sábado, fevereiro 07, 2009

O sacristão do cardeal

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Zé Maria era sacristão da dourada capela da Universidade do Brasil, na Urca, em fevereiro de 1959, há meio século. Os bacanas do Rio casavam-se lá. Antes de começar mais um casamento, Zé Maria avisou:

- Cumprindo ordens do senhor cardeal-arcebispo dom Jaime de Barros Câmara, solicito que saiam da capela as senhoras e moças sem a cabeça coberta, com vestes imodestas e lábios exageradamente pintados.

O pai da noiva, valoroso oficial da FAB, protestou:

- Daqui não sai ninguém.

O sacristão Zé Maria, valente, reagiu:

- Então não vai ter casamento nenhum.

O brigadeiro puxou um revólver. Surpreendentemente, Zé Maria puxou outro. Foi a maior correria. Não houve tiros. Nem casamento.

Dom Jaime
O cardeal deu razão a Zé Maria, interditou a bela capela da reitoria e, no dia seguinte, “O Globo” publicou e republicou nesta semana, na coluna diária do Segundo Caderno, “Há 50 anos”:

- “O tema da palestra de ontem do cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, em “A Voz do Pastor”, foi o incidente ocorrido na capela da Universidade do Brasil. Observando que “Deus escreve certo por linhas tortas”, disse o cardeal que o clero vem insistindo na aplicação das leis sinodais desde muito antes do Congresso Eucarístico, as quais mandam que os párocos, reitores e capelães aconselhem as senhoras e senhoritas a terem a cabeça coberta no recinto sagrado, preferindo o véu-chapéu, e que insistam na proibição de aparecerem na igreja com vestes imodestas e lábios exageradamente pintados”.

Dias depois, Pedro Calmon, reitor da Universidade do Brasil, conseguiu com o cardeal reabrir a capela.

Consultado por uma amiga, que pretendia casar a filha lá, como deveria comparecer à cerimônia, respondeu:

- Com metralhadora, minha senhora.

As escolhas dos novos líderes dos partidos no Senado e na Câmara andam tão violentas que eles vão acabar seguindo a sábia recomendação de Pedro Calmon e comparecendo às reuniões com metralhadoras.

Ministro extemporâneo
Conta o Ancelmo Góes, em “O Globo”, que o ministro da Saúde, José Temporão, “vai cair na folia: sairá no Cordão do Prata Preta, no sábado de Carnaval, no Rio. O bloco homenageia Horacio José da Silva, que liderou a Revolta da Vacina, em 1904” (e sai todo ano na Gamboa e na Saúde).
Que a turma da Gamboa e da Saúde cultive a memória do estivador e capoeirista, tudo bem. Ele era de lá e brigou à frente da sua gente. Mas o ministro da Saúde, até por ser ministro da Saúde, deve saber que, na Revolta da Vacina, os heróis foram três homens que, pagando o preço da incompreensão e do atraso da sociedade de então, honraram os cargos e os deveres públicos e implantaram a vacina obrigatória contra a febre amarela: o presidente Rodrigues Alves, o prefeito Pereira Passos e sobretudo o destemido e valente cientista Osvaldo Cruz, diretor-geral da Saúde Publica.

Até os alienados cadetes da Escola Militar foram envolvidos na campanha histérica contra a vacina. A Liga Contra a Vacina mobilizou multidões, sobretudo os liderados de Horacio José da Silva, o Prata Preta. O saldo final da batalha foi 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, 461 deles deportados para o Acre. Mas a febre amarela que, em 1902 já matara 984 só no Rio, 584 em 1903 e 589 em 1904, com a derrota da Revolta da Vacina foi reduzida em 1906 a 39 mortos, 4 em 1907 e nenhum em 1908.

Esta é uma injustiça extemporânea que Osvaldo Cruz não merece. A Fiocruz devia amarrar as pernas dançantes do exemplar ministro Temporão.

Senado
A foto diz tudo. O Senado vai acabar transferido para o Nordeste: presidente, José Sarney, do Maranhão. 1º secretário Heráclito Fortes, do Piauí. 2º secretário Mão Santa, do Piauí. Terceiro secretário João Claudino, do Piauí. Quarto secretário Patricia Sabóia, do Ceará. E os outros lugares na mesa, do Centro-Oeste: Marconi Perilo, de Goiás, 1º vice-presidente. E Serys Slhessarenko, de Mato Grosso, 2ª vice-presidente.

O Sudeste e o Sul sobraram. Não lhes deram nem a chapelaria.

Ombudsman
Sábado é dia de ombudsman. Nosso Merval Pereira, de “O Globo”, talvez por já estar há seis meses em Nova York, sempre mandando suas brilhantes colunas, surpreende-se com o compra-compra e troca-troca do Congresso:

1 - “O impeachment do ex-presidente e atual senador Fernando Collor, em vez de colocar a política brasileira na rota correta, como se esperava na ocasião, deixou uma maldição que tem custado caro às nossas instituições: estabeleceu-se desde então a premissa de que é preciso fazer qualquer tipo de acordo político para viabilizar o que se convencionou chamar de governabilidade”.

2 – “Não no sentido de uma coalizão política que dê sustentação a um projeto de governo, mas simplesmente para a garantia de uma maioria parlamentar para que o governo não seja inviabilizado ou até mesmo derrubado por um golpe parlamentar”. (Como o golpe contra Collor.) “Por essa tese, Collor não teria sido impedido se, naquela ocasião, tivesse dividido as benesses do governo com uma base parlamentar ampla.”

Como diria Nelson Rodrigues, um dia o óbvio ulula.