domingo, junho 01, 2008

Células-tronco: uma discussão mistificada

Adelson Elias Vasconcellos

Existem muitos diferentes interesses dentre os que defendem a pesquisa com células-troncos. Uns, pensam no aspecto religioso, outros, dizem, pensam nas conquistas da ciência, outros mais, vêem o tema apenas pelo lado dos doentes que poderiam ser beneficiados. E há o bloco que está plantando "algo mais", como a abertura para a liberação do aborto.

Mas, como sempre, pessoas sem a menor qualificação para discutir assunto tão relevante, acabam praticando um verdadeiro terrorismo apenas para tirarem proveito pessoal. A questão a meu ver, no entanto, deve continuar em aberto, já que não se respondeu, claramente, quando afinal começa a vida. Em parte, os cientistas sabem quando, mas grande parte foge do assunto porque, se fossem transparentes, dariam veio de razão aqueles que são contrários a liberação das pesquisas. Então, acabam contando apenas meia-verdade, e sobre a outra resolvem lançar um manto de dúvidas com o intuito de confundir.

É bom que se registre que, fruto das discussão, se discute muito os “direitos” dos vivos, esquecendo que os embriões também o são. Não é possível negar que, muito embora eles não tenham a configuração final de um ser humano pronto e acabado, trazem em si todo o código genético através do qual este ser será composto. Não são simples sementes de vida, mas representam a própria vida. Sem eles não há ser humano. Do nada, não se produz nada. Este é o ponto. Embrião significa, dentre todos os conceitos que se tem, princípio, origem.

Não alimento discussões que versem sobre a ideologia fascista de que, para salvar uma vida “tenho direito” de destruir outras tantas. Claro que, a partir do momento que se elimina as “razões” e os “conceitos” de vida humana do debate, você abre precedente perigoso de levar avante outras tantas idéias de destruição de vidas, dentre elas, o aborto.

O fato das religiões defenderem seu ponto de vista, não pode ser considerado como, a partir da posição das igrejas, fazer o contrário é que é o correto. E muito do fundamentalismo propagado nos últimos meses carrega este tônus, que até classificaria como preconceituoso. Não se trata de defender este ou aquele dogma, seita ou corrente. Por mais laico seja o Estado, ele não pode é se confundir com lacaio. E o que se viu, até no voto de alguns ministros do STF que se posicionaram a favor, é a mistureba de conceito religioso com o conceito humano de vida. Qual o problema de se igualar o pensamento de uns com os da Igreja? Agora ser religioso tornou-se uma doença? Religião virou agora sinônimo de ignorância? Claro que certas religiões, católica, evangélicas dentre as principais, adotaram no passado práticas repulsivas, quando se olha o ponto de vista cristão. Contudo, elimine-se de vez a confusão entre a "religião e sua doutrina", com a prática, nem sempre escrupulosa, de alguns religiosos. Outras, tem comportamentos que ainda hoje longe estão da verdadeira doutrina pregada por Jesus. Contudo, isto não lhes tira a razão de expor o princípio básico da vida humana. Por mais que sejam retrógadas e até indecentes em algumas de suas ações, presentes ou passadas, contudo, foi a partir de sua base que o mundo tornou-se civilizado. Não fosse a doutrina cristã, seríamos bandos de selvagens, e a vida de muitos não valeria nada nas mãos de poucos. Claro que este "clima" ainda presente, mas, acrediem, já foi mil vezes pior. Exemplo: hoje ninguém admitie a servidão ou a escravidão como "fato normal" da vida em sociedade. Mas tais práticas, em outros tempos, eram corriqueiros, era a moral vigente de então. Negar a civilização cristã é negar todas as conquistas humanas de crescimento moral, inclusive no campo da ciência.

Ridículo é se travar este duelo de igreja contra ciência, porque a igreja defende o que nunca a ciência foi capaz de desqualificar, que é o princípio da vida.

Considerar-se o embrião como alguma “coisa” sem utilidade e que só servirá ou para pesquisa ou para o lixo, é ignorar a essência de todos nós. E o embrião não se cria sozinho, é preciso haver uma concepção seja ela natural ou laboratorial. E é desta “concepção” que nasce a vida, na forma de células que vão se multiplicando, já carregando desde a primeira que se formou, todo o código genético que define o que cada um se tornará como ser humano.

Não sou contra “pesquisas”, mas sou visceralmente a favor da vida e, sendo assim, não posso compreender que a vida deformada de uns possa ser corrigida a partir da morte de outra, que sequer teve o direito de completar sua formação para existir.

Claro que a discussão não acabou com o resultado do STF. E, com todo o seu avanço, conquistas e tecnologia, no fundo, a ciência não conseguiu ainda definir o básico, a essência da vida, seu começo e seu fim. Portanto, sem ter este conceito fundamentado, não é possível aceitar que sua posição “mais ou menos” seja a verdade absoluta, apenas por ser ciência, até porque, a exemplo da própria Igreja, ela também comete erros, e erros que matam.

O que me preocupa é que o mundo possa estar eliminando, em nome de pseudos avanços científicos, o seu lado “místico” mais preponderante e que nos faz ser hoje melhores do que fomos há dois mil anos atrás. A busca do conhecimento apenas pelo conhecimento nos faz cair no vazio: para quê conhecer mais ? A resposta até aqui ignorada, pode soar para alguns como coisa do passado. Mas, não é mesmo! No fundo, saber mais significa tomar consciência de que devemos ser melhores moralmente. É a busca da perfeição que faz com que nos aperfeiçoemos mais, porque sabendo mais nos distanciamos dos bárbaros que ainda vicejam entre nós. Avançar no conhecimento de nós mesmos significa conhecer as razões para nos tornarmos melhores, para com os outros e para com a gente mesmo. Significa purificação em toda a sua extensão, abandonar o mal que vivifica no ser bárbaro, para resplandecer o ser aperfeiçoado fruto do conhecimento.

Portanto, o que se viu no debate é que, paralela a algumas posições e opiniões eivadas de boas intenções, misturou-se o preconceito puro contra não a Igreja Católica apenas (particularmente esta, é claro), mas contra todos os limites morais que devemos nos impor para seguir o caminho da evolução. A vida nos impõe limites desde que nascemos. Faz parte do conceito de existir. Ignorar estes limites apenas para conquistar espaço midiático, é ignorância suprema. Por mais pesquisa que façamos, por mais conhecimentos que possamos adquirir e acumular, os princípios básicos de nascimento e morte, gostem ou não, são leis imutáveis contra as quais será inútil se indispor.

Portanto, das tantas “razões” levantadas no debate, por certo que alguns tendem a se valer de sua base para impor à sociedade brasileira a idéia do aborto, o que seria ainda mais lamentável.

Em resumo: buscamos o conhecimento para evoluirmos como seres do universo, e o campo disto é moral, independente da religião que defenda a mesma posição. O conhecimento tem sido a ferramenta que temos usado justamente para evoluir. E esta evolução é moral, tenha ela cunho religioso ou não. Evoluir no conhecimento para evoluir a moral. Uma não convive sem a outra, nem hoje, nem sempre. A existência de uma implica, obrigatoriamente, na presença da outra. Podemos até avançar muito em um dos campos, mais em um do que em outro. Todavia, cedo ou tarde, o “embrião” divino que está no cerne de cada um, buscará equilibrar a balança. E não há ciência tampouco religião que faça uma valer mais do que outra. E, sobretudo, mesmo que haja prevalência provisória de uma sobre a outra, o princípio fundamental de cada um nós, é a incessante busca de uma moral científica, isto é, a moral fundamentada na razão, no conhecimento, e é neste sentido que a vida vigora em toda a sua plenitude, mesmo que com imperfeições, para as quais, livres de preconceitos, e com a balança em equilíbrio, acabaremos encontrando as respostas.