domingo, julho 20, 2008

Andando para trás...

Adelson Elias Vasconcellos

Uma pequena nota no site do Cláudio Humberto nos permite aprofundar uma ampla análise do atual quadro político brasileiro. E o diagnóstico a que se chega é constrangedor. No Brasil não se pratica política na acepção ampla do termo, e sim uma provinciana politicagem rasteira e indecente, em que se cuida, em tempo integral, de interesses pessoais da mais absoluta cretinice que se possa imaginar, em detrimento do interesse do país, ou de um projeto de país. Sob o título “Saco cheio”, diz a nota: “...O ministro Márcio Fortes (Cidades) vive um dilema: não agüenta mais as pressões da bancada do PP, que o indicou, sempre querendo mais verbas...” E até se poderia estender para exigências por cargos e verbas, e provavelmente, estaria mais completo o “cardápio” dos “diligentes” militantes.

Seja em que nível do poder a gente venha analisar o comportamento das nossas “autoridades”, sempre iremos encontrar a incessante busca, em primeiro lugar, do interesse pessoal, do corporativismo explícito, do “primeiro o meu”, a ganância individual de poder e status acima de qualquer outro interesse de cunho mais republicano.

E isto vale quinhentos e tantos anos de história. E, por se valerem deste comportamento mesquinho e conflitante com que o dever dos cargos deveria impor, podemos encontrar, passo a passo, nas raízes de cada uma de nossas mazelas, esta total falta de comprometimento da classe política como um todo como razão primeira e inequívoca para este imenso e rico país viver tantos séculos de miséria e atraso.

Mesmo agora, depois de vinte e tantos anos de ditadura e repressão, mesmo diante de 25 anos de descontrole econômico a distribuir mais miséria para um povo famélico, quando engatilhávamos os primeiros tiros dados em direção ao modernismo, eis que estamos retroagindo a largos passos, abraçando um populismo decadente e imbecil, e roubando do povo brasileiro o direito de ser feliz, de prosperar, de se desenvolver com competência, de avançar sobre si mesmo e, finalmente, sentir-se não apenas livre mas, sobretudo, como o beneficiário maior e último de todas as nossas enormes riquezas e potencialidades.

Nosso blog COMENTANDO A NOTÍCIA está por completar dois anos de existência e, neste período, foram inúmeros os artigos que escrevemos e editamos fazendo ver o lento processo de desinstitucionalização que o país vem sofrendo a partir de janeiro de 2003.

E, cada semana que passa, vemos este processo ir avançando lentamente sobre o Estado brasileiro, corroendo suas estruturas e aniquilando seus valores. Você não vê ninguém pedindo cargos por ter debaixo do braço um projeto ou idéias de trabalhos e programas para realizar. Não se vê, também, partidos apresentando plataformas de trabalho em favor do país. E, o que é mais estarrecedor: ao cabo de uns poucos anos de prestação de “serviços públicos” o que vemos são pessoas triplicando fortunas e patrimônios.

O desejo de se servirem do Estado se vê coroado pelos altos ganhos econômicos e financeiros injustificados que amealham o bônus apenas para si. Em troca do quê? De nada, os cargos lá estão, aos milhares, por eles desfilam centenas,e o resultado para o país não é apenas zero, é negativo, já que retiram os recursos do Estado em troca de absolutamente coisa nenhuma.

A partir de 2003, com mais intensidade, porque o processo já começara bem antes, o Brasil, em todas suas instituições, passou a empobrecer visivelmente com a ascensão do poder sindical e suas politicagens decadentes. O Estado passou a ser privatizado em proveito de um clubinho de Zé Bolinhas que não admite repartir a riqueza do país com quem quer que seja fora de seus quadros.

Veja-se, por exemplo, o recente arranca-rabo da polícia federal consigo mesma. Um delegado, Protógenes Queiroz, afirmar em alto e bom som que sonegou informações de suas investigações ao comando da instituição por temer “possíveis vazamentos”. E fica tudo por isso mesmo. Depois, a intromissão inconseqüente de um presidente da República, talvez por não confiar na competência de seu ministro da justiça, o que não seria surpresa, numa questão que deveria ficar restrita a decisões de natureza administrativa da própria PF. Conseqüência deste imbróglio, tomamos ciência da divisão interna, de natureza política da própria instituição que é do Estado, não do governo.

Tentem vasculhar as inúmeras fundações ou fundos de pensão do funcionalismo federal: é vergonhoso o que se passam em suas entranhas, a falta total de moral, a canalhice da política partidária alimentando órgãos que deveriam estar fora do alcance da politicagem rasteira e subalterna. Veja o caso do discutido habeas-corpus concedido por Gilmar Mendes a Daniel Dantas, que se valeu do que determina a Constituição, e mesmo assim, a CUT, entidade hoje robustecida pelas tetas do Estado e que “acha” que não deve prestar contas do dinheiro ao TCU, e, que por conta disso deveria ficar de fora da discussão, vem encaminhar um pedido de impeachment de um ministro do STF, que agiu dentro de autoridade, e com base apenas no que determina a constituição do país.. E onde estava a tão “ciosa” CUT ao tempo do Mensalão quando não pediu o impeachment de ninguém neste que se tornou o maior caso de corrupção do país? Em tempo: e o que foi feito de “alguns” cutistas quanto a sua participação no dossiê anti-Serra? Esta se antes já não tinha vergonha, agora perderam a moral de vez. Falta-se o indispensável senso do ridículo.

Portanto, não basta vestir os paramentos de um bispo para se tornar um. É preciso ser formado como tal, ter a alma e a consciência clerical para poder se declarar a tanto. Para o Brasil ser Primeiro Mundo, dois passos são imprescindíveis: primeiro, a Educação, não apenas a simples diplomação, que até burro ou mula podem ser diplomados. Mas é preciso que todos os cidadãos, ou sua grandiosa maioria, tenha educação com qualidade, com conteúdo, capazes de lhes fornecer as ferramentas do senso crítico. E, paralelamente, é preciso que o povo brasileiro se submeta, definitivamente, à lei e à ordem, para que a sociedade como um todo respire ares de civilidade, respeito aos direitos dos outros, que cada um se circunscreva aos seus limites. Ou seja, precisamos antes de gritar “meus direitos” cumprir nossos deveres. Ou adotamos tal comportamento, ou seremos um país rico ocupado por um povo pobre e bárbaro. Nada além disto.

É duro termos que aceitar que somos assim, bárbaros. É doloroso sabermos que somos corruptos. É cruel nos sabermos atrasados. Mas não chegamos a tal condição apenas fruto do acaso, ou de alguns poucos anos de cegueira e estupidez. Como também não se pode culpar o povo por refletir apenas aquilo que lhe passaram as elites política e econômica ao longo de tortuosos séculos de omissão e descaso.

Precisamos primeiro buscar uma identidade superior como alvo a perseguir. Ou seja, que país desejamos ser é a resposta que devemos perseguir e encontrar. Ou isso, ou mais séculos de trevas e atrasos. E não são autoridades de mandatos provisórios a quem cabe fazer tais escolhas, mas sim coordenarem um projeto que nos conduza ao objetivo para que, com um povo educado e civilizado, ele possa definir seu próprio destino.

Um exemplo disto é a questão por exemplo do aborto e das drogas. Há meia dúzia de imbecis e cretinos querendo definir que tais práticas sejam descriminalizadas, ao passo que o povo, em variadas ocasiões, já respondeu “NÃO”. Mas há quem queira escolher “pelo povo”, o que não deixa de ser uma aberração. Há também aqueles que querem escolher o que o povo deve receber como informação, tentativas cada vez mais constantes de cerceamento à liberdade de expressão e pensamento tem sido desferidas. Como há ainda aqueles que “se acham” entendidos para definir a vida que os brasileiros devem viver. Estupidez tem limite, eduquem o povo e ele fará suas próprias escolhas, e melhores do que qualquer imbecil partidarizado no poder sustentando-se das benesses imorais criadas na calada da noite, sem pudor, sem vergonha, sem escrúpulos.

Por isso, mais e mais a sociedade brasileira está exigindo que sejam inelegíveis candidatos a cargos eletivos que, de uma forma ou de outra, tenham contas a prestar à Justiça. Não interessa se tenha sido condenado ou não. Por mais forte razão, deve-se dar aos candidatos a “político do povo” um tratamento mais rigoroso do que aquele dispensado a servidores públicos concursados, ou seja, que tenham ficha limpa. E se, por alguma razão legal houver impedimento para se adotar tal prática, que se mude a lei e ponto final. O que não se pode é dar “licença” para corruptos continuarem delinqüindo impunemente e se servindo do cargo apenas em proveito próprio. Mas cada vez que se tenta criar tal barreira, reparem quantos surgem no cenário dizendo que “não pode isto”!!! Da mesma maneira, vejam o caso do trânsito: todos reclamam da imprudência dos motoristas. Mas tentem criar leis mais severas, multas mais pesadas, ou até mesmo retirarem de circulação carroças que deveriam estar no ferro velho há muito tempo pelo risco que oferecem !

Portanto, a educação deve privilegiar não apenas os aspectos de informar “direitos”, mas, sobretudo, de ensinar os deveres cívicos de cada um, para que todos sejam beneficiados por viverem e conviverem pacificamente numa sociedade mais justa, menos cruel, mais humana, menos violenta, mais civilizada. E que a todo o político seja dado igual tratamento despendido a todo cidadão comum quando se tratar de infringir a lei: sem privilégios nem concessões. Isto, aliado ao impedimento de candidaturas de verdadeiras ratasanas criminosas, já seria um belo primeiro passo.