Adelson Elias Vasconcellos
Creio que foi na semana passada que apresentei aqui, alguns argumentos e fatos que nos fazem refletir melhor sobre o papel que as pesquisas desempenham nas campanhas eleitorais. Este texto é meio longo, mas acredito que forneça ao leitor motivos para olhar as tais pesquisas com outros olhos e até entender o que está ocorrendo atualmente em nosso país.
O objetivo não é desacreditar das pesquisas e, sim, oferecer subsídios para que, futuramente, possamos melhor discernir sobre sua influência e, assim, melhor discipliná-las para que haja melhor equilíbrio entre os candidatos.
Se a gente viajar o Brasil inteiro, conversar com as pessoas comuns, vamos perceber que o brasileiro, muito embora acompanhe o noticiário nacional, leva muito mais em conta a política local, porque está mais perto dele e ele sente os efeitos, bons e maus, do que propriamente a política nacional. Nos grotões, Brasília é um paraíso muito distante. Às vezes, até a capital de seu estado é um lugar muito distante.
Deste modo, e também porque a maioria não tem acesso à informação, as escolhas para deputados estaduais e federais, governadores, senadores e presidente, são escolhas que não levam muito em conta fatores racionais, como currículo do candidato, ou suas ideias, ou até o discurso que apresentam em tempos de campanhas. As escolhas, muitas vezes, obedecem a um rito familiar. Alguém da família, por mais instruído e informado, é quem acaba elencando para os demais, aqueles candidatos que receberão voto.
Conta muito, ainda, o poder econômico deste ou daquele candidato. É a partir daí, muitas vezes, que se criam os famosos currais eleitorais. Entra eleição, sai eleição, e o “senhor doutô” tá sempre lá, firme que nem coco verde, não cai de jeito nenhum, mesmo que o retorno que dê à sua comunidade seja zero vezes zero.
Quando um governo de caráter populista passa a construir seus programas de forma eleitoreira, a influência que estas políticas têm sobre o eleitorado mais pobre é enorme. Trata-se de um enorme canto de sereia que poucos sabem ou conseguem resistir. Isto explica, em grande parte, a aprovação do governo Lula. Analisem isto: quem conquistou, DE FATO, a estabilidade econômica foi FHC, foi ele quem criou um leque de programas sociais que minoraram os índices de pobreza, miséria, mortalidade infantil que eram críticos no Brasil. Quem garantiu com suas reformas que o país tivesse resistência à grave crise econômica internacional de 2009, foram, além do amplo programa advindo com o Real, outros de fortalecimento do sistema bancário, por exemplo. Quem abriu as portas da economia e permitiu investimentos bilionários geradores de milhares de empregos foi o programa de privatizações. Pois bem, mas quem capitalizou todo o lucro político destas reformas modernizadoras nos grotões? Foi Lula, com uma bem aparelhada máquina de propaganda que vendeu para boa parte da população, uma obra que não lhe pertencia.
E, em razão disto, Lula colhe os frutos todos para si e, em consequência, para a sua candidata. Mas ainda assim, Dilma mesmo carregada nos braços de Lula não teria força suficiente para chegar ao ponto de superar Serra à corrida presidencial como está se vendo agora. Por mais transferência que Lula pudesse fazer de seu capital político, isto ainda seria pouco, para justificar a disparidade atual, quando Dilma pode vencer já no primeiro turno. Nem Lula, 2002 e 2006, conseguiu tal feito, por que Dilma, uma ilustre desconhecida conseguiria?
Aquilo que alguns convencionaram chamar de ONDA DILMA se deu, isto sim, a partir de pesquisas eleitorais que apresentaram um resultado que, me perdoem os institutos, revelava apenas uma parte do eleitorado, aquele que mais interessava a Lula. Quando tratei aqui da forma como as pesquisas poderiam, quando bem manipuladas, influenciar boa parte do eleitorado, tive o cuidado de me escudar em um artigo do jornalista Sebastião Nery que, a exemplo de alguns poucos, sempre criticou pesquisa eleitoral na forma como se faz no Brasil além de desconfiar de seus critérios.
Lembram quando aqui critiquei o fato de que os institutos de pesquisas, em seus últimos levantamentos já não estavam mais indicando nem os locais nem a quantidade de entrevistados nestes locais, nas informações que estavam, por lei, obrigados a arquivar junto ao TSE?
A não revelação deste dado, se para alguns é irrelevante, para o analista é fundamental. Por quê?
Não basta que o levantamento indique, por exemplo, o total de entrevistas que executou. Isto não representa nada. O que importa saber, é a proporcionalidade de entrevistadas em relação aos eleitores de cada cidade visitada. Vou ser mais claro: determinado instituto faz um levantamento, com um total de 2.000 entrevistas. Pois bem, ele informa que este total foi feito em 100 municípios, entre os quais temos São Paulo e Garanhuns, ou seja, duas cidades que, teoricamente, teriam preferência em Serra e na candidata de Lula, respectivamente. Garanhuns tem cerca de 130 mil habitantes, e São Paulo, pouco mais de 11 milhões, dados segundo estimativa do IBGE em 2009. Proporcionalmente, o levantamento para abranger um universo equilibrado, deveria ter realizado bem mais entrevistas em São Paulo do que em Garanhuns. Certo? Porém, se em Garanhuns, a pesquisa teve mais entrevistados do que em São Paulo, digamos, 20 no primeiro, contra apenas 5 no segundo, o instituto estará aplicando um desequilíbrio no seu resultado final no mínimo tendencioso. E se assim procede, isto ficaria bastante evidente se o instituto, ao entregar o resultado no TSE, identificasse os locais das entrevistas com as quantidades de entrevistados em cada município onde os dados foram colhidos. No exemplo que apresentamos, evidentemente que Lula, ou sua candidata por ele indicada, apareceria com uma preferência muito maior do que Serra. Se tal levantamento for alçado como representativo de uma preferência nacional, que credibilidade pode se conceder a esta pesquisa?
Portanto, quando parte das informações de uma determinada coleta deixa de ser divulgada, estamos, sim, diante de um quadro bastante suspeito de manipulação via pesquisa eleitoral. E se a “manipulação” for repetida por dois ou três levantamento consecutivos, é possível condicionar o eleitor a imaginar que este ou aquele candidato está crescendo na vontade da maioria, o que induziria a um erro monumental.
Pois bem, agora pergunto ao leitor-eleitor: quantas vezes você leu, em algum jornal, ou até mesmo na internet, este tipo de informação pormenorizada? Nem precisam responder: NUNCA. O máximo que você encontra é a preferência em termos percentuais, região por região, ou estado por estado, quando muito. E só! Quanto a quantidade de entrevistados, município por município, nada. E aí, fica ou não a dúvida sobre a seriedade das pesquisas? E, sendo assim, é possível aceitar agora que elas podem, de fato, influenciar uma eleição?
Eu nem tinha mais a intenção de voltar a mexer neste caldeirão, até porque, pelo quadro que se desenha, a eleição presidencial já está praticamente decidida, muito embora, não se tenha colocado ainda nenhum voto na urna. Contudo, lá no blog da Maria Helena – impossível não ler diariamente – encontrei um post curioso que me fez retomar o assunto. Reproduzo os dados para que vocês reflitam bem:
(...) Eu estava muito frustrado, pois com 60 anos nunca fui pesquisado por Institutos de Pesquisa, desses que dão resultados sobre a intenção de voto dos eleitores.
Será que algum de vocês foi pesquisado?
Entrei no site do TSE para tentar descobrir os métodos, os critérios, etc., etc. das pesquisas, e encontrei todas as pesquisas registradas.
Resolvi verificar onde elas foram feitas e descobri que:
Nesta que diz que a Dilma está crescendo, que já tem mais de 40%, foram entrevistados 2.506 pessoas, sendo:
Região Norte/Nordeste: 840 PESSOAS (quantos eleitores tem lá?);
Estado de São Paulo: 574 PESSOAS (quantos eleitores temos aqui?);
Minas: 256 PESSOAS (2º. maior colégio eleitoral do país);
Região Sul: 378 PESSOAS (menos eleitores que MG);
Rio: 278 PESSOAS (????);
Região Central:182 PESSOAS.
Ou seja, quase 34% dos entrevistados são do Norte e Nordeste...
Bem proporcional, não é?
Agora vejam detalhes:
Nas cidades de GARRAFÃO DO NORTE, RIACHÃO DO JACUÍPE, BARBALHA, ITAPISSUMA (sabem onde ficam???), todas do Norte e Nordeste, foram entrevistadas 14 pessoas em cada...
Ah... também em GARANHUNS, 14 pessoas foram pesquisada.
Comparem:
SANTOS, CAMPINAS, RIBEIRÃO PRETO, FLORIANOPOLIS, também 14 pessoas em cada uma. Preciso dizer que somente essas 4 cidades têm mais eleitores que todo o Nordeste?
E mais:
NITEROI, BARUERI, OSASCO, MOGI CRUZES, SÃO BERNARDO DO CAMPO....7 (sete) pessoas em cada uma delas.
Além de, por exemplo, BAURU, FRANCA, ARAÇATUBA e MARILIA não terem sido "escolhidas" para essa pesquisa. Tem lógica, nessas o PT nunca levou uma vitória! (Carlos Cornwall)
COMENTO:
Fica evidente que, a pesquisa acima que o Carlos Cornwal reproduz, foi visivelmente condicionada a apresentar um resultado predeterminado, isto é, a de que Dilma era favorita. É flagrante o desequilíbrio entre o universo pesquisado e quantidade de entrevistas, com a distribuição de eleitores município por município, região por região. Assim, para aqueles que deixam para decidir seu voto mais próximo da eleição, após assistir a campanha na tevê e alguns debates entre os candidatos, já estarão pré-dispostos a seguirem a “onda” do favorito ou da favorita, no caso. Conforme o alerta que o Sebastião Nery já havia feito, em sendo a pesquisa instrumento importante de aferição do quadro eleitoral, os noticiários de rádio, tevê e jornais, com seu analistas, comentaristas, palpiteiros e torcedores, batendo dia e noite, dia sim, dia também, sobre os resultados apurados, criam um certo clima em favor ou desfavor dos candidatos.
E este cenário, convenhamos, acaba distorcendo a própria vontade do eleitorado. Claro que a eleição, conforme já escrevi nesta semana, no meu caso em particular, e acredito que de boa parte da população, é o que menos me importa. Ganhar ou perder eleição faz parte do jogo político que a democracia oferece. Contudo, não se pode, no caso brasileiro, afirmar que a eleição se transcorra em um cenário absolutamente limpo, em igualdade de condições.
Claro que até já critiquei, não a partir da campanha, já venho criticando a atuação da oposição há bastante tempo. Sua campanha chega ser ridícula, própria de um amador. Não se pode jogar a culpa toda em cima do marqueteiro que Serra escolheu. O ex-governador não é nenhum novato no assunto. Deveria ter percebido que seu marqueteiro não fez a leitura correta do cenário em 2010. Contudo, a tal ONDA DILMA não pode ser vista apenas por este ângulo. Há, sem dúvida, outros fatores que fizeram a balança pender em seu favor, e elas, como vimos, não se restringem aos aspectos econômicos, como a maioria dos analistas tenta nos impor. O exemplo acima desmente esta tese e confirma que, pesquisas eleitorais feitas de forma fraudulenta, podem influenciar negativamente uma eleição.