Augusto Nunes, Jornal do Brasil
O ainda banqueiro Daniel Dantas informou, pela voz do chefe do departamento de subornos do Grupo Opportunity, que não tem medo do Supremo Tribunal Federal. O ex-banqueiro Salvatore Cacciola foi menos direto. "Confio na Justiça", declamou o risonho extraditado. Confia mesmo é na corte que lhe concedeu, pelas mãos do ministro Marco Aurélio Mello, o habeas corpus que lhe permitiria desfrutar de alguns anos de férias na Itália. A bandidagem da primeira classe tem motivos para acreditar que o STF é o mais compassivo dos tribunais. Os políticos que, graças ao "foro privilegiado", só podem ser julgados pela última instância do Judiciário, têm razões para crer que o STF não sabe punir.
O último figurão a conseguir que o Supremo enxergasse provas suficientes para remeter alguém à cadeia foi PC Farias, o tesoureiro de Fernando Collor, condenado a sete anos de prisão, por falsidade ideológica, em 12 de dezembro de 1994 – na mesma sessão que absolveu do crime de corrupção passiva o ex-presidente e o próprio PC. Assassinado em 1996, ele nem chegara a esquentar o catre: estava em liberdade condicional desde junho do ano anterior.
Depois de PC Farias, ninguém mais foi condenado. Entre 1996 e 2006, os 11 juízes de toga deliberaram em definitivo sobre 29 processos criminais. Dez foram devolvidos a instâncias inferiores e outros 13, engavetados por prescrição de prazo. Sobraram seis, atulhados de provas e evidências acumulados pela polícia e pelo Ministério Público.
Até um juiz de paz de lugarejo trataria de enquadrar pelo menos alguns participantes daquela feira de patifarias – do desvio de dinheiro público a bandalheiras eleitorais, de lesões corporais a uma tentativa de assassinato, passando até por um roubo de água em São Paulo. Os ministros liberam todos os acusados para delinqüir sem sobressaltos.
Sem sobressaltos e mais confiantes que nunca no STF. Como confiantes estão os 40 do mensalão denunciados pelo procurador-geral Antônio Fernando de Souza em agosto de 2007 e transformados em réus pela aprovação do parecer do ministro Joaquim Barbosa. Nenhum dos 40 acredita que será julgado antes de 2015.
E todos os integrantes do que o procurador-geral qualificou de "organização criminosa sofisticada" confiam – como Cacciola, como Daniel Dantas – no bom coração dos julgadores. Faz sentido. Entre julho de 2005, quando o escândalo explodiu, e agosto de 2007, quando o processo foi oficialmente instaurado, os suspeitos foram contemplados por sucessivos sinais de simpatia emitidos pelos ministros.
A fábrica de habeas corpus do então presidente Nelson Jobim funcionou em tempo integral. Ora a assinatura de Jobim permitia que algum bandido com muita coisa a contar respondesse com o silêncio às perguntas dos membros da CPI, ora determinava que, ocorresse o que ocorresse, o beneficiário do salvo-conduto não seria preso. Eros Grau sacava da toga uma liminar tranqüilizadora tão logo via José Dirceu pela proa. Quase todas as togas convidaram os pecadores a confiar no perdão definitivo.
O STF não tem o rosto de Ellen Gracie. Sempre teve a cara de Nelson Jobim, que é parecido com Gilmar Mendes, que é parecido com o STF visto em conjunto. Quem acha que afastar Gilmar Mendes é a solução para tudo ou é um perfeito idiota ou pensa que os outros são.
Larápios também merecem carinho
Os advogados da bandidagem cinco estrelas reagem com (Nelson Rodrigues, de novo) arrancos de cachorro atropelado quando a algema substitui o relógios de ouro no pulso dos clientes. Devem estar felizes com as gentilezas que saudaram a volta de Salvatore Cacciola. O prisioneiro viajou com as mãos livres, conversou amistosamente com os integrantes da escolta e, depois de recolhido ao novo endereço, nem comeu comida de cadeia: foi-lhe servido o prato do diretor. A OAB deveria exigir que, de agora em diante, todos os larápios recebam o mesmo tratamento.
Dois golaços do grande artilheiro
Maior artilheiro da história do Vasco (698 gols) e recordista absoluto em campeonatos brasileiros (190 gols em 19 temporadas), Roberto Dinamite acaba de assumir a liderança do ranking dos presidentes de entidades esportivas graças a dois golaços. O primeiro implodiu a tirania de Eurico Miranda. O segundo levou o presidente do Flamengo, Márcio Braga, a assistir a seu lado, na tribuna de honra, ao clássico entre os grandes clubes do Rio. O Brasil fica devendo a Dinamite uma lição e tanto: torcidas de times rivais não são exércitos envolvidos numa guerra de extermínio.
Muito cinismo e pouca vergonha
Os brasileiros com mais de dois neurônios pedem ao ministro da Justiça e ao presidente da República que parem de tratá-los como imbecis. Até o pijama de Celso Pitta sabe que os quatro delegados encarregados de conduzir a Operação Satiagraha foram afastados do caso pelo comando da Polícia Federal, que agiu com o apoio explícito de Tarso Genro e o consentimento de Lula. É muito cinismo simular, como tem feito o ministro, que a troca da guarda foi "uma medida administrativa de rotina". É muita desfaçatez mudar de idéia a cada fala sem renunciar à pose de mocinho da história, como tem feito o presidente Lula.
Longe do Brasil, a metamorfose viajante celebrou o desfecho da operação que anunciara o fim da impunidade dos picaretas de fina estampa. Ao voltar, irritou-se com essas algemas que tanto envergonham quem não tem vergonha de roubar. Ao perceber que as investigações haviam chegado à sala ao lado, avalizou a defenestração do delegado Protógenes Queiroz. No dia seguinte, acusou de deserção o homem que foi punido não pelos erros que cometeu, mas pelas descobertas que fez.
Tancredo vivia dizendo que a esperteza, quando é muita, fica grande e come o dono. Lula e Tarso ainda não sabem disso.
Mãe da gastança
O colunista errou: não foi o Itamaraty quem resolveu contratar uma agência de relações públicas para cuidar da preservação da imagem do Brasil no Exterior. A gastança (R$ 15 milhões por ano) é mais uma realização da Secretaria de Comunicação Social, a Secom.
Cadeira vazia
Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República para assuntos internacionais, foi indicado pelo governo para participar das reuniões em que o Brasil e o Paraguai discutirão o Tratado de Itaipu. Falta agora anunciar o nome de quem vai defender os interesses brasileiros.
O ainda banqueiro Daniel Dantas informou, pela voz do chefe do departamento de subornos do Grupo Opportunity, que não tem medo do Supremo Tribunal Federal. O ex-banqueiro Salvatore Cacciola foi menos direto. "Confio na Justiça", declamou o risonho extraditado. Confia mesmo é na corte que lhe concedeu, pelas mãos do ministro Marco Aurélio Mello, o habeas corpus que lhe permitiria desfrutar de alguns anos de férias na Itália. A bandidagem da primeira classe tem motivos para acreditar que o STF é o mais compassivo dos tribunais. Os políticos que, graças ao "foro privilegiado", só podem ser julgados pela última instância do Judiciário, têm razões para crer que o STF não sabe punir.
O último figurão a conseguir que o Supremo enxergasse provas suficientes para remeter alguém à cadeia foi PC Farias, o tesoureiro de Fernando Collor, condenado a sete anos de prisão, por falsidade ideológica, em 12 de dezembro de 1994 – na mesma sessão que absolveu do crime de corrupção passiva o ex-presidente e o próprio PC. Assassinado em 1996, ele nem chegara a esquentar o catre: estava em liberdade condicional desde junho do ano anterior.
Depois de PC Farias, ninguém mais foi condenado. Entre 1996 e 2006, os 11 juízes de toga deliberaram em definitivo sobre 29 processos criminais. Dez foram devolvidos a instâncias inferiores e outros 13, engavetados por prescrição de prazo. Sobraram seis, atulhados de provas e evidências acumulados pela polícia e pelo Ministério Público.
Até um juiz de paz de lugarejo trataria de enquadrar pelo menos alguns participantes daquela feira de patifarias – do desvio de dinheiro público a bandalheiras eleitorais, de lesões corporais a uma tentativa de assassinato, passando até por um roubo de água em São Paulo. Os ministros liberam todos os acusados para delinqüir sem sobressaltos.
Sem sobressaltos e mais confiantes que nunca no STF. Como confiantes estão os 40 do mensalão denunciados pelo procurador-geral Antônio Fernando de Souza em agosto de 2007 e transformados em réus pela aprovação do parecer do ministro Joaquim Barbosa. Nenhum dos 40 acredita que será julgado antes de 2015.
E todos os integrantes do que o procurador-geral qualificou de "organização criminosa sofisticada" confiam – como Cacciola, como Daniel Dantas – no bom coração dos julgadores. Faz sentido. Entre julho de 2005, quando o escândalo explodiu, e agosto de 2007, quando o processo foi oficialmente instaurado, os suspeitos foram contemplados por sucessivos sinais de simpatia emitidos pelos ministros.
A fábrica de habeas corpus do então presidente Nelson Jobim funcionou em tempo integral. Ora a assinatura de Jobim permitia que algum bandido com muita coisa a contar respondesse com o silêncio às perguntas dos membros da CPI, ora determinava que, ocorresse o que ocorresse, o beneficiário do salvo-conduto não seria preso. Eros Grau sacava da toga uma liminar tranqüilizadora tão logo via José Dirceu pela proa. Quase todas as togas convidaram os pecadores a confiar no perdão definitivo.
O STF não tem o rosto de Ellen Gracie. Sempre teve a cara de Nelson Jobim, que é parecido com Gilmar Mendes, que é parecido com o STF visto em conjunto. Quem acha que afastar Gilmar Mendes é a solução para tudo ou é um perfeito idiota ou pensa que os outros são.
Larápios também merecem carinho
Os advogados da bandidagem cinco estrelas reagem com (Nelson Rodrigues, de novo) arrancos de cachorro atropelado quando a algema substitui o relógios de ouro no pulso dos clientes. Devem estar felizes com as gentilezas que saudaram a volta de Salvatore Cacciola. O prisioneiro viajou com as mãos livres, conversou amistosamente com os integrantes da escolta e, depois de recolhido ao novo endereço, nem comeu comida de cadeia: foi-lhe servido o prato do diretor. A OAB deveria exigir que, de agora em diante, todos os larápios recebam o mesmo tratamento.
Dois golaços do grande artilheiro
Maior artilheiro da história do Vasco (698 gols) e recordista absoluto em campeonatos brasileiros (190 gols em 19 temporadas), Roberto Dinamite acaba de assumir a liderança do ranking dos presidentes de entidades esportivas graças a dois golaços. O primeiro implodiu a tirania de Eurico Miranda. O segundo levou o presidente do Flamengo, Márcio Braga, a assistir a seu lado, na tribuna de honra, ao clássico entre os grandes clubes do Rio. O Brasil fica devendo a Dinamite uma lição e tanto: torcidas de times rivais não são exércitos envolvidos numa guerra de extermínio.
Muito cinismo e pouca vergonha
Os brasileiros com mais de dois neurônios pedem ao ministro da Justiça e ao presidente da República que parem de tratá-los como imbecis. Até o pijama de Celso Pitta sabe que os quatro delegados encarregados de conduzir a Operação Satiagraha foram afastados do caso pelo comando da Polícia Federal, que agiu com o apoio explícito de Tarso Genro e o consentimento de Lula. É muito cinismo simular, como tem feito o ministro, que a troca da guarda foi "uma medida administrativa de rotina". É muita desfaçatez mudar de idéia a cada fala sem renunciar à pose de mocinho da história, como tem feito o presidente Lula.
Longe do Brasil, a metamorfose viajante celebrou o desfecho da operação que anunciara o fim da impunidade dos picaretas de fina estampa. Ao voltar, irritou-se com essas algemas que tanto envergonham quem não tem vergonha de roubar. Ao perceber que as investigações haviam chegado à sala ao lado, avalizou a defenestração do delegado Protógenes Queiroz. No dia seguinte, acusou de deserção o homem que foi punido não pelos erros que cometeu, mas pelas descobertas que fez.
Tancredo vivia dizendo que a esperteza, quando é muita, fica grande e come o dono. Lula e Tarso ainda não sabem disso.
Mãe da gastança
O colunista errou: não foi o Itamaraty quem resolveu contratar uma agência de relações públicas para cuidar da preservação da imagem do Brasil no Exterior. A gastança (R$ 15 milhões por ano) é mais uma realização da Secretaria de Comunicação Social, a Secom.
Cadeira vazia
Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República para assuntos internacionais, foi indicado pelo governo para participar das reuniões em que o Brasil e o Paraguai discutirão o Tratado de Itaipu. Falta agora anunciar o nome de quem vai defender os interesses brasileiros.