sexta-feira, setembro 24, 2010

A estupidez dos que defendem a censura

Adelson Elias Vasconcellos


Sinceramente, não iria dar a menor pelota para o evento promovido para defesa do tal controle social da mídia. Todavia, sendo a reivindicação, em si, algo pavoroso e estúpido, impossível não exercer o direito que eles ainda me permitem ter, para expressar a minha inconformidade, por ser este meu direito de cidadão. Por não ser jornalista, nem empregado de nenhum dos grupos, alvo da ira das esquerdas, nem estar vinculado a nenhum partido político, sinto-me tranquilo para opinar, pois creio que comungo das mesmas ideias defendidas pela maior parte da sociedade brasileira.

O movimento parte do pressuposto absurdo de que Estadão, Folha, Globo e Abril, leia-se Revista Veja, estariam mancomunados na tentativa de evitar a eleição de uma presidente, no caso Dilma Rousseff, e só por esta razão estariam noticiando fatos negativos do governo Lula, o que caracteriza para eles, um golpismo midiático.

Imaginar que houvesse uma possibilidade espúria de aliança destes quatro grupos, para deflagrarem uma ação conjunta com o objetivo de impedir a eleição de Dilma, já seria um flagrante delírio, quando não extrema má fé. Digam se é liberdade de informação a tentativa de se impedir que notícias ruins do governo Lula possam ser veiculados, apenas por conta do calendário eleitoral? Se esse é propósito do movimento, aí, sim, poderíamos falar em golpismo midiático, já que a imprensa estaria induzindo o eleitor ao erro, por sonegar-lhe informações indispensáveis para seu processo de escolha. Depois, no caso da violação dos sigilos fiscais, a Polícia Federal já indiciou, ATENÇÃO, 6 pessoas, sendo a primeira delas ré confessa, e isto porque o crime que se denunciou não passava de “um factoide” como assim definiu a própria Dilma. Já no caso do lobby montado dentro da Casa Civil, já não caíram a própria ministra Erenice Guerra e mais três assessores? Fossem todos inocentes, nem Lula se prestaria a imolar em praça pública gente de sua equipe. Por fim, os próprios empresários que o noticiário apontou como tendo sido extorquidos pelo lobby praticado pelo filho da ex-ministra, já confirmaram as denúncias noticiadas. Então, se as notícias se confirmaram em testemunhos, documentos e até pelas investigações até aqui feitas pela Polícia Federal, onde se caracterizaria o tal golpismo midiático que apontam?

É preciso ser um total ignorante do verdadeiro papel da imprensa e do significado do que seja liberdade de expressão, para negar-lhe o seu direito de fiscalizar e noticiar atos do governo federal. Não se pode confundir a origem operária de Lula e a origem acadêmica de Fernando Henrique, por exemplo, para conceder salvo conduto e tolerância para um, Lula, e despencar o máximo de críticas e condenações a outro, FHC.

Lula, não faz muito, em mais um daqueles momentos de descontrole emocional de palanque eleitoral, disse que o papel da imprensa é apenas informar, e não fiscalizar. Ora, acaso a imprensa não é uma das muitas entidades representativas da sociedade? E, sendo assim, não é um direito que assiste a sociedade fiscalizar os atos do governo de plantão, que ela própria escolheu pelo voto direito? Os arquivos da imprensa estão aí para desmentir e desarmar o tal golpismo com que se tenta mascarar ações inescrupulosas de governo, porque os fatos noticiados acabaram se confirmando. Então, onde se situa o tal golpismo? .

Mas a tolice toda não se resume apenas a esta visão distorcida da realidade, e que os principais grupos patrocinadores e idealizadores do movimento se agitam em torno da bandeira do “golpismo midiático”.

Uma das reivindicações da turma é o tal controle social da mídia. Pois bem, pergunto, quem executará o tal controle, e em que campos da mídia o mesmo será exercido? Porque falar em mídia não representa absolutamente nada, já que os veículos de comunicação se utilizam de diferentes linguagens. E aí você vai olhar a notícia e encontra coisas do tipo “... Luiza Erundina afirmou que "o controle social terá que acontecer". "É o estado que faz a outorga, a sociedade vai ter o controle". Pergunto a dona Erundina: a que tipo de outorga a senhora está se referindo? Rádio? Televisão? Imprensa escrita? Internet? Todas as alternativas anteriores? Qual, cara pálida?

Então vejamos: rádio e televisão são concessões dadas pelo Estado, certo? Neste caso, pergunto, por que é o Estado quem dá concessão, estes canais de comunicação ficam impedidos de veicular matérias que denunciam mal feitos pelo governo? É isto? E se mudar o governo, e ele for de oposição ao governo anterior, o outorgante, aí tá liberado, pode “matar a pau”? Dê a senhora Erundina e todos os que comungam desta ideia bestial o apelido que quiserem, mas isto é CENSURA. A mídia utilize-se de qualquer canal, com ou sem concessão, pratica o que na constituição é definido como liberdade de expressão, e querer aplicar-lhe um tapa-olho, para que ela só enxergue e noticie coisas favoráveis ao governo plantão, em qualquer lugar do mundo decente e democrático, é chamado de CENSURA, ou, se preferirem, imprensa chapa branca, o que dá no mesmo.

Sigamos: e quanto à imprensa escrita, pergunto, ela existe por concessão ou se trata de uma atividade privada como outra qualquer? Também aqui, apesar de ser exercida por entes privados, se praticará o tal controle social que, como vimos acima, não passa de CENSURA disfarçada, porque cerceia a liberdade de expressão?

Ora, convenhamos, no caso da imprensa escrita a coisa ainda fica pior quando não se encontra um único impedimento legal para a atividade jornalística. Qualquer empresa ou cidadão está livre para fundar seu próprio jornal ou revista. Ou não? Quantos e quantos jornais de bairro – ou comunidades como se pretendem chamar os bairros onde morem os mais pobres da população – circulam livremente, uns simpatizando com o governante de plantão, e outros de linha editorial totalmente contrária? Aqui também se pretende implantar o tal controle social? E os jornais das cidades do interior? E também não interessa que a empresas sejam familiares ou não, onde está escrito que não podem?

Ora, senhores, em qualquer sociedade livre e democrática, a liberdade de pensamento e de expressão, contra ou favor de governos, é a extensão suprema da cidadania. Querer colocar a atividade no cabresto, definindo-lhe que notícias devem ou não veicular, além de ferir frontalmente dispositivos constitucionais e consagrados mundialmente, chega a ser patético. Apontem quais países, livres e democráticos, se pratica o tal “controle social” sobre a imprensa livre? Quais? Inversamente, tal procedimento é facilmente encontrado e identificado em países totalitários, onde a mídia, regra geral, é praticada pelo próprio governo e só divulga o que lhe convém, os fatos que lhe são positivos, escondendo da sua população as maracutaias, os compadrios, o fisiologismo, a corrupção, o desvio de dinheiro público sempre canalizado para benefício exclusivo e sórdido de seus atores inescrupulosos.

Tais entidades se arvoram em juízes da sociedade sem que tal função lhes tenha sido outorgada. Tais entidades podem até serem representativas de parcelas da sociedade, e são, mas jamais podem se adjudicar como sendo eles a voz única da própria sociedade, que é livre para se expressar, contra ou favor. E por ser ela, a sociedade, a única e verdadeira dona do país onde tem existência, també, lhe assiste o direito de escolher seu próprio destino. Quantos e quantos atos criminosos só vieram à tona pelo simples fato de se ter liberdade de imprensa? E aí é que começa a contradição deprimente desta gente: quando tais atos criminosos diziam respeito a seus adversários políticos, tais “representantes” viam a imprensa como entidade de utilidade pública. Bastou, contudo, noticiar a ação desonesta praticada por gente de seu clube, para então encararem a verdade que se noticia como fruto de golpismo midiático.

Não, senhores, não resistem em pé nenhuma das aberrações com que se tentam implantar o controle editorial dos veículos de comunicação! Isto é cercear a liberdade de expressão para rendê-la e submetê-la ao servilismo, ao oficialismo de conveniências. É chapa branca sim, é censura sim, gostem ou não, dê-se outro nome qualquer para mascarar a agressão ao direito natural e universal de todo cidadão em ter acesso à informação, seja ela boa ou ruim.

E, se tudo quanto se disse até aqui, ainda não bastasse para por abaixo estes entendimentos e conceitos retrógrados, com que tentam justificar o que no fundo não passa de censura, há um outro aspecto ainda muito mais grave e que desmorona inclusive o próprio movimento: quais entidades, que ora se perfilam para agitar a bandeira do controle social, são financiadas com dinheiro público? Quais não são? Quantas têm exclusivamente filiados de partidos de uma única ideologia, a de esquerda, dentre seus integrantes? E por que, quando o governo era outro, e também se noticiavam atos de corrupção, tais movimentos ficaram absolutamente dóceis e passivos ao noticiário? Porque, a desqualificação e a desmoralização de adversários políticos, lhes era conveniente? Façam o favor, ponham sua hipocrisia no saco e vão cantar em outra freguesia a sua estupidez totalitária.

O senhor Altamiro Borges, presidente de uma das entidades organizadoras do tal movimento, chega ao cúmulo de afirmar que não está sendo proposto um "controle de mídia, termo já estigmatizado", mas sim "que a sociedade possa participar democraticamente na construção de uma comunicação mais democrática e pluralista."

Torno a perguntar: onde está escrito que ninguém pode inaugurar seu próprio jornal neste país?Onde? Quantas empresas jornalísticas existem espalhadas Brasil afora, independente de seu porte? Não há nada mais plural do que isto: TODOS ESTÃO LIVRES PARA FUNDAR SEU PRÓPRIO JORNAL, em qualquer estado e em qualquer cidade. Todos estão livres para exercitarem a linha editorial que bem entenderem, e tratar dos assuntos ou temas que melhor lhes convier, sejam políticos, esportivos, culturais, de filosofia, de psicologia, de moda, de religiões, ou até de cunho profissional, como medicina, direito, economia, administração, etc. Basta que se chegue em qualquer banca de revistas e jornais, para se saber que a comunicação no Brasil é pluralista e, por enquanto, democrática. E digo “por enquanto”, porque os controles sociais da mídia de que falam as entidades que defendem a ideia, ainda não vigoram. E não vingaram não por concessão de seus defensores, é porque a própria sociedade brasileira repudia tais movimentos e tem sido suficientemente forte para resistir e repelir as tentativas de cercearem um direito que é seu.

E, mesmo as empresas cuja existência dependa de concessão ou outorga do Estado, basta que atendam sua função social de informar e entreter, sem cunhos ideológicos partidários de espécie alguma, sem cabresto, porque a partir do momento em que o Estado – e não a sociedade como se tenta impor para mascarar a patifaria do argumento em favor da censura – tenta “guiar” as linhas de informações sobre esta ou aquela régua, gostem ou não, isto na prática e em linguajar popular se chama CENSURA.

Não reconheço em nenhuma destas entidades que, relembro, todas bancadas com dinheiro público, moral e em quantidade suficientes para se arvorarem em representantes da sociedade brasileira. O que se tem é um seleto grupo de militantes políticos disfarçados em “entidades sociais”, pregando o viés ideológico partidário de uma só bandeira, posando de democráticos, quando não passam de verdadeiros lacaios e capachos de um regime que se quer totalitário, defendendo a ideia de que, do governo comandado pelo seu partido, não se pode noticiar nada de ruim. Querem escolher as noticias que serão entregues para a sociedade conhecer, exatamente dentro do mesmo roteiro e com as mesmas justificativas tortas e porcas com que a repressão da ditadura Vargas e, anos mais tarde, os censores da ditadura militar, praticaram contra o direito à informação, e que nos custaram o atraso intelectual em que foi mergulhado mais de 80% da população brasileira.

Comunicação social, marcantemente democrática e plural, é a que se pratica presentemente em nosso país. Portanto, fica claro que o propósito que, cinicamente, não se confessa no seio deste movimento retrógrado e está explicitamente definido e pretendido, é o de retroagir no tempo para implementar políticas de escuridão e mentiras. Em nome de uma pretensa modernidade, o que se quer e o que se defende é a prática mais descarada de lavagem cerebral.

Tais entidades representam aquilo que são, entidades específicas de uma parcela diminuta da sociedade, mas nunca são ou serão a própria sociedade em si. Ao atacarem grandes veículos de imprensa, demonstram muito mais seus ressentimentos e inveja do que um fiel desejo de se ampliar as liberdades já existentes. Nenhum dos órgãos visados nasceu pronto e acabado. Tornaram-se importantes e influentes por seus próprios méritos e pelo esforço e competência do conjunto de seus profissionais. Pelos mesmos caminhos que trilharam apesar da repressão e tirania que enfrentaram, a exemplo do jornal O Estado de São Paulo, invadido e tomado por censores, tendo enfrentado dois períodos ditatoriais, é dado e permitido seguir quem assim o desejar. Se tiverem méritos, a sociedade os acolhe e lhes permitirá crescer.

Portanto, o melhor é que tratem de não invejar o sucesso alheio, basta trabalharem com competência e honestidades de propósitos, e acabarão tão ou mais reconhecidos e respeitados, como atualmente são os grupos do Estadão, da Folha, de O Globo e da Abril. E se desejarem como imprensa livre terem tanto sucesso e influência quanto aos grupos que hoje são alvos de vosso ódio, não lhes neguem o direito que lhes assiste de informar com liberdade com que atualmente cumprem sua missão, porque no fundo, o mote condutor de movimentos como os que são defendidos pelo senhor Altamiro Lopes, é um só: castrar da sociedade o direito à verdade sobre si mesma. E isto tem nome, e não é democracia.