Bruno Garschagen, Opinião & Notícia
Sem o aumento da riqueza não há condições de reduzir o impacto dos desastres naturais.
De tão repetida, uma explicação limitada para a tragédia provocada pelas chuvas na região serrana do Rio de Janeiro está assumindo a aparência de verdade: as mudanças climáticas somadas à falta de controle e planejamento no crescimento das cidades. Obviamente, não há como negar as alterações climáticas e a existência nos municípios brasileiros de um sem número de construções em locais suscetíveis a graves danos caso haja uma alteração na quantidade de chuvas, por exemplo. Mas será que o planejamento, se existisse, seria realmente eficaz? E o que significa esse controle?
Quanto à suposta primeira causa, se não sabemos sequer se as mudanças do clima são o resultado de um fenômeno natural do planeta, também não há certezas sobre as melhores ações no presente de forma a evitar um caos futuro. A única certeza que temos é que há, de fato, alterações climáticas e que a orientação política do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas comprometem os resultados apresentados até agora. Quanto à falta de controle e planejamento, bem, a folha corrida do Estado brasileiro não nos permite qualquer tipo de otimismo ou ilusão.
Ontem, o Jornal Nacional exibiu uma interessante reportagem que comparava os efeitos de tragédias provocadas pela chuva em três países.
Esta semana, o estado de Brisbane, na Austrália, registrou a segunda maior enchente da história do local. Em fevereiro do ano passado, Portugal teve um volume de chuva recorde e os rios que cortam a ilha da madeira encheram.
Veja uma comparação: nas tragédias da Austrália (200 mm) e de Portugal (185 mm) choveu ainda mais do que em Nova Friburgo (182 mm), Petrópolis (135 mm) e Teresópolis (124mm). Mas, enquanto no Rio de Janeiro, as vítimas já chegam a mais de 500, em Portugal foram 42 mortes e na Austrália, 19. A diferença está no controle que as autoridades têm sobre as margens dos rios.
O físico Eric Cavalcanti é brasileiro, mas mora em Brisbane, na Austrália. Ele disse que o monitoramento feito pela prefeitura indicou que o rio que fica perto da casa dele subiria demais.
“No dia anterior tinha uma carta na minha caixa de correio dizendo que a casa seria alagada. Tinha todo um procedimento, você deve empacotar tudo e sair, amarrar as latas de lixo, faz isso e aquilo para tentar resguardar a sua casa e sair o mais rápido possível. Isso faz toda a diferença”, conta Cavalcanti.
Resposta rápida
Note que o controle das margens dos rios citado pela reportagem significa obter uma informação confiável sobre o comportamento das águas que permita responder com maior eficácia diante dos riscos que se apresentam. A informação comparativa sobre a brutal diferença no número de vítimas fatais entre os países é o resultado de como essas sociedades reagiram aos eventos. O que viabiliza essa reação mais eficiente, segundo o professor Matthew E. Kahn, é o grau de prosperidade e riqueza atingido por essas nações.
No paper “The death toll from natural disasters – The role of income, geography and institutions“, Kahn, um dos mais respeitados especialistas da análise econômica do meio ambiente e professor da Universidade da Califórnia, mostra a relação entre o menor número de mortes provocadas por desastres naturais em nações mais ricas comparado com o maior número de vítimas fatais em nações mais pobres. Donald J. Boudreaux fez uma conta interessante com base nos dados apresentados: um país com 100 milhões de pessoas e renda per capita de US$ 8 mil registrará 530 menos mortes provocadas por desastres naturais a cada ano se comparado com um país com número igual de população, mas cuja renda per capita seja de apenas US$ 2 mil. Se a renda per capita for aumentada de US$8 mil para US$ 14 mil, o país terá 763 menos mortes em comparação à nação com renda per capita de US$ 2 mil.
(Fonte: ABr)
Kahn explica em seu estudo que uma sociedade mais rica consegue desenvolver várias estratégias de proteção que reduzem o risco de exposição aos desastres naturais, dentre as quais o planejamento urbano e uma infraestrutura de qualidade. Esses países também conseguem oferecer uma melhor resposta após a ocorrência dos desastres naturais porque suas economias são capazes de fornecer um serviço de emergência de alto padrão e assim evitar o maior número de mortes possível.
No caso específico do Brasil, precisamos nos desenvolver economicamente para que nossa sociedade tenha uma melhor qualidade de vida e que os mais pobres possam prosperar e mais gente consiga sair da miséria. Consequentemente, também teremos condições de agir e reagir com maior grau de eficiência aos desastres naturais.
O problema da discussão que ocorre neste momento sobre a atuação do Estado é de forma mais ou menos intensa exigir um maior controle governamental como solução para o problema. A solução, como mostra o estudo do professor Kahn, é a sociedade prosperar. A melhoria da ação governamental será uma consequência direta do enriquecimento dos indivíduos, não o contrário.
Já existe toda uma arquitetura urbana edificada em locais com maior risco de mortes em caso de desastres naturais porque a pobreza não se dá ao luxo de escolher onde se deseja morar. Moradias construídas em locais perigosos são a norma porque a necessidade imediata básica não respeita os eventuais perigos da escolha. Não será com fiscais proibindo novas construções ou expulsando os moradores desses locais que o governo resolverá o problema. A única forma de as pessoas terem condições de escolher lugares melhores e construir casas seguras é tendo dinheiro para isso.
O estudo de Kahn demonstra que sem o aumento da riqueza não há condições de reduzir o impacto dos desastres naturais. Conduzir o debate por outro caminho é, perdoe-me a expressão, chover no molhado e manter os riscos de ocorrência de mais mortes sem debater a forma mais inteligente e eficaz de minimizar o problema e reduzir a dimensão da tragédia.
