domingo, junho 01, 2008

O enganoso aviso da aparência

Villas-Bôas Corrêa,Jornal do Brasil

O então jovem e combativo deputado Café Filho encaixava em todos os seus discursos e apartes, na Câmara, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, a advertência, em frase curta, com a ênfase do dedo em riste: "Lembrai-vos de 37!".

O aviso não foi levado a sério. Inclusive pelo autor, que dele se esqueceria pouco depois, quando chegou à Vice-Presidência e a Presidência República com o retorno triunfal de Getúlio Vargas em 1950, nos braços do povo, para o trágico desfecho do suicídio, com que deixou a vida para ingressar na história.

São velhas lembranças de repórter veterano e testemunha das voltas que a política e a vida costumam dar, surpreendendo aos que não sabem interpretar os seus conselhos.

Na crise política e militar criada com o veto dos vitoriosos com a eleição de Juscelino Kubitschek (veto à permanência de Café Filho no Catete, contestada pela UDN), como que ficamos contaminados pelo vírus que a cada intervalo de esperança, retorna com a recaída da moléstia endêmica.

Ora, e a propósito, estamos diante de avisos que piscam a cada nova insanidade, em intervalos cada vez mais curtos, na ronda de provocações dos três poderes. Com muito mais visibilidade no Congresso e no Executivo.

No gingado provocativo de um deboche, a Câmara aprovou por 419 votos da maioria acachapante, contra oito gatos pingados da sensatez, a emenda constitucional que aumenta em cerca de 7.500 as vagas de vereadores neste país de juízo tão curto como a memória. Em ano eleitoral é impossível resistir à pressão de prefeitos e vereadores, empenhados até o gogó em agradar às suas bases eleitorais. Afinal, o que está em jogo é um dos melhores empregos do mundo e 2010 arranha a porta para alertar os desatentos.

Se os deputados estão cuidando dos seus interesses – e há escassas esperanças de uma derrubada da emenda no Senado – pelo menos não nos tratem como débeis mentais. O argumento, enrolado em contas e tabelas, de que com mais 7.500 vereadores os cofres públicos terão um lucro de milhões é uma patranha descarada.

O corte nos percentuais dos repasses de 5% a 8% da receita dos municípios, para as câmaras de vereadores de acordo com o número de habitantes, é a mágica para a economia de cerca de R$ 1,2 bilhão. Se for tão fácil a mágica, por que demoraram tanto para tirar o coelho da cartola? Ora, a folha de pagamento dos vereadores é uma parcela do custo do mandato dos representantes municipais. Falta contar o resto da enganação. Os da maioria dos vereadores, como os privilegiados com o mandato de representantes do povo, são tratados com os paparicos de milionários. Do carro com motorista e gasolina para os membros da mesa diretora, aos assessores e demais servidores indispensáveis ao bom desempenho da carga de trabalho de duas a três sessões semanais e os contatos com os eleitores.

O exemplo vem de cima. O presidente Lula não fica atrás. De uma cajadada, transferiu para a sua maioria parlamentar, devidamente atendida com o rateio de ministérios, autarquias e cargos e empregos, a tarefa de ressuscitar a CPMF, o imposto do cheque, abatido pelo Senado, com o apelido catita de Contribuição Social para a Saúde (CSS) com a alíquota reduzida de 0,38% para 0,10%.

E, não satisfeito com a renúncia da ministra Marina Silva, armou no azarado Ministério do Meio Ambiente a bagunça da duplicidade de ministros: o ministro Carlos Minc bate cabeça com o seu gêmeo, o ministro Mangabeira Unger, ungido como líder dos ruralistas, plantadores de soja e desmatadores – os grandes vitoriosos na partilha da Amazônia.