domingo, outubro 17, 2010

O grande desafio econômico brasileiro- 2

Fernando Dantas, Estadão.com

Não se mexe em time que está ganhando, e as chances de uma mudança radical, pelo novo presidente, do atual modelo de crescimento econômico do Brasil, com câmbio valorizado e déficit externo crescente, parecem remotas. Impossível, porém, não é. Na Argentina, uma política de administração da taxa de câmbio, com compras de divisas e compressão da taxa de juros, logrou manter o peso mais desvalorizado do que a tendência de mercado. O efeito colateral, porém, foi a alta da inflação, cujos índices são maquiados pelo governo, e que corrói parcialmente a desvalorização pretendida.

A opção argentina é mais relevante para o Brasil que a chinesa. Com a enorme poupança do país, o governo chinês tem condições de recolher as sobras de divisas do comércio exterior superavitário, provocadas pelo câmbio desvalorizado, sem emitir moeda e provocar inflação. É assim que o país asiático acumula suas gigantescas reservas, e evita que o excesso de dólares provoque a valorização do yuan. A Argentina, que tem poupança maior que a brasileira, mas muito menor que a China, já tem mais dificuldades em fazer aquela mesma mágica.

No Brasil, o governo se endivida para comprar as divisas acumuladas, o que mantém elevada a taxa de juros e joga a favor da valorização cambial, atraindo capitais. Na hora em que põe reais em circulação para comprar as sobras de dólares no mercado, o Banco Central (BC) coloca também títulos para enxugar a liquidez e evitar a queda dos juros.

Compras de dólares sem enxugamento posterior dos reais jogariam para baixo a taxa de juros, reduziriam a entrada de capitais e poderiam permitir uma desvalorização real da moeda brasileira num primeiro momento. Isso significaria, no entanto, abandonar o sistema de metas de inflação. Os juros seriam fixados para manter uma determinada taxa de câmbio nominal, e não para combater a alta de preços. O resultado provável seria um surto inflacionário. Este, por sua vez, como na Argentina, iria corroer a desvalorização almejada.

Mas mesmo o acúmulo de reservas com enxugamento de reais é crescentemente difícil para o Brasil, pelo custo fiscal ¬– a diferença entre a rentabilidade das divisas e os juros pagos para tomar emprestados os reais no mercado doméstico. O crescimento da dívida interna, por sua vez, eleva a dívida bruta do País, um indicador que vem piorando e para o qual os investidores olham cada vez mais.

De qualquer forma, o sucesso político e eleitoral do modelo econômico brasileiro é baseado num padrão de crescimento que é particularmente benéfico aos mais pobres, cuja renda cresce bem acima da média nacional. Para isso, no entanto, é fundamental manter a inflação baixa, já que a camadas de menor rendimento são as que têm menos condição de se proteger da alta de preços e de lucrar com as oportunidades financeiras oferecidas por um ambiente inflacionário e de instabilidade macroeconômica. É improvável, portanto, que o novo governo assuma riscos na inflação para tentar mexer no câmbio.