terça-feira, abril 01, 2008

Por que a aprovação do governo Lula é expressiva ?

Adelson Elias Vasconcellos

Em sua coluna na Tribuna da Imprensa, o jornalista Pedro Porfírio escreveu um excelente artigo (vide post abaixo), no qual ele faz uma leitura histórica muito bem apanhada de motivos que dão a Lula, a sustentação de popularidade e aprovação de governo conforme indicou recente pesquisa.

Claro que, nem todos que aprovam o governo Lula são diretamente beneficiados pelos programas sociais do governo. Conforme vimos no resultado informado pelo IBGE a mesma semana, 25% da população brasileira é beneficiada pelos programas, mas isto explica metade da história, resta outro tanto, já que os índices de aprovação ultrapassam e bem a barreira dos 50%.

Sempre se haverá de discutir-se as metodologias das pesquisas, mas no caso do governo Lula, e pela sensação que se tem, é que, mesmo respeitando-se as margens de erros, há alguma verdade no resultado final.

O artigo do jornalista Pedro Porfírio como que constrói esta aprovação. Claro,no curto espaço de um artigo, fica humanamente impossível, o assunto ser esgotado.

Daí porque tentarei aqui ver outros ângulos que justificam os resultados da pesquisa. Em primeiro lugar, e sempre muito à frente dos outros, temos as razões econômicas que sustentam esta aprovação. Considerando-se que, grande parte da população é analfabeta funcional, ou seja, mal conseguem escrever (ou desenhar o próprio nome) mas são incapazes de compreender um simples texto, ou mesmo de resolverem simples cálculos aritméticos, o grau de informação deste contingente, parcela considerável da nossa população é bom destacar, é extremamente baixo. Se adicionarmos a eles o outro contingente humano que, em razão da baixa que percebem, pouco ou nada lhes sobrando nos bolsos para comprarem jornal diariamente, chegaremos a impressionantes 87% (ou perto disto) sem acesso à informação. Não que a informação não esteja disponível, mas é que faltam recursos financeiros para consegui-la, além , evidentemente, de boa parte simplesmente ter preguiça de ler, fruto de uma educação distorcida que não os incentivo ao saudável hábito da leitura. Este número de desinformados pode até surpreender num primeiro momento, porém se a gente for somar a quantidade de jornais que rodam nas redações dos principais veículos, veremos que o número tende a ser este mesmo.

Pois bem, se você não tem informação para basear seu julgamento sobre este ou aquele, o que lhe sobra então como elemento-guia? De um lado, e sempre, a economia. Se você está empregado, ganhando um salário pequeno mas constante, se neste mês e nos próximos seis, você vai ao supermercado mais próximo e consegue adquirir praticamente a mesma quantidade de itens, a sensação que tal conforto lhe dá é enorme. Mas, se for acrescido ainda a possibilidade de ir a um banco, para tomar um pequeno empréstimo, com a possibilidade de pagá-lo suavemente com desconto em folha, então meu amigo, você se sentirá no melhor dos mundos.

Noutra ponta, imagine-se desempregado. Claro que grande parte dos brasileiros tentará sobreviver, num caso extremo destes, com um bico outro acolá. Porém, mesmo que você tenha esta pequena renda, mas que informal, não consta em sua carteira do trabalho, isto ainda lhe permite cadastrar-se nos programas do governo, permitindo-lhe ganhar algo em torno de R$ 120,00/mês, com toda a tranqüilidade. É um alívio, não é mesmo?
Ora, assentado nestas duas situações se explica grande parte de aprovação do governo Lula.

Para quem me conhece e acompanha meus textos aqui no blog, sabe das minhas divergências imensas em relação a Lula. Porém, não podemos por conta disto, fecharmos os olhos à razão. Quando em 2003 ele assumiu o poder, a primeira coisa que Lula fez foi jogar no lixo, grande parte do seu discurso dos tempos de oposição. Ele viu que sonhos se realizam com dinheiro. E, numa sociedade capitalista como a brasileira, seria suicídio político entrar em briga com o capital. Para os utopistas do socialismo e do comunismo, claro, foi frustrante. Porém, para a maioria dos brasileiros que contam as merrecas para chegarem vivos no final do mês, foi um achado.

É claro que Lula não é o Pai do Plano Real, e nem tampouco o Plano Real representou apenas o fim da inflação. Foi muito mais do que isso, foi, pelas reformas que implantou, algumas bastante impopulares, a garantia que se tinha de uma duradoura estabilidade econômica. Dentre outras coisa estão as criticadas privatizações. Não me cabe discutir se as estatais vendidas o foram por preço justo ou não. O que sei é que o Congresso Nacional aprovou a linha regulatória para que elas acontecessem, e seguindo a lei vigente, elas se consumaram. Qual o efeito ? O efeito foi tirar um enorme peso que o Tesouro Nacional, pois a maioria, eu diria, a grossa maioria era, além de cabides de empregos, um peso morto por sua ineficiência e uso político demasiado, como também obrigavam ao estado suportar déficits públicos a perder de vista. Isto obrigava a emissão de papel moeda e aumento crescente da dívida pública, interna e externa. E, na ponta final do flagelo, esgotava-se a capacidade do Estado em investir em educação, saúde, segurança e infra-estrutura.

Assim, e apesar de lhe faltar humildade para publicamente reconhecer, ele encontrou a casa arrumada. A história que ele conta de que encontrou o país, pura embromação. E assim foi, que, antes do apagar das luzes do período de FHC, este ainda o brindou com a última liberação de um empréstimo junto ao FMI. Brincando, brincando, foram apreciáveis 20 bilhões de dólares. Nada mal.

Ancorando a estabilidade, além do equilíbrio das contas, ele ainda encontrou metas anuais de inflação e o câmbio flutuante (mesmo que determinado quase na bacia das almas, em janeiro de 1999), e uma das maiores sacadas de Pedro Malan & Cia., que foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. Encontrou também inúmeros mecanismos de controle e acompanhamento de contas públicas (a CGU é deste período, 2001), mecanismos também de informações de movimentações financeiras atípicas, e aquilo que Lula e o PT não aprovaram, a CPMF, e que, ironicamente, Lula lutou muito para não perdê-la a partir do corrente ano.

Diante de tal quadro, somou-se também a conjuntura econômica mundial enormemente favorável entre 2002 e 2007, com uma prosperidade que há muito não se via.Atenção: não foi apenas o Brasil que se beneficiou por conta deste período, foram todos os emergentes, sendo que o Brasil, apesar de ser sido favorecido pela elevação gigantesca das comoditties, das quais o país é, tradicionalmente, um grande exportador.

Com a economia nos trinques, e porque também foi favorecida por tudo que aconteceu no restante do mundo, durante cinco anos, mesmo que Lula nada fizesse, e pelo menos na economia e seus fundamentos ele de fato não os tocou, ainda assim o país seria diretamente beneficiado, como de fato foi. O mérito está, como dissemos, em ter mantido os postulados econômicos que garantiam e ainda garantem a estabilidade.

Porém, se você tentar explicar para o povão, você acha que eles lá estão preocupados com preço de comodities? Ou com a variação do dólar? Ou se o governo mantém equilíbrio fiscal ou não? Ou com a Lei de Responsabilidade Fiscal? Ou até mesmo com privatização?Neste caso ele olha para o celular, e ainda dá boas risadas. O que lhe importa é aquilo que lhe diz respeito, aquilo que o aflige no dia a dia, que é a sua sobrevivência.

Mais: em razão da estabilidade garantida e a da inflação domesticada, cedo ou tarde, o país desperta para vôos mais altos. Assim, de repente, os prazos no crediário foram sendo espichados na justa medida em que os juros foram caindo. O que estava bom ficou melhor ainda.

Junte-se agora fatores históricos, com vantagens econômicas, e você um governo muito bem avaliado, porque é bom entender que o povo pensa conforme a dor ou o alívio no bolso. E para ele o que conta é o hoje, o efeito imediato, e o efeito imediato ele está sentindo agora. Tudo bem que quem começou a corrente foi outro governante, mas ele não está mais no poder, aquele que o sucedeu teve sim o mérito de conservar o que o outro havia implantado. Como não é o outro governante que está sendo julgado, e sim o atual, pimba: aprovação recorde.

Estamos num mar de rosas ? Mas Lula está sabendo também tirar proveito político, como nenhum antes fizera, deste momento. Quem hoje recebe o bolsa família, já nem lembra mais que um dia ele recebia bolsa escola e quatro outros programas. Ele olha para o cartão de Bolsa Família e fica conjeturando que ele representa a união de cinco programas sociais implementados por FHC. Assim, bancado por uma cara mas competente propaganda oficial, Lula está vendendo para o país um país que sabemos não existir;. Está capitalizando politicamente frutos de coisas que ele tem o dom, a prudência, ou o juízo, de conservar, mesmo que, quando de sua implantação ele e seu partido tivessem votado contra. Naquilo porém que afeta a grande maioria da população, independente dele ter ou não implantado, a verdade é que Lula representa, gostem alguns ou não, o Poder, o Estado, o Governo. E se a população se sente melhor, do ponto de vista, a aprovação deve ser consagrada ao Governo, do qual FHC foi legítimo representante até 2002, e Lula o é de 2001 para cá. Talvez seja esta a melhor leitura que se faça, isto é, a aprovação é para o governo, e não para as pessoas porventura instaladas.

Esta é a raiz dos índices de aprovação. Porém se neste campo tudo vai bem, a realidade presente insiste em ser cruel, e esfregar nos nossos olhos os grandes riscos que corremos, dentre eles o institucional, a deterioração cada vez mais acentuada da infra-estrutura do país, a carga tributária injustificada, a insegurança jurídica, a saúde, a segurança pública (ou a falta dela) a omissão ou falta de vontade política para levar adiante as reformas ainda necessárias, a falta de prioridade para investimentos na educação básica e fundamental, e o câncer crônico da corrupção que, em parte, poderia ser corrigido com uma boa reforma política (mas qual político é capaz de sair do discurso para ação neste terreno?). Muito o próprio Lula poderia ter avançado ? Sim, os crescimentos mais robustos de países emergentes nos dizem que sim, acho até que perdemos a grande chance nestes cinco anos, em que poderíamos ter dado um salto gigantesco em nosso desenvolvimento, oportunidade que talvez tão cedo não se repita. Por conta destes aspectos, e nem bastaria outros mais, apesar de os ter, se me perguntarem se votaria em Lula, minha resposta é não. Mas eu leio jornais, leio revistas, acesso internet, assisto noticiários na tv aberta e a cabo. Sei que há aspectos a serem considerados além de estabilidade econômica. E esta posição, lamentavelmente, ainda representa a minoria no país, o que justifica ainda mais a aprovação do governo chegar onde chegou.

Porém, todos estes aspectos pertencem ao centro de preocupação dos outros 15% da população que se pode qualificar como bem informada. Mas, aí, já é matéria para outro artigo.