Fernando Dantas, Estadão.com
Garantir que o investimento cresça, para sustentar o crescimento, e que os inevitáveis déficits externos tenham um tamanho e um padrão de financiamento que não desequilibrem o País – assim pode ser resumido um dos maiores desafios econômicos do próximo governo, supondo que nenhuma aventura radical será tentada para mudar o atual modelo.
O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, concorda em linhas gerais com aquele diagnóstico, e está otimista. Considerado um dos formuladores econômicos do atual governo, e estrela em ascensão nos quadros técnicos da administração petista, Barbosa confia na capacidade do País de ampliar o investimento e manter o equilíbrio macroeconômico.
O aumento da taxa de investimentos dos atuais 18% a 19% do PIB para 22% ou mais, ele frisa, por definição vai se dar com o aumento da poupança, que hoje, na sua parcela doméstica, está em cerca de 17% do PIB. “A questão é saber quanto do aumento vai ser com poupança doméstica, e quanto com poupança externa”, ele explica. Na contabilidade nacional, a poupança,interna e externa, tem de ser igual ao investimento.
Barbosa cita dois fatores que, para ele, vão expandir a poupança doméstica: o primeiro é a poupança das empresas, que deve crescer junto com a lucratividade; e o segundo é a queda da taxa de juros real, um elemento muito importante do seu cenário otimista, e no qual ele deposita grande confiança. “É perfeitamente possível que, nos próximos quatro anos, a taxa de juros real caia para próximo de 2%”, ele diz. Isso, por sua vez, deve aumentar a poupança do governo.
O economista está seguro quanto à viabilidade de uma sólida política fiscal no próximo governo, que ajude a pavimentar o caminho da queda do juro real, sem grandes mudanças ou rupturas em relação ao que vem sendo feito agora. Barbosa observa que é possível agora manter a rede de proteção criada e estabilizá-la em termos de fatia do Orçamento. “Qualquer programas cresce mais rápido na fase de implantação, mas depois tende a se estabilizar”, ele diz. Em relação ao funcionalismo, Barbosa diz que, concluída a etapa de recomposição, a folha já está caindo como proporção do PIB este ano. Ele nota ainda que a formalização crescente tende a aumentar a arrecadação, sem alta nas alíquotas.
Ainda no front do juro real, Barbosa acha que o aumento de produtividade, associado ao forte ritmo de crescimento, pode permitir uma demanda maior sem pressionar a taxa de juros.
Quanto à parcela de poupança externa que o Brasil terá de absorver, ele diz que o importante é que tenha como contrapartida o aumento de investimento direto estrangeiro, que tem o que se chama “estabilizador automático” – em tempos difíceis, os lucros caem, e as remessas diminuem, aliviando o balanço de pagamentos.
No campo tucano, o candidato José Serra reiterou inúmeras vezes ao longo da campanha que vê distorções no chamado “tripé” macroeconômico do Brasil. O câmbio é excessivamente valorizado, os juros são os mais altos do mundo, a carga tributária é enorme e o investimento público muito reduzido. Para Serra, é possível fazer com que os gastos públicos cresçam menos do que o PIB, e aumentar a base de tributação, combatendo a sonegação, para reduzir o ônus tributário individual sem perda de arrecadação.
Serra, porém, fez pesadas promessas de campanha, como o salário mínimo de R$ 600, o aumento de 10% para os aposentados e a duplicação do Bolsa-Família (com décimo-terceiro). Segundo estimativa preliminar de um especialista, essas medidas, se implantadas em 2011, significariam fazer, em um ano, um aumento de gastos de três anos, considerando o ritmo de expansão atual. Por outro lado, na questão previdenciária, Serra admitiu mexer na idade de aposentadoria, ainda que mantendo a remuneração.
Mesmo com todas as promessas de gastos, economistas simpáticos a Serra creem que um eventual governo tucano acabaria sendo mais rigoroso na parte fiscal, abrindo espaço para a queda dos juros e para um câmbio mais competitivo.
Samuel Pessôa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que está convicto de que o Brasil terá de conviver por muito anos com a dependência de poupança externa, considera vital que o novo governo desestimule o endividamento sem hedge (proteção contra perdas cambiais) do setor privado. “Isso significa dizer que tem de ficar muito claro para o setor privado que não é função da política econômica e do governo oferecer hedge cambial”, ele diz.
Outro caminho que o Brasil poderia trilhar, segundo o economista, para dar mais segurança à sua dependência estrutural de poupança externa, é partir para uma integração financeira bem maior com o resto do mundo. Pessôa toma como exemplo a Austrália, que têm déficits em conta corrente de 4,5% do PIB ou mais de 1986, sem ter sofridos crises nesse período.
Atrelado a um país que é grande produtor de commodities, o dólar australiano tende a seguir as altas e baixas das matérias-primas (como o real, aliás). Quem depender de commodities, e quiser se proteger contra altas de seus preços, pode ter ativos denominados em dólar australiano. Na outra ponta, australianos têm ativos em outras moeda, e se defendem da perda de valor do dólar australiano.
Para que esse hedge seja barato e abundante, porém, é preciso ter uma moeda altamente internacionalizada, com grande liquidez no mercado internacional – esse é o caso da Austrália. “Esse modelo está perfeitamente ao nosso alcance”, diz Pessôa. Mas, para isso, é preciso completar a integração financeira do Brasil, permitindo que brasileiros tenham contas no exterior e estrangeiros tenham contas no Brasil em real, facilitando remessas, etc. Resta ver se o próximo presidente, que será um dos dois candidatos que se consideram à esquerda do centro, cogitariam seguir um caminho tão liberal.