Josias de Souza, Folha online
Por ordem de Lula, o governo divulgou trechos da gravação feita na reunião em que foi decidido o afastamento dos delegados da Operação Satiagraha.
A reunião, realizada na última segunda (14), foi longa. Coisa de três horas.
Mas divulgaram-se apenas três trechos. Edição feita sob medida. Juntos, os pedaços da fita somam pouco mais de 4 minutos.
Mostram o seguinte:
1. O encontro serviu para que a cúpula da PF repassasse aos delegados, à frente o dr. Protógenes Queiroz, a avaliação que fizeram do trabalho.
Os “erros” enxergados pela direção do departamento de polícia no inquérito foram à mesa. Quais? Com os nacos de gravação que vieram a público, só dá para saber um deles.
2. Num dos trechos, sem mencionar a TV Globo, o delegado Protógenes expia a culpa por ter permitido que uma equipe da emissora registrasse cenas de prisão.
“...Houve a presença da imprensa aqui em São Paulo? Houve. Falhou? Falhou."
“...Quem falhou? O [Protógenes] Queiroz falhou porque o doutor Troncon [Roberto Troncon Filho, diretor de combate ao crime organizado da PF de Brasília] me depositou e eu firmei compromisso com ele, mas falhou ao meu controle."
3. Avaliou-se o andamento do inquérito. E o diretor Troncon, emissário da direção, como que decidido a restabelecer o liame hierárquico que vincula o inquérito a Brasília, foi ao ponto:
“(...) Tem que ter um alinhamento, uma sinergia completa com a chefia da delegacia, com a Dercor [Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado], com o superintendente [da PF em São Paulo], com o Defin [Divisão de Combate aos Crimes Financeiros] e comigo [da direção nacional]."
4. A certa altura, discute-se a possibilidade de o delegado Protógenes fechar o relatório do inquérito até sexta-feira (18). Ele afirma que é possível.
Lero vai, lero vem, Protógenes manifesta a intenção de não retornar ao caso depois do curso de aperfeiçoamento que fará a partir de segunda (21).
Pode ter sido uma reação de alguém que se sente desautorizado. Mas os trechos da gravação, editados de modo a realçar a jogada de toalha do delegado, não permitem saber.
Diz Protógenes na fita: “[...] E até mesmo depois [do curso] da academia [de polícia] eu não pretendo. A minha proposta é:...”
“...Eu fico até o final da operação, porque eu criei um problema para os meus colegas delegados, criei um grande problema, e eu acredito que para você [Troncon] também, e a minha proposta é essa...”
“...É permanecer a minha vinculação no seu gabinete, à sua disposição, até o final dos trabalhos, pra não ficar aquela pecha de que Brasília vem fazer operação nos Estados e deixa no meio do caminho...”
“...As minhas [investigações] nunca ficaram no meio do caminho. As minhas nunca ficaram. E, a exemplo dessa, não vai ficar...”
“...Só que com um diferencial. Eu não vou estar presidindo, eu não pretendo presidir nenhuma investigação. Aí ficaria uma coisa, um trabalho, coletando dados."
5. O delegado Troncon, superior hierárquico de Protógenes, trata de deixar claro que o prazo do colega se encerraria na sexta. Ele disse:
“Se eventualmente, dentro do desdobramento natural desse inquérito que você instaurou, se você concluir antes desse período de você ir pra academia, sem nenhum problema...”
“...Agora, se não conseguir, dentro da melhor técnica, se falar não, se requer mais tempo, requer maior análise, aí a gente passa pra um dos colegas."
A decisão de divulgar trechos da fita foi tomada no Planalto. Deu-se numa conversa de Lula com o ministro Tarso Genro (Justiça). Presente também o diretor-geral interino da PF, Romero Menezes.
Tudo considerado, pode-se concluir o seguinte: o governo estava decidido a retirar o inquérito das mãos de Protógenes. Enxergara erros e excessos no trabalho do delegado.
Na reunião de São Paulo, lavou-se muita roupa suja. Editou-se a fita para evitar a exposição total das fraturas internas que fragmentam a estrutura da PF.
Divulgaram-se os trechos em que; a) Protógenes admite explicitamente um erro; e b) fala em deixar o inquérito.
A pergunta é: por que a PF, tão expedita no vazamento de grampos telefônicos dos personagens de suas investigações, sonega à platéia a íntegra de uma fita que expõe os seus próprios podres?
Por ordem de Lula, o governo divulgou trechos da gravação feita na reunião em que foi decidido o afastamento dos delegados da Operação Satiagraha.
A reunião, realizada na última segunda (14), foi longa. Coisa de três horas.
Mas divulgaram-se apenas três trechos. Edição feita sob medida. Juntos, os pedaços da fita somam pouco mais de 4 minutos.
Mostram o seguinte:
1. O encontro serviu para que a cúpula da PF repassasse aos delegados, à frente o dr. Protógenes Queiroz, a avaliação que fizeram do trabalho.
Os “erros” enxergados pela direção do departamento de polícia no inquérito foram à mesa. Quais? Com os nacos de gravação que vieram a público, só dá para saber um deles.
2. Num dos trechos, sem mencionar a TV Globo, o delegado Protógenes expia a culpa por ter permitido que uma equipe da emissora registrasse cenas de prisão.
“...Houve a presença da imprensa aqui em São Paulo? Houve. Falhou? Falhou."
“...Quem falhou? O [Protógenes] Queiroz falhou porque o doutor Troncon [Roberto Troncon Filho, diretor de combate ao crime organizado da PF de Brasília] me depositou e eu firmei compromisso com ele, mas falhou ao meu controle."
3. Avaliou-se o andamento do inquérito. E o diretor Troncon, emissário da direção, como que decidido a restabelecer o liame hierárquico que vincula o inquérito a Brasília, foi ao ponto:
“(...) Tem que ter um alinhamento, uma sinergia completa com a chefia da delegacia, com a Dercor [Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado], com o superintendente [da PF em São Paulo], com o Defin [Divisão de Combate aos Crimes Financeiros] e comigo [da direção nacional]."
4. A certa altura, discute-se a possibilidade de o delegado Protógenes fechar o relatório do inquérito até sexta-feira (18). Ele afirma que é possível.
Lero vai, lero vem, Protógenes manifesta a intenção de não retornar ao caso depois do curso de aperfeiçoamento que fará a partir de segunda (21).
Pode ter sido uma reação de alguém que se sente desautorizado. Mas os trechos da gravação, editados de modo a realçar a jogada de toalha do delegado, não permitem saber.
Diz Protógenes na fita: “[...] E até mesmo depois [do curso] da academia [de polícia] eu não pretendo. A minha proposta é:...”
“...Eu fico até o final da operação, porque eu criei um problema para os meus colegas delegados, criei um grande problema, e eu acredito que para você [Troncon] também, e a minha proposta é essa...”
“...É permanecer a minha vinculação no seu gabinete, à sua disposição, até o final dos trabalhos, pra não ficar aquela pecha de que Brasília vem fazer operação nos Estados e deixa no meio do caminho...”
“...As minhas [investigações] nunca ficaram no meio do caminho. As minhas nunca ficaram. E, a exemplo dessa, não vai ficar...”
“...Só que com um diferencial. Eu não vou estar presidindo, eu não pretendo presidir nenhuma investigação. Aí ficaria uma coisa, um trabalho, coletando dados."
5. O delegado Troncon, superior hierárquico de Protógenes, trata de deixar claro que o prazo do colega se encerraria na sexta. Ele disse:
“Se eventualmente, dentro do desdobramento natural desse inquérito que você instaurou, se você concluir antes desse período de você ir pra academia, sem nenhum problema...”
“...Agora, se não conseguir, dentro da melhor técnica, se falar não, se requer mais tempo, requer maior análise, aí a gente passa pra um dos colegas."
A decisão de divulgar trechos da fita foi tomada no Planalto. Deu-se numa conversa de Lula com o ministro Tarso Genro (Justiça). Presente também o diretor-geral interino da PF, Romero Menezes.
Tudo considerado, pode-se concluir o seguinte: o governo estava decidido a retirar o inquérito das mãos de Protógenes. Enxergara erros e excessos no trabalho do delegado.
Na reunião de São Paulo, lavou-se muita roupa suja. Editou-se a fita para evitar a exposição total das fraturas internas que fragmentam a estrutura da PF.
Divulgaram-se os trechos em que; a) Protógenes admite explicitamente um erro; e b) fala em deixar o inquérito.
A pergunta é: por que a PF, tão expedita no vazamento de grampos telefônicos dos personagens de suas investigações, sonega à platéia a íntegra de uma fita que expõe os seus próprios podres?