quarta-feira, dezembro 30, 2009

Ahmadinejad faz escola

Paulo Brossard, Zero Hora

Na hierarquia do Itamaraty, o secretário-geral é a segunda autoridade, só abaixo do ministro de Estado. Por isto, quando para o cargo foi escolhido o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, houve discreto, mas audível sussurro em vários estamentos da administração e fora dela; aludia-se à exacerbação de seus conceitos e preconceitos.

Por conta de algum gosto pela nossa história, de suas figuras mais representativas, da circunstância de a fortuna ter me levado à Câmara e depois ao Senado e neste ter pertencido à sua Comissão de Relações Exteriores, dos naturais contatos com servidores da Casa de Rio Branco, e ainda de, por motivos vários, ter tido a oportunidade de fazer viagens ao Exterior, a maior parte das vezes a convite de Estados, vim a conhecer um pouco do nosso serviço diplomático, e a respeito do seu alto quilate tenho dito que, em geral, os brasileiros não sabem a qualidade do serviço que o Brasil tem nessa área. Outrossim, faz muito que o serviço ocupa um espaço à parte no arquipélago da administração; no entanto, o governo atual parece ter nele implantado um regime diferente, pois ao ministro foi aditado um “assessor especial do presidente”, como se os ministros não fossem assessores e conselheiros legais e naturais dele, nem fossem de sua livre escolha e confiança; como se não bastasse, o secretário-geral do Ministério teria perfil inédito. Agora, por fim, o ministro de Estado, que jamais se inscrevera em partido, ao que se sabe, filiou-se ao partido do presidente. Fico no registro do fato, que, de resto, é público.

Por que estou beirando um terreno delicado, quando não me compete apreciar as afinidades ou desafinidades ideológicas desta ou daquela autoridade? É que foi divulgado, sem reparo, que o ex-secretário-geral do Itamaraty, hoje ministro para Assuntos Estratégicos, ainda quando secretário-geral, em conferência no Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty, ao defender a reforma do Conselho de Segurança e nele colocar como membros permanentes Brasil, Índia, Alemanha e Japão, o que seria perfeitamente normal, concorde-se ou não com o alvitre, teria sustentado que Alemanha e Japão teriam sido excluídos dos Conselhos da ONU nascente, em 1946, e penado por “anos de purgatório, de punição por terem desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo”.

Ora, aqui a porca torce o rabo. Alguém ignora que em 1945 Alemanha e Japão, vencidos, estavam arrasados, depois de seis anos da maior e mais cruenta guerra da História, iniciada pela primeira, em setembro de 1939, agravada pelo segundo ao atacar os Estados Unidos com o bombardeio de Pearl Harbor; no fundo de sua destruição moral, militar, econômica e política, não tinham nem governo, e antes do Plano Marshall, que os tiraria da miséria, não passavam de sombras do que tinham sido e obviamente sem condições de participar de qualquer entidade tendente a refazer o mundo depois da catástrofe? Dizer que Alemanha e Japão, no fim da guerra que eles promoveram e participaram até o fim, foram punidos por terem “desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo” seria um dislate na boca de um troca-tintas, e um embaixador do Brasil não pode ser tido como tal. Tudo isso soa falso no invento do então secretário-geral do Itamaraty e agora ministro para Assuntos Estratégicos do presidente Luiz Inácio. Para que a Alemanha e Japão não estivessem em situação em que se encontravam em 45/46, seria de mister que o nazismo et caterva tivesse obtido o imaginado império de mil anos e a civilização ocidental houvesse sucumbido. Em matéria de sectarismo não é pouco.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

O artigo de Paulo Brossard foi ministro da Justiça, no tempo em que aquela pasta era ocupada por gente de brio e com um mínimo de decoro, não como hoje, que qualquer um que defenda bandido tem assento garantido, ou que qualquer boçal que seja capaz de falar horas seguidas sem que ninguém consiga aproveitar sequer uma vírgula útil de seu discurso imbecil.

O ex-ministro não apenas tem legitimidade para falar escrever o que se lê em seu artigo. Tem cultura e conhecimento da História suficientes para desbancar qualquer assessor ou secretário cretino que se aventure a querer macular os fatos que assombraram o mundo. Defender, como Samuel Pinheiro, o Idiota, a causa da inclusão da Alemanha e do Japão logo após a Segunda Guerra Mundial, onde, ao lado do fascista Mussolini, vitimaram mais de 60 milhões de pessoas por suas estúpidas ambições de poder, é compactuar com os crimes que o eixo do mal praticou. É dar as mãos aos nazistas, fascistas e os imperialistas japoneses, é convalidar sua ideologia assassina. Samuel Pinheiro, se vê, não tem o menor escrúpulo em desconhecer a própria história para vender à opinião pública sua podridão ideológica, sua vigarice política, sua asquerosa simpatia pelos regimes de terror.

Faz bem o ex-ministro Brossard, seja por sua cultura e pelo respeito que conquistou em defender sempre a democracia plena e as luzes das liberdades e respeito e garantias dos cidadãos, em vir a público para desmentir a vigarice que Samuel Pinheiro tentou aplicar.

Pena que gente como o ex-ministro seja rara neste país, mas ainda assim, suficiente para fechar a boca de pulhas que se alinham à estupidez, ignorância e má fé desta corja que, chutando a história, tenta impor no país um regime de terror semelhante aqueles com os quais tanto se identificam e se simpatizam.