta de despesas da Presidência ocupada por Michael Martin, algo parecido com os nossos cartões corporativos, um político escocês populista advindo da militância do justicialismo social anglo-escocês.
Tal como ocorre por aqui, o assunto está fervendo por lá. E o que explica a globalidade desses maus comportamentos? Nada mais, nada menos do que a difusão dessa moral negativa, segundo a qual, os fins justificam os meios.
(*) Presidente do Conselho Diretor do Ciee Nacional e do Conselho de Administração do Ciee/SP
Os governos chamados populistas, que são uma versão decadentista das esquerdas em refluxo em todo o mundo, assumiram como estratégia de chegada e de manutenção do poder, um tipo de ética, que tem feito Aristóteles virar-se no túmulo.
Trata-se de praticar uma inversão da regra de ouro do comportamento humano, que sempre se estribou no princípio, segundo o qual, os fins não justificam os meios. Sobre essa base, sólida como o Pão de Açúcar, construíram-se as regras mais civilizadas do convívio e das organizações sociais. Toda a estrutura legal dos povos, seja na preservação da vida e da integridade das pessoas, seja no respeito aos limites relativos à prática da liberdade individual, apoiou-se nesse valor moral, que, como axioma que é, mereceu o respeito universal, sem necessidade de demonstrações sobre sua sacralidade.
No plano político, as democracias sempre se identificaram com o Estado de direito. Como dizia Francisco Nitti, ele próprio um socialista dos anos 30: "A democracia, sempre diversa em cada época e cada país, é a forma de governo em que todos os cidadãos, sem distinção de nascimento e de riqueza, gozam na lei dos mesmos direitos políticos e civis".
O respeito à lei é a pedra de toque da ética nas democracias. Em razão disso é que, no capítulo das liberdades e dos direitos individuais e sociais, constantes das Constituições dos países livres, a expressão que mais se encontra no texto é "nos termos da lei". Até porque a lei é a forma positiva e expressa dos princípios éticos assecuratórios da liberdade e da incolumidade das pessoas.
O que assusta, hoje, é a facilidade com que governos e forças políticas encasteladas no poder agem, sem o menor escrúpulo em relação à ética. Seu conceito sobre as ações desenvolvidas, já não leva em conta o fato de os fins não justificarem os meios. Ao contrário, são sempre os fins que justificam os meios, ainda quando estes sejam ilegais e, portanto, estejam na contramão da ética.
E por que o fazem? Porque no seu ideário político os fins, que se baseiam, não na legalidade objetiva, mas numa legitimidade subjetiva, inocentam plenamente os meios usados, ainda quando agridem a lei e a ética.
Veja-se o caso brasileiro: minorias ideológicas travestidas de justiçadores sociais invadem propriedades agrícolas e urbanas, ocupam-nas, depredam-nas, arrasam-nas ao arrepio da ordem e da lei, sob o argumento de que estão a fazer justiça. Trata-se de uma justiça feita pelas próprias mãos, a mais primitiva e injusta forma de promover justiça, porque antecede os comportamentos civilizados. E o que é mais para lamentar, contando não raro com o apoio ativo ou passivo de autoridades, que pavimentam seus sucessos através da inversão da ética procedimental.
O pior disso tudo é que, perdidas as referências dos fins harmonizados com os meios e obtidas todas as licenças para a prática dos meios impróprios que se justificam pelos fins, o caos se instala no seio das sociedades, a ponto de se tolerarem todos os abusos, praticados em nome do que, cada qual, a seu talante, considerar um direito seu ou de seus sequazes. Esse talvez seja o maior perigo a pairar sobre as práticas políticas contemporâneas, nestes tempos tão difíceis de serem explicados pelas ciências sociais, nem sempre tão científicas quanto o nome parece indicar.
O problema se mostra tão mais grave, quanto se sabe que até nas nações milenares, como o Reino Unido, esse abalo no entendimento da ética já se vem tornando uma prática comezinha. Informam os noticiários que a esposa do presidente da Câmara dos Comuns britânica pagou uma fortuna de libras em taxis, como parte da conta de despesas da Presidência ocupada por Michael Martin, algo parecido com os nossos cartões corporativos, um político escocês populista advindo da militância do justicialismo social anglo-escocês.
Tal como ocorre por aqui, o assunto está fervendo por lá. E o que explica a globalidade desses maus comportamentos? Nada mais, nada menos do que a difusão dessa moral negativa, segundo a qual, os fins justificam os meios.
(*) Presidente do Conselho Diretor do Ciee Nacional e do Conselho de Administração do Ciee/SP