Daniel Piza, Estadão
Os problemas certamente virão. É ingênuo pensar que é possível ter uma política de quinta categoria e uma economia de “primeiro mundo”, como tenho ouvido de pessoas do mercado financeiro. Primeiro, porque – ao contrário de uma Itália, com seus Berlusconis e sua instabilidade parlamentar – o Brasil é em muitos sentidos um país imaturo, que não consolidou suas instituições, seus valores essencialmente democráticos. Segundo, porque muitas das melhoras a longo prazo que o desenvolvimento exige – como as reformas estruturais e a competência pública – têm remotas chances de vingar com a atual classe política e o insano sistema partidário. Essa propaganda lulista de que o Brasil “está quase lá”, bastando continuar o que está sendo feito (desde o governo FHC, como se sabe), é apenas isso, propaganda. Ilusão.
A população já demonstrou claramente que pretende votar pela continuidade, relativamente satisfeita com o crescimento da economia e a queda do desemprego, mas, volto a dizer, quem imagina que não existe frustração com muitas realidades brasileiras comete um equívoco. O novo escândalo do governo Lula, com a violação de dados sigilosos de nomes tucanos pela Receita, inclusive da filha de Serra, não deve alterar significativamente o panorama eleitoral, mas isso não justifica que a ministra e candidata Dilma desdenhe a gravidade do fato. Uma coisa é dizer que não há provas que mostrem que foi a mando da campanha petista, outra é fingir que um crime não foi cometido e não teria o adversário tucano como alvo – e deixar de investigar e punir.
Lulistas sempre disseram que a corrupção não aumentou, que apenas estaria aparecendo mais, supostamente graças a trabalhos como o da Polícia Federal, ora curiosamente sumida do noticiário. Notei na época do mensalão que o caixa 2 do PT e aliados não tinha, estranhamente, motivado nenhuma operação “Estrela Vermelha”, nenhuma apreensão de arquivos, nenhuma prisão de Valério e Delúbio. Ainda assim, somos obrigados a ouvir de intelectuais da USP e Unicamp que os juízes grampeadores prestam grande serviço à República e que a “Era Lula” (sic) tem sido a mais “justa e inclusiva” da história do Brasil… Sim, a corrupção no Brasil não escolhe partido, mas o partido que está no poder federal tem feito muito pouco pelo fim da impunidade. É o governo do “não sei”, do “todo mundo faz isso”, do “relaxa e goza”.
É mais que legítimo, portanto, qualquer cidadão se perguntar se o próximo governo vai dar continuidade a isso também. A julgar pelo histórico recente da provável eleita, o difícil é acreditar que os escândalos diminuirão. Não é a primeira vez, afinal, que pairam suspeitas sérias sobre, digamos, os “métodos administrativos” de Dilma e sua turma, sua atração por dossiês e violações. Além disso, ao contrário de Lula, ela faz campanha nos braços do PMDB, partido do qual seu vice é um dos caciques, e distribui sorrisos – forçados, mas não menos comprometedores – ao lado de Sarney, Barbalho, Renan e outras sumidades. Quanto terá custado o apoio do maior partido do Brasil? Ou melhor, quanto ainda custará, em termos de futuros contratos empreiteiros e emendas parlamentares? E os aloprados, soltos como nunca, continuarão a triunfar? Sem a blindagem carismática que Lula tem, Dilma pode se complicar.
Mas não apenas as instituições e os valores que seguem impotentes. Apesar dos ótimos números sazonais da economia, em grande parte ajudados pelo que foi feito antes e pela conjuntura internacional, a incompetência gerencial tem dado o tom. Pense nas realizações de cada ministério nos últimos oito ou 16 anos. Há pequenas vitórias, programas pontuais de boa repercussão, mas não uma melhora consistente de um setor no todo. O acesso a universidades continuou aumentando, mas a grande maioria da população permanece estancada num ensino médio de nível decadente. As estatísticas de saúde melhoraram pela inércia da melhora no IDH, mas o atendimento em hospitais públicos continua a ser quase sempre precário. A criminalidade não desce do patamar hediondo que ultrapassa países em guerra, do mesmo modo que o desumano sistema penitenciário segue sendo uma indústria de bandidos. Favelas são pintadas em tintas coloridas, mas não têm rede de esgoto. Estradas, correios, portos, aeroportos, usinas – com mais termoelétricas, ou seja, mais poluentes – e toda a infraestrutura continuam beirando o colapso. Etc., etc.
Mesmo na condução da política econômica propriamente dita há mais problemas do que se imagina. Dilma disse na semana passada que não é preciso fazer ajuste fiscal porque as reservas financeiras estão altas e a dívida interna declinante. Mas as reservas são para diminuir o risco e atrair o mercado internacional e, sim, a dívida interna subiu, sobretudo depois de o governo sair fazendo bondades setoriais na crise e ampliando seus gastos com servidores e desperdícios. Pior, a taxa de investimentos continua abaixo de 20% do PIB, o que significa que o Brasil tem compromissos pela frente – como organizar eventos esportivos e explorar o pré-sal – que não tem como arcar; BNDES e Petrobras não podem fazer isso sozinhos. Se tivesse uma política regulatória para atrair investimentos produtivos, o cenário seria outro. Mas Dilma está há quatro anos no poder e só ajudou as estatais e as bolsas. O capital produtivo segue sobrevivendo apesar do Estado, não por causa dele.
Há coisas boas nos governos de 1994 para cá, mas há muitas coisas ruins e coisas por fazer. O problema de uma cultura oligárquica e comodista é confundir umas e outras, vendendo a ideia de que as primeiras gradualmente – do modo suave, cordial ou doce que tantos estudiosos gostam de destacar como uma essência imutável – levarão à extinção das demais. O povo quer algumas continuidades, mas também gostaria de algumas mudanças. O que terá, no máximo, serão continuidades ou ajustes disfarçados. É essa a herança maldita do governo Lula: ele desmoralizou a mudança.