quarta-feira, março 21, 2012

Reunião sem agenda propositiva é perda de tempo

Adelson Elias Vasconcellos

Até que assuntos de outras áreas não faltam para a gente comentar. Na política, então, o caldeirão ferve. Porém, creio que a questão da indústria e seu esfacelamento impõem-nos o contínuo alerta e o necessário desfile de problemas e soluções. E tudo porque o governo de Dilma Rousseff se nega em enxergar o óbvio e fazer o que é indispensável e urgente. Talvez até saibam o que deve ser feito, mas se negam em pagar o preço político que as medidas, por certo, irão cobrar. Mais uma vez é o interesse político de um partido em detrimento do crescimento do país. 

Tem sido recorrente o alerta. O blog vem se debatendo nesta questão desde 2006. Lá, a conjugação de juros / câmbio já acenava suas primeiras más consequências, mas elas se circunscreviam apenas às exportações. Era visível, então, a perda de mercados, a redução cada vez mais acentuada do volume de exportações de manufaturados e, em contrapartida, o peso maior das commodities. Porém, na medida em que o dólar ia se derretendo, a política interna de juros se mantinham nas alturas, os importados passaram a ter sua dose de maldade. 

Como o governo Lula, ainda em seu primeiro mandato, tratou de mudar o cálculo do PIB, concedendo peso maior para o consumo, e ainda facilitou o crédito barato ao consumidor com alargamento de prazos de pagamento e subsídios, o mercado interno passou a ter significativo peso, já que a carga tributária, ao contrário de países sérios, se concentra mu8ito mais sobre a produção do que sobre o capital. 

Ora, quanto maias consumo, maior a arrecadação de impostos para um governo populista centrado em seu projeto de poder. Claro que se praticaram outras mudanças que contribuíram para a criação de alguns mitos. Um deles é o caso da mudança feita na classificação das diferentes classes socioeconômicas.    Assim, sem que se acrescentasse um miserável centavo a mais em seus ganhos, da noite para o dia, quem era pobre tornou-se classe média. Ora, crédito ao consumidor farto e barato, com prazos cada vez mais longos em razão das virtudes que a própria estabilidade econômica permite oferecer, afora a extensão impressionante de beneficiários do Bolsa Família que afastou algumas condicionantes justamente com este propósito, a de aumentar o número de contemplados, é lógico que a explosão do consumo acabou fazendo a alegria do governo e o resultado disto se viu nas eleições, com o partido do governo aumentando consideravelmente suas bancadas. 

O lado perverso disto tudo foi que, a indústria já sufocada pelo peso do Custo Brasil, sem linhas de crédito de longo prazo para investir em aumento, diversificação e modernização de suas linhas de produção, acabou foi perdendo espaço para os importados que, cada vez mais baratos em razão do câmbio, passaram a atender à demanda interna com volumes cada mais significativos. Tanto isto é verdade é que, pesquisa recente da CNI, demonstra que um em cada 5 produtos comercializados internamente, é importado, com tendência de alta.

Ora, este cenário vem sendo desenhado aqui faz tempo. Os empresários também  reclamaram insistentemente ao governo federal que, preferiu arrumar desculpas para o câmbio, do que se dar conta de seus erros. A cada crítica de desindustrialização, o governo respondia ou com linhas de créditos especiais no BNDES – como se dívida um dia não tivesse que ser paga -, e se justificava dizendo que o mal interno da indústria nacional se dava pelo crescimento das exportações, que afetavam o câmbio. Várias vezes o presidente subiu no palanque para pedir aos empresários maior agressividade, maiores investimentos em inovação, esquecendo – como era seu feitio – de atacar os pontos principais. Tanto o câmbio quantos os juros internos são muitos mais consequências da conjuntura macroeconômica do país do que propriamente causas da nossa desindustrialização. 

Como alguém será capaz de investir recursos próprios, por exemplo, para fugir dos juros na estratosfera – quando o seu problema está centrado em custos de produção? Por exemplo, como se pode competir com importados que carregam carga tributária às vezes metade da brasileira? Como competir quando o custo da energia elétrica no Brasil é o dobro da chinesa e um terço maior do que a americana? E é bom não esquecer que nossa matriz energética é constituída de 80% de fontes hidráulicas, portanto, custo zero!!! E o preço dos combustíveis, então, que se situam, também, entre os mais caros do mundo. Já provamos aqui: produzir no Brasil se tornou muito mais caro do que em qualquer outro país do mundo, inclusive entre os mais desenvolvidos. Coloquem em cima disto os altos encargos trabalhistas, a burocracia sufocante, e uma infraestrutura caótica e tentem enxergar ao menos um caminho alternativo para a indústria poder competir. 

Definitivamente, não dá para o empresário se manter no mercado. Acaba acontecendo o seguinte: primeiro, reduz o porte de sua empresa, reduzindo pessoal, desiste de concorrer no mercado internacional e tenta, o quanto possível, sobreviver apenas internamente.   Num segundo momento, desiste de manter sua indústria, e se torna um importador. E é isto que está exterminando principalmente a indústria de transformação no país. E em ritmo cada vez mais acentuado. 

O índice pífio de crescimento em 2011 deveria alertar a autoridade econômica para a busca de, primeiro, traçar um diagnóstico das principais razões para este quadro terrível. E, depois de debater com os próprios soluções e medidas, negociar  junto à sua base aliada a aprovação de projetos que mudassem a perversidade interna que se comete contra à indústria brasileira. Trocando em miúdos: aprovação de reformas estruturantes, como a tributária e a trabalhista por exemplo. 

Contudo, diante de um governo preguiçoso e incompetente, o que vemos é a adoção da velha e surrada prática do protecionismo brega, e que já nos causou muito atraso em passado recente. Ou seja, o governo ainda não se deu conta de que ele é o principal ator dos problemas e que, por isso, deverá ser o principal agente das soluções. Não depende mais dos empresários sair da situação de esfacelamento. Tudo que poderiam fazer, fizeram, sem receber em troca, de parte do governo, o tratamento necessário e merecido.  

A presidente Dilma vem prometendo, desde que assumiu, contemplar a atividade produtiva com desoneração da folha. Concedeu o privilégio a cinco setores em 2011. Promete para 2012 privilegiar mais cinco ou sete.  Mas, caramba, se a medida é tão boa assim, se ela, como alega o governo, não prejudica a arrecadação, por que não adotá-la já, e para todos os setores? Porque, no fundo, nem o governo tem certeza do reflexo que a desoneração provocará nas contas públicas, apesar do discurso. E, este fatiamento injustificado, só encontra explicação no fato de que há um preço a pagar para a concessão do benefício: a colaboração “espontânea” para as campanhas eleitorais do partido.

Ou seja, o Brasil vai sendo governado, aos trancos e barrancos, por uma gente que não desgruda o olho do calendário eleitoral, e é ele quem tem construído a agenda de “ações”. Não há um projeto para o país, não há uma política para desobstruir os gargalos à atividade industrial, diria até, produtiva. Ou seja, entre beneficiar o partido na próxima eleição, e beneficiar o Brasil para um círculo sustentável de crescimento, o governo Dilma, assim como já fizera Lula,  irá priorizar, sempre, o projeto político. Dane-se o país.

Pode até ser, dada a pressão que os empresários vem fazendo, e as reiteradas críticas que vem sofrendo dos principais analistas econômicos do país, que a presidente Dilma saia do seu casulo e adote alguma medida que não seja a ampliação da Bolsa BNDES e algumas desonerações pontuais. No mais, vai se insistir em medidas protecionistas que penalizam os consumidores e afogam mais ainda o atraso tecnológico que já sofremos. Porque, nem sequer pelos discursos do ministro da Fazenda, tampouco vindo da presidente, é possível perceber que este governo já tenha equacionado as principais questões que atormentam a indústria nacional.  E com a base de apoio legislativo em constante turbilhão, se digladiando  por cargos e verbas, ou seja, olhando apenas para o próprio umbigo, acho que os problemas tanto de desindustrialização quanto de desnacionalização irão permanecer como estão e até se acentuar. 

Ou seja, se já estamos ficando para trás em relação aos demais emergentes, principalmente os parceiros do BRICS, em termos de crescimento, ouso dizer que estamos jogando fora o período mais fértil de oportunidades que já tivemos em nossa história para um salto à frente. E não haverá comissão da verdade lá adiante que seja capaz de mentir o suficiente para evitar a cobrança pela omissão e incompetências atuais de um governo que priorizou o poder em detrimento do interesse público. 

Chega a ser ridícula não só o rol de desculpas que lemos e ouvimos todos os dias para o não fazer. Um partido que se arvora em defensor ferrenho da soberania nacional, e muita besteira foi cometida sob tal título, e que adota uma política econômica que beneficia a geração de empregos e renda para os estrangeiros, em detrimento do mercado interno.  Quando um governo comemora e faz festa pela revisão de acordo automotivo que o Brasil mantém desde 2002 com o México, porque a indústria local não tem condições de competir, isto dá bem a dimensão da visão estreita com que a economia está sendo conduzida.   

A presidente chamou o empresariado para uma reunião, ou melhor, a nata do empresariado. Diz-se que pedirá a eles mais investimentos. Esta seria uma preciosa oportunidade para que os empresários apresentassem um rol de condição básicas para que os investimentos fossem feitos atendendo o apelo presidencial. Porém, pergunto: qual deles levará ao menos um esboço das imensas reformas que o país reclama e precisa e que o governo não atende? Este era o momento oportuno de se reverter a roda da história, fazendo com que a presidente assumisse compromissos sérios com o país. Se ninguém cobrar o governo entenderá que está tudo certo, que sua omissão é ótima, e que basta satisfazer com bolsinhas BNDES e um protecionismo brega que tudo andará bem. Acho de uma hipocrisia absurda empresário reclamar na imprensa aquilo que deixa de fazê-lo pessoalmente. Muito bem, alguns deles terão outra agenda de assuntos que não seja o protecionismo?