segunda-feira, setembro 06, 2010

A Degradação moral por herança

Adelson Elias Vasconcellos

Imagine-se num país de primeiro mundo, o que poderia acontecer com um ministro, não um qualquer não: mas o ministro da FAZENDA, vir a público, do modo mais natural do mundo, e confessar quase que de forma irresponsável, que a violação de sigilos fiscais dos contribuintes, é uma normal, corriqueira? Certamente, antes mesmo de terminar a entrevista, estaria, sumariamente, demitido.

Vejamos outra situação: tentem imaginar que, no governo FHC, ele próprio, concedendo entrevista à imprensa, após uma hipotética violação de sigilo fiscal contra um dos filhos de Lula, e dissesse que tudo não passava de futrica! Sem dúvida, que tanto o PT abriria uma guerra sem tréguas, como ainda a imprensa desceria o sarrafo sem dó nem piedade sobre o então presidente FHC. Claro, não faltaria um Tarso Genro para berrar, todo histérico:”Fora FHC”.

Pois no Brasil de 2010, e nem vai se discutir se o crime teve ou não conotação política, dezenas de cidadãos tiveram seus dados fiscais violados, informações que podem estar até em poder de quadrilha de criminosos, os quais poderão praticar extorsão e até mesmo sequestros, e o nosso garboso presidente, ao invés de vir a público desculpar-se à Nação pela falha ocorrida dentro de seu governo, por gente por ele escolhida para desempenhar um serviço público de enorme importância e responsabilidade, sobe num palanque para agredir as vítimas por elas haverem protestado contra um crime grave, que põe em risco sua própria segurança. Num tom raivoso, ainda tem a petulância de desafiar estas mesmas a exibirem os “tais sigilos”. Santo Deus, que país é este, me digam? Onde estão os valores como decência, dignidade, moral, respeito? Onde foi parar o decoro com que deveria portar-se a mais alta autoridade da Nação, que ao assumir, jurou cumprir a constituição, e já no encerramento de seu mandato, manda tanto o decoro do cargo, quanto a Constituição que jurou cumprir, às favas?

É asqueroso ver alguém se diminuir tanto assim... Porém, este é o presidente que o povo brasileiro escolheu, de cujo governo restará uma herança maldita, na área de serviços públicos, indigna de um país com o PIB que se produz, e com a montanha de impostos que o Estado retira da sociedade. É inexplicável que este mesmo povo ainda escolha como governantes e representantes legislativos gente da laia de um Fernando Collor, José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, afora mensaleiros e aloprados, afora aqueles cuja candidatura foram impugnadas pelo TSE, mas que se mantém favoritos em disputas eleitorais como são os casos de Joaquim Roriz e Jader Barbalho.

O que estes “desastres eleitorais” estão a nos dizer? Que a sociedade brasileira, goste-se ou não, mas é a realidade que se vê, ainda não foi devidamente educada para o seu papel cívico, que está moralmente degradada razão pela qual “aceita” votar em qualquer um, mesmo que esse “qualquer um” seja um corrupto da pior espécie, e que não se deu conta que estes canalhas é que a razão maior de sua miséria e pobreza, porque locupletam-se de forma torpe do dinheiro que é arrancado de cada um de nós.

Santo Deus, o Brasil não é propriedade de político algum! Eles é quem nos devem obrigação e satisfação. Somos nós quem os sustentamos, e muito além do que eles próprios merecem. Enriquecê-los com o suor do nosso trabalho a troco do quê, digam? TODOS OS POLÍTICOS, e TODOS os servidores públicos nas esferas do poder, de qualquer nível, são EMPREGADOS do povo brasileiro! Nós é que devemos dizer-lhes o que queremos. Somos nós quem lhes deve determinar os limites e os objetivos de suas ações. Não devemos nem podemos transferir-lhes uma autoridade que não merecem.

Se a saúde pública vai mal – e vai – devemos obrigá-los a agir na sua melhoria, e não permitir-lhes aumentar seus próprios salários, porque o dinheiro a mais que embolsam faz falta à melhoria de hospitais e de atendimento médico na rede pública.

Há exemplos no mundo nos quais podemos nos espelhar: há países de primeiro cujos políticos recebem mera ajuda de custo para realizar, por determinado período, trabalhos legislativos. Uma vez encerrados, todos deve retornar às suas atividades profissionais para se sustentarem. Por que político no Brasil tem de se tornar profissão? Há países em que TODOS OS GASTOS estão disponíveis para consulta, inclusive dos governantes! Por que o senhor Lula da Silva, de forma autoritária e inescrupulosa, pode se dar ao luxo de decretar sigilo nas suas despesas pessoais, que são pagas pela sociedade? Por questão de segurança? Então digam lá: quantos presidentes brasileiros foram assassinados no poder, ou sofreram atentados? Quantos? Apontem-me um ao menos, e já me darei por satisfeito.

Por que, também, num país que não para de crescer, seja a sua população ou sua economia, consegue a proeza de ver, de um ano para outro, reduzirem-se na média superior a 5% o número de matrículas no ensino médio? Por que 40% dos alunos do ensino fundamental não chegam ao ensino médio? E por que, mais da metade do país não tem, ainda em pleno século 21, rede de esgoto e água potável encanada? Falta de recursos é que não é, diante de tantos palacetes que se constrói para abrigar servidores públicos os quais, diga-se, também, são aquinhoados com infinitas benesses? Que justificativa decente se é possível que um senador, em Brasília, possa abrigar em seu gabinete mais de 70 “assessores”, quando bem sabemos que estes senadores não trabalham mais do que 3 dias por semana, gozando de dois períodos de férias por ano? Quando não se dão ao luxo, de esticar feriadões por durante uma semana?

Degradação moral, senhores, não é feita apenas de corrupção, de desvio de dinheiro público, de cobrança de propina, de superfaturamento de obras públicas (muitas que nem sequer chegam a ser concluídas), de maracutaias e pilantragens! Degradação moral é também nos deixarmos roubar por gente que lá está para nos servir e não servir-se da sociedade em proveito ilegalmente próprio. E ainda conceder-lhes novos salvo-condutos para continuarem nos roubando, corrompendo, extorquindo. Quando se chega a tal estágio deprimente de permissividade, que país estaremos deixando para nossos filhos! Que tipo de indivíduos estamos formando para o futuro do país? Que moral teremos, amanhã ou depois, para querer reclamar do político que nos rouba, se somos nós mesmos quem os colocamos lá, apesar de não passarem de vigaristas e cafajestes? É este o mundo que sonhamos deixar para os filhos para os quais enchemos a boca com juras de amor eterno, entretanto deixando-lhes como herança um país pervertido e promíscuo até o fundo da alma?

Enquanto formos assim, agindo e pensando assim, nós, sociedade brasileira é quem somos devassos, imorais, despidos de qualquer valor humano, somos nós os negligentes, os omissos, os incompetentes.

E se um dia algum filho nos cobrar pela herança maldita de um país corrompido e anárquico que lhe deixamos, sequer o direito de protestar poderemos reivindicar.