Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil
Isolamento, insalubridade, risco de doenças, instalações precárias, a rotina da PF na fronteira
Há um flagrante descompasso entre a promessa do governo em melhorar a presença institucional na Amazônia e a realidade da estrutura de segurança na faixa de fronteira. Principal força de segurança da União, a Polícia Federal tem menos de 20 homens para guarnecer uma linha que serpenteia rios e florestas em uma extensão de 11 mil quilômetros e uma estrutura mais precária ainda quando se trata da vigilância na fronteira amazônica com a vizinhança mais problemática, como o território dominado pelas Forças Armadas Colombianas (Farc), na fronteira com São Gabriel da Cachoeira (AM). Na região, há ainda a presença de 25 mil homens do Exército, que só podem ser mobilizados em caso de invasão externa, não podendo, pela lei, realizar ações de policiamento.
Isolamento, insalubridade, risco de doenças, instalações precárias, a rotina da PF na fronteira
Há um flagrante descompasso entre a promessa do governo em melhorar a presença institucional na Amazônia e a realidade da estrutura de segurança na faixa de fronteira. Principal força de segurança da União, a Polícia Federal tem menos de 20 homens para guarnecer uma linha que serpenteia rios e florestas em uma extensão de 11 mil quilômetros e uma estrutura mais precária ainda quando se trata da vigilância na fronteira amazônica com a vizinhança mais problemática, como o território dominado pelas Forças Armadas Colombianas (Farc), na fronteira com São Gabriel da Cachoeira (AM). Na região, há ainda a presença de 25 mil homens do Exército, que só podem ser mobilizados em caso de invasão externa, não podendo, pela lei, realizar ações de policiamento.
Os policiais designados para a vigilância e inspeção na última fronteira do Brasil enfrentam todo o tipo de dificuldades: isolamento, insalubridade, risco de doenças, instalações precárias, dificuldade de comunicação e contingente insuficiente para fazer frente aos dois problemas que mais têm ameaçado a soberania brasileira na fronteira amazônica: o tráfico de cocaína e a influência da guerrilha colombiana, duas atividades interligadas em função da proteção dada pelas Farc.
– A presença da Polícia Federal é simbólica – diz o agente federal Francisco Carlos Sabino, diretor de Relações de Trabalho da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). – Falta efetivo e as condições de trabalho são ruins.
Em alguns locais, como a Base Anzol – o mais avançado posto, com efetivo médio de seis homens a oito homens, na margem do Rio Solimões – o poço que deveria abastecer o consumo está contaminado com coliformes fecais, diz Sabino, que andou pela fronteira por dez dias e produziu um relatório encaminhado ao diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa.
Mais problemas
O relatório também aborda deficiências em outros postos na fronteira com a Venezuela e Guiana (Bonfim e BV8), Guaíra (PR), atualmente desativado, e a Base Candiru, em Óbidos (PA) – uma casa-balsa que flutua sobre o Rio Amazonas. Lá, segundo o agente, "as fezes de morcego são o aroma do dia-a-dia", com evidentes riscos de histoplasmose.
O problema não se resume às precárias condições de trabalho dos agentes federais deslocados de outros centros para dar cobertura à chamada Operação Cobra, uma ação permanente das polícias colombiana e brasileira na faixa de fronteira. As duas principais bases da PF na região, a Mello Franco e a Iauretê, ambas no Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), estão há mais de um ano desativadas. Uma terceira, a Garatéia, em Santo Antônio do Içá, no Rio Solimões, embora integre o organograma do órgão naquela faixa de fronteira, ainda não entrou em funcionamento por falta de móveis e equipamentos. As bases em atividade – Cucui, Bitencourt, Ipiranga e São Gabriel da Cachoeira – funcionam com a presença de dois homens. A exceção é a Base Anzol, a duas horas de barco de Tabatinga, pelo Rio Solimões, que conta com um efetivo entre seis e oito homens, insuficiente para a vigilância.
Apreensão recorde
No ano passado, os policiais da Anzol apreenderam 1.800 quilos de cocaína durante inspeções de rotina em barcos que trafegam pelo Rio Solimões e fazem parada obrigatória na balsa da base. O volume de cocaína, se for comparado com o que a polícia apreende em outros locais do país, é um recorde em quantidade, mas de resultado nulo quando o critério é prisão de traficantes. A droga é encontrada escondida em barcos que carregam, em média, 300 pessoas, mas o traficante nunca aparece.
– A droga que serve ao crime no Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, sai dos centros de produção (Colômbia, Peru e Bolívia) e passa pela fronteira porque a fiscalização é frágil – diz Sabino.
O envolvimento de guerrilheiros das Farcs na segurança do cultivo e transporte de cocaína no lado colombiano virou também uma ameaça à soberania brasileira em decorrência do vazio institucional na região. Não há notícias recentes sobre a presença de guerrilheiros em território nacional, mas as incursões das Farc em aldeias indígenas em São Gabriel da Cachoeira é segredo de polichinelo.
Resolver o problema, desafio para o governo
O fortalecimento das estruturas institucionais na Amazônia, especialmente na faixa de fronteira, é o grande desafio do governo brasileiro para garantir a soberania e fazer frente às mazelas regionais: desmatamento, contrabando de madeira e de minério, tráfico de drogas e interferência criminosa de organizações não-governamentais (ONGs) na região. O governo também deve aos estados amazônicos um plano que alie o desenvolvimento econômico e social à preservação do meio ambiente e o respeito à cultura e ao espaço geográfico das etnias indígenas que habitam a região e são cada vez mais espremidas pela migração.
Com cerca de 25 mil homens espalhados pela região, o Exército é a instituição republicana mais presente. O governo já anunciou a implantação de novos pelotões ao longo de toda a faixa de fronteira e a instalação de postos e delegacias da Polícia Federal. O ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, deverá apresentar nos próximos dias o Plano Amazônia Sustentável (PAS), que vem sendo costurado em conjunto com o Ministério da Defesa – onde as Forças Armadas participam decisivamente – e outros órgãos públicos federais com atuação na região. A Polícia Federal já destinou para a região, em seu organograma, um mínimo de 25% das novos policiais formados em sua academia e está desenvolvendo um plano de incentivo a delegados e agentes experientes que tenham interesse em se deslocar para a Amazônia.
Remanejamento
A idéia, segundo o diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, é tornar o remanejamento uma opção atrativa aos policiais, e não mais uma espécie de "castigo". O policial que se interessar por uma permanência mínima de cinco anos na Amazônia ganharia uma gratificação equivalente a 25% do salário, ajuda de custo e, se quiser, pode permanecer definitivamente na região. Os policiais que atualmente são deslocados para as bases de fronteira saem das mais diferentes regiões do país e permanecem, em média, 60 dias.
Todos são agentes federais vinculadas a Coordenação de Fronteira, chefiada pelo delegado Mauro Spósito. De Tabatinga, vizinha de Letícia, fronteira seca com a Colômbia, o delegado administra a vigilância de uma faixa com quase 12 mil quilômetros de extensão, uma tarefa difícil para o controle do tráfico de cocaína e da infiltração da guerrilha colombiana em território brasileiro. Além do efetivo ser pequeno, as condições de comunicação são precárias. O maior trunfo é o intercâmbio de informações com a polícia da Colômbia e agências de informação americanas que atuam na região acompanhando as movimentação dos cartéis da droga e guerrilha. (V. Q.)