quinta-feira, novembro 18, 2010

Imprensa, sim, e sem censura

Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa

Todo domingo ele faz tudo sempre igual: conversa com as companheiras de trabalho, passa horas no auditório, faz piada, brinca com os convidados. Todo ano ele faz tudo sempre igual: em fins de dezembro, vai para Celebration, na Florida, e passa o réveillon por lá. Quando está fora do Brasil, todo dia ele faz tudo sempre igual: anda pelas ruas sem ser cercado por fãs, come frutas de ambulantes, varre a entrada da casa, se aparece um repórter ele inventa alguma notícia só para causar confusão (da última vez, disse que só tinha seis meses de vida). Quando apresenta seu programa aos domingos, há uns 50 anos, as músicas e as vinhetas todas as semanas são iguais.

E este homem metódico, que costuma fazer tudo sempre igual, um dia despenca no Palácio do Planalto, inesperadamente, bem no horário em que o presidente Lula daria audiência ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Sílvio só tinha estado no Palácio no começo dos anos 90, quando Itamar Franco era o presidente. Segundo disse à imprensa, tinha ido pedir a Lula uma doação para o Teleton, o programa de 26 horas contínuas que apresenta desde 1998 em benefício da AACD, Associação de Assistência à Criança Deficiente. O Teleton existe há 12 anos. Sílvio jamais pediu uma doação a Fernando Henrique, jamais pediu uma doação a Lula. Não se deu ao trabalho de pedir audiência. Simplesmente, imagina-se, acordou com a idéia de pedir que o presidente ajudasse a AACD fazendo uma doação ao Teleton. E a imprensa a-cre-di-tou!

Tudo bem, a imprensa costuma imaginar que o consumidor de informações acredita quando diz que recebeu informações colocadas num envelope debaixo de um viaduto. Mas não se imaginava que ela própria acreditasse no que diz. Pois acredita - além do mais, é confortável acreditar. Daria para desconfiar que um empresário com a mania de ser metódico, tradicionalmente afastado do convívio palaciano, que raramente viaja pelo país (passou uns 30 anos, por exemplo, sem ir ao Rio, sua terra natal) só mudaria de hábitos por algum motivo importante. Mas investigar dá trabalho e trabalho cansa.

Falha de marcação
É claro que nem Lula nem Silvio Santos falariam sobre o real motivo do encontro (e, se alguém tentasse Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, cujo tempo de audiência foi utilizado na reunião, seria ainda pior: Meirelles ou não responderia ou responderia naquela linguagem de ata de reunião do Copom, o que é exatamente a mesma coisa). Mas havia algumas pistas:

1 - de Teleton é que Silvio não tinha ido falar.
2 - o assunto era importante, urgente. Ou o presidente o chamou, pedindo sigilo, ou ele conseguiu um horário na agenda presidencial assim que mencionou o tema que pretendia expor.
3 - Há dois negócios de Sílvio que são do interesse do Governo: TV e banco (incluindo ramificações como títulos de capitalização, cartões de crédito, associação com a Caixa Econômica Federal, venda de carteiras de crédito, carnês). Não haveria qualquer motivo para conversar com o presidente sobre os cosméticos da Jequiti, ou o magnífico hotel do Guarujá, a revendedora de automóveis, prédios, Teatro Imprensa, a sinagoga que constrói em troca de outra, que incorporou aos terrenos de sua sede.

TV? Negócios financeiros? O leque está se fechando. Com o terreno demarcado, já dá para conversar com gente que sabe das coisas e ouviu rumores que podem ser checados. Como diria o próprio Silvio Santos, quem procura acha.

Mundo global
Definindo o que é Globalização: é um grupo português de comunicação, com nome em inglês, cujo principal acionista é casado com uma brasileira, instalar-se no Rio e São Paulo, mantendo excelentes relações com gente influente em Brasília e pensando em se firmar ainda mais no Brasil com a compra de uma rede de TV.

Nosso presidente
Lula nasceu em Pernambuco, mas como político é paulista (como Fernando Henrique, que nasceu no Rio e é um político paulista). Lula foi muito pobre, tornou-se conhecido como líder operário mas hoje é elite - com bom apartamento, sítio, filhos criados, boa renda vitalícia. Lula é nordestino ou é paulista? Lula é brasileiro - e é a prova de que a discussão separatista é rigorosamente idiota.

Aquela moça cujo nome nem precisa ser citado distribuiu incitações sem sentido contra nordestinos. Mas não foi a única: há blogueiros que há pelo menos dois anos acusam São Paulo de separatismo, dizem que detestam a cidade e o Estado, que tudo é feio - menos eles, naturalmente, que fazem questão de criar raízes. E a reação de alguns jornais nordestinos à exortação cretina da moça foi tão nociva quanto a dela: faziam questão de identificá-la como "a paulista", como se representasse a totalidade da população do Estado.

Bobagem: o paulista Ciro Gomes foi governador do Ceará, o carioca Celso Pitta foi prefeito de São Paulo, o gaúcho Blairo Maggi é governador do Mato Grosso, o matogrossense Jânio Quadros foi prefeito e governador de São Paulo, o goiano Joaquim Roriz foi governador de Brasília, o fluminense Faria Lima foi prefeito de São Paulo, o maranhense José Sarney é senador pelo Amapá, o mineiro Negrão de Lima foi governador da Guanabara, a paraibana Luiza Erundina foi prefeita de São Paulo, o gaúcho Leonel Brizola foi governador do Rio.

Querem punir a moça. Bobagem: primeiro, não é questão de cadeia, mas de educação; segundo, tem muito mais gente que cometeu o mesmo crime. Deve-se deixar essa discussão sem sentido para quem não tem o que fazer, ou que acha importante discutir os antepassados, e não os filhos e os netos, o futuro.

E, já que têm tempo livre, que tal aproveitá-lo lendo Monteiro Lobato?

Cadê as notícias?
Quando um Legacy e um Boeing se chocaram, em 2006, com a morte de 154 pessoas, o caso virou manchete (e merecidamente). Mas, agora que parte do caso foi julgada, o silêncio é ensurdecedor: a sentença da Justiça de Curitiba extingue a ação de difamação contra o jornalista Joe Sharkey, que estava a bordo do Legacy e escreveu uma série de reportagens sobre o "péssimo" sistema brasileiro de controle aéreo e suas "falhas operacionais". A questão não está encerrada: cabe recurso. Entretanto, é importante verificar que, mesmo quando um estrangeiro critica serviços brasileiros, a Justiça brasileira se coloca ao lado da liberdade de imprensa.

Mas seria interessante que os meios de comunicação do país se mobilizassem para ver como as coisas vão ficar. Cabe entrevistar, por exemplo, a viúva de uma das vítimas do acidente, Rosane Gutjhar, que se considerou ofendida pelas acusações de Sharkey por suas críticas ao sistema brasileiro de controle de voos e foi quem moveu a ação de difamação, agora extinta (há outra ação, esta criminal). Cabe também uma discussão muito interessante nesta época globalizada: acusações publicadas na imprensa americana (e protegidas, portanto, pela Primeira Emenda à Constituição local) merecem que tipo de tratamento de outros países? Que acontece se alguma afirmação é feita nos Estados Unidos e repercutida em outros países via Internet?

A lei americana contra o "turismo da difamação" impede juízes americanos de executar sentenças proferidas no Exterior que contrariem a Primeira Emenda. É um belo tema para debate.