Eliana Cardoso (*), Estadão online
O preço das commodities tende a se inverter. O aquecimento da economia brasileira coincide com uma conta corrente deficitária e o FMI projeta queda do fluxo de capitais para os países emergentes. A repetição do passado é o único futuro possível?
O preço das commodities tende a se inverter. O aquecimento da economia brasileira coincide com uma conta corrente deficitária e o FMI projeta queda do fluxo de capitais para os países emergentes. A repetição do passado é o único futuro possível?
Na conferência Escritores Criativos e Devaneios, Freud imagina um jovem pobre e órfão que, a caminho do endereço de um possível emprego, sonha acordado com uma acolhida positiva. Ele saberia tornar-se indispensável, vai maquinando. Depois se casaria com a filha de seu empregador e passaria a dirigir o negócio como sócio. E, já no meio da caminhada, vê em si o inevitável sucessor do patrão. Em sonho, o jovem readquiria o que possuíra na infância: uma casa protetora e o carinho dos pais. O exemplo serve a Freud para concluir que nossos desejos (nem sempre conscientes) se alimentam de um passado (muitas vezes esquecido) para elaborar o futuro.
"Algumas vezes o peso do passado é mais presente do que o presente", reflete o historiador mexicano Enrique Krauze. E, assim, estende a uma sociedade inteira o pensamento de Freud sobre a experiência do homem que, preso a devaneios e a forças inconscientes, repete o passado incessantemente. Desta forma, poderíamos ver na evolução dos países latino-americanos através dos tempos a repetição infindável dos mesmos erros.
Em princípio, deveríamos esperar que a abundância de recursos naturais gerasse mais crescimento, produzindo receita e atraindo investimentos externos. Mas, nas colônias da América Latina, o padrão de exploração de recursos naturais resultou em economias pouco diversificadas e sujeitas a instabilidade e crises.
No começo do século 20, a América Latina ainda era uma região centrada na estratégia de exportação de produtos primários. E até hoje, em cada país latino-americano, o produto de exportação mais importante ainda é um produto primário.Como a participação dos bens primários nas exportações totais continua alta, o resultado é uma sincronia entre as oscilações dos preços das commodities e da taxa de crescimento dos países da região. A volatilidade das receitas de exportação e do crescimento afeta o orçamento do governo e tem conseqüências para a gerência macroeconômica.
Graças à prosperidade americana e ao crescimento chinês, a demanda por commodities e seus preços dispararam entre 2003 e 2008. A partir da segunda metade de 2007, um movimento especulativo - provocado tanto pelo crescimento dos próprios preços quanto pela redução da taxa de juros americana - teve um claro papel na escalada desses preços.
Da mesma forma que a alta foi exagerada, é possível que a correção também o seja - até que os preços voltem à tendência de alta ditada pela relativa escassez dos bens primários. Por enquanto, à medida que os efeitos da redução do ritmo da economia americana se espalharem pelo mundo, a demanda por commodities vai diminuir. Mesmo que o crescimento chinês perdure, os preços mais altos induzirão um uso menos intensivo dos nossos principais produtos de exportação e, em conseqüência, uma correção de seus preços.Não desconhecemos os efeitos de uma reversão dos termos de troca em seguida a uma expansão mal aproveitada. Basta lembrar o boom da borracha no final do século 19. Ou o fim da "ilha de prosperidade" da década de 1970, quando os preços internacionais se viraram contra nós.
A solução do problema seria a adoção de uma política fiscal anticíclica. Mas, na América Latina, o único país a adotar essa política é o Chile.
À primeira vista, o Chile parece extremamente vulnerável a uma inversão do preço das commodities. Elas respondem por 70% de suas exportações. E mais: a relação entre reservas e PIB, no Chile, está entre as mais baixas da região.Entretanto, o governo chileno adotou uma política prudente. Entre 2003 e 2007, aproveitando a escalada do preço do cobre, aumentou o superávit fiscal a cada ano. Em 2007, esse superávit chegou a 8% do PIB. A poupança do governo vem sendo aplicada em ativos financeiros diversificados com expectativa de retorno (ajustado para o risco) melhor do que o cobre. Quando a turbulência chegar, parece que o Chile será capaz de responder a ela.
No caso do Brasil, reservas altas e câmbio flexível não serão suficientes para responder a um eventual aperto externo, que virá quando o preço das commodities se inverter. Diante de expectativas de desvalorização, não existem reservas suficientes para responder a um ataque especulativo. E, mesmo que o câmbio flexível permita um ajustamento menos traumático, desvalorizações afetam as expectativas de inflação e forçam aumentos da Selic. Como a dívida do governo é alta e boa parte dela é pós-fixada, um aumento grande de juros teria grave impacto fiscal. Assim sendo, o governo se veria impedido de usar estímulos fiscais para evitar uma contração econômica.
O Brasil estaria mais bem preparado para responder a turbulências externas se, no período das vacas gordas, tivesse usado o crescimento da receita tributária para gerar superávits fiscais e reduzir a dívida interna. Quem dita a nossa vida não é a vontade de Alá. Ela resulta de uma coleção de eventos fortuitos interligados por nossas reações. O que forma o colar não são as miçangas, mas o fio que as une. Também não são os imprevistos que definem a riqueza das nações. São nossos atos, que juntam acidentes e torcem o fio que tece a vida do país.
Mesmo que nossas ações e reações dependam de medos e esperanças, que confundem passado e futuro, o governante precisa conhecer o passado antes de mandá-lo às favas. Para garantir a travessia nos mares conturbados da crise americana, o governo precisa assegurar a estabilidade pela introdução de uma política fiscal anticíclica. Já passa da hora de o governo Lula cortar gastos pra valer.
(*) Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGV