Percival Puggina , Revista Voto
A educação, no Brasil, vive um imenso paradoxo. Cai o índice de analfabetismo. Cresce, em valores absolutos e relativos, o número de pessoas com instrução superior. A escolaridade média do brasileiro aumenta. Nunca se investiu tanto nessa atividade quanto nas últimas décadas. Expande-se o nível de informação. Quem circula no início da noite, durante os dias úteis, pelas ruas das nossas cidades, necessariamente perceberá a grande quantidade que jovens que se deslocam, com mochilas e livros, em direção aos estabelecimentos de ensino. Muitas vezes a pé, para economizar a passagem do transporte coletivo, estômagos vazios da janta para a qual não houve tempo entre o fim do trabalho e o início da aula, rapazes e moças investem tempo e dinheiro na esperança de um futuro melhor. Mas a qualidade da educação e os resultados desse esforço são péssimos.
Anos atrás, escrito por um sociólogo norte-americano, li um livro no qual o autor expunha a tese de que os segmentos sociais mais significativos, aqueles que mais importavam ao futuro de qualquer país, nada tinham a ver com classes de renda. Diferentemente, afirmava ele, os grupos sociais deveriam ser agregados segundo o tempo que os indivíduos se dispunham a sacrificar para a própria formação. Em outras palavras, o que realmente importava era a disposição para o sacrifício atual com vistas a um bem futuro. Pois bem, as cenas de nossas ruas, evidenciando a existência de um Brasil que estuda, de uma juventude empenhada em saber mais, enfrentando os imensos desafios do trabalho raro, da mensalidade cara e do salário parco, deveriam tornar evidente, segundo os parâmetros do referido autor, que se somam razões, por esse viés, para a esperança nacional.
No entanto, todos os indicadores empregados para avaliar a educação brasileira mostram um enorme descompasso entre a expectativa e a realidade, entre o que o Estado e os indivíduos investem e os níveis dos conhecimentos e das habilidades adquiridos. No ensino fundamental, no médio e no superior, a situação é alarmante. O que está acontecendo?
Há alguns meses, tomei conhecimento e escrevi a respeito da tese apresentada por um professor de matemática para efeitos de mestrado ou doutorado. Lá pelas tantas, ao convidar a comunidade acadêmica para sua apresentação, ele pontificava que "os atuais processos de formação de professor de matemática ainda são fortemente sedimentados numa formação alienada aos ditames de uma sociedade de classes, que não permite ao futuro professor compreender e fazer uso da necessária autonomia inerente à sua atuação. (...) Assim, a investigação indica a necessidade de uma atuação dos formadores no sentido de conscientizar os futuros professores de matemática de sua tarefa como intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia dos excluídos, dos explorados em geral". Baboseira gramscista, em péssimo estilo, para professores de matemática.
Não hesito em afirmar que há uma grande responsabilidade dos professores e dos gestores do sistema nas insuficiências da educação brasileira em todos os níveis. O caso desse sujeito que sob o manto do ensino de matemática, deseja formar intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia, não se distingue de incontáveis outros que compreendem a educação como um processo de formação do aluno para a cidadania, para uma sociedade solidária, participativa e o escambau. Poucos estabelecimentos de ensino e raros educadores, se chamados a verbalizar suas expectativas em relação à própria atividade, colocarão no topo da lista a elaboração e a transmissão de conhecimento. O exemplo cubano, sobre aonde se vai com esse tipo de educação, fala por si. O país tem indicadores de escolaridade de primeiro mundo e uma sociedade de quarto mundo, que quase nada produz com aquilo que aprendeu ou que deveria ter aprendido.
O resultado disso, em nosso país, é um grande estelionato contra o contribuinte dos impostos que sustenta o sistema público de ensino e contra os pagadores das mensalidades no sistema privado.