Villas Bôas-Côrrea
Esta é uma campanha que, neste segundo turno, parecia reunir todos os motivos para pairar em alto nível, com dois candidatos de partidos adversários, mas que não eram inimigos de vida e de morte. Até porque precisam um do outro para sobreviver na marola que não ameaça afogar os temerários que se arriscam em mar agitado.
A candidata Dilma Rousseff, cria do presidente Lula, enquanto Chefe do Gabinete Civil tinha que cuidar da rotina burocrática, lendo os processos, para o resumo para o despacho final. Lula, como é notório, detesta ler até telegramas. A leitura provoca azias no seu estômago delicado, dores de cabeça e a sensação de que está perdendo o tempo a ser mais bem aproveitado nas viagens domésticas e internacionais, com tudo pago pelo cofre da Viúva.
E o candidato tucano. José Serra, enquanto no exercício do governo de São Paulo, tricotava os pontos para a sua candidatura à Presidência da República com os possíveis aliados.
Mas, havia registro de malquerença entre os candidatos. E a campanha, afinal, caiu no bate-boca de fim de feira-livre por culpa dos debates entre os candidatos nas principais emissoras de televisão. O fascínio da telinha tirou do sério os dois finalistas, depois do resultado do primeiro turno, com a exclusão da presidente do Partido Verde, Marina Silva e os seus surpreendentes 20 milhões de votos.
No mano a mano entre Serra e Dilma, o nível baixou ao porão. E para surpresa do eleitorado, constrangido para anunciar o seu voto entre os dois que se esgoelam na troca de acusações e denúncias.
Desconfio que a enxurrada de votos nulos e brancos surpreenderá os finalistas. E ainda teremos mais dois debates com o candidato José Serra nos estertores da derrota anunciada pelas últimas pesquisas. E que deve inchar como bolo no forno com os votos do Partido Verde, apesar da decisão da presidente Marina Silva de não revelar o seu voto, apesar do seu distanciamento da candidata Dilma, com quem viveu às turras como ministra do Meio-Ambiente.
Francamente, para esta reta final, até as urnas de 31 deste mês, os assessores dos candidatos deveriam combinar uma trégua, que resgate a campanha da baixaria que surpreende os eleitores e estimula o voto em branco.
O último debate, patrocinado pela Rede TV! e pela Folha de S.Paulo foi uma troca de acusações, sem uma proposta ou novidade que mereça registro. E nem as cutucadas de briga de botequim tiveram novidade. Foi um bis mofino. Dilma repetiu a opereta da acusação a Serra e aos tucanos de serem favoráveis à privatização de empresas publicas. O tucano também não cansou o cérebro e apelou para a reprise: “o PT é a Petrobrás dividindo-a entre seus partidos aliados.”
Por enquanto, nenhum eleitor de um ou de outro tem argumento para mudar de lado.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma obsessão de Lula, foi citado pelo Serra, na comparação polêmica: enquanto no seu governo 14 milhões de trabalhadores tiveram acesso a cursos de capacitação, nos oito anos de Lula apenas dois milhões foram beneficiados.
A campanha está suficientemente desgastada e clama pelo bom senso dos candidatos para um acordo, articulado em surdina pelos assessores. E que não tão complicado. Pois, nos poucos dias 11 dias até as urnas do dia 31, Dilma e Serra poderiam sair da toca da mistificação para a abrir o debate sobre a crise que ameaça a nossa fragilizada democracia.
Antes que seja tarde.