sexta-feira, outubro 03, 2008

A tentação desenvolvimentista

Estadão

A crise financeira mundial, já não se pode duvidar, não deixará o Brasil ao largo. Justifica-se, assim, que se pense em amenizar os seus efeitos sobre nossa economia, de um lado, assegurando liquidez ao sistema bancário, para permitir que as empresas disponham dos recursos necessários e, de outro, mantendo a oferta de créditos para o comércio exterior a fim de permitir um aumento das exportações e o financiamento das importações. O que não podemos aceitar é o descontrole do déficit das transações correntes do balanço de pagamentos.

No entanto, a situação internacional também obriga a pensar na adoção de uma política de austeridade fiscal que inclua a redução dos gastos correntes para reduzir a necessidade de financiar o déficit nominal com emissão de títulos públicos. Seria conveniente, até, uma revisão dos programas de investimentos, optando-se pelos mais essenciais e que requeiram menos recursos de fontes financeiras externas, cujo acesso será difícil e a custo elevado.Falar em austeridade certamente não agrada ao governo petista, uma vez que Lula pensa em terminar seu mandato de maneira apoteótica, com crescimento excepcional, em vista das eleições de 2010. Daí a ordem presidencial de não sacrificar nenhum investimento nem adotar nenhum pacote econômico. Pode-se temer que a corrente do desenvolvimento a qualquer custo triunfe dentro do governo, o que poderia dar alguns resultados no curto prazo, mas, com o aumento das pressões inflacionárias e a deterioração das contas externas, deixaria uma herança dramática para o próximo presidente.

Cabe ao governo ter coragem de renunciar a investimentos cujo alvo é o seu prestígio eleitoral. Os investimentos a serem mantidos são aqueles que contribuem para aumentar a produtividade, isto é, a capacidade de competição no mercado internacional.

Por exemplo, é um fato positivo para o País a descoberta de jazidas de petróleo, mas isso não significa que a curto prazo devemos nos tornar grande exportador dessa commodity, pois mais importantes são a auto-suficiência e a independência do gás boliviano. Devemos encorajar a petroleira americana Anadarko a explorar a jazida que descobriu recentemente, em vez de aumentar os empréstimos à Petrobrás. É preciso encorajar os investimentos feitos por meio de concessão ou no sistema PPP, em vez de o governo assumi-los sozinho. Governar bem, afinal, é escolher bem...