sexta-feira, abril 27, 2012

Cristina Kirchner amplia o domínio sobre a mídia argentina


Janaína Figueiredo
O Globo

Empresário leal ao governo compra canal de notícias e quatro rádios do país

ENRIQUE MARCARIAN/REUTERS 
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner

BUENOS AIRES — Em março passado, o canal argentino C5N tirou abruptamente do ar uma entrevista com Alberto Fernández, no momento em que ele, ex-chefe de Gabinete dos governos Néstor e Cristina Kirchner, falava do escândalo de corrupção envolvendo o vice-presidente Amado Boudou. Segundo fontes da emissora, a censura foi uma ordem da Casa Rosada ao dono da empresa, Daniel Hadad. As mesmas fontes confirmaram nesta quarta-feira que Hadad acaba de vender o canal e quatro emissoras de rádio para o empresário Cristóbal López, um dos principais aliados de Cristina no setor privado.

A operação ainda não foi anunciada oficialmente. Nesta quarta-feira, colaboradores de López negavam as negociações. Mas jornalistas do canal e de outros meios locais confirmaram que López comprou o C5N — canal de notícias a cabo — e as rádios AM 10 — a de maior audiência no país —, FM Pop, Mega e Vale. Assim, empresários vinculados ao kirchnerismo ampliaram sua fatia num setor considerado estratégico pela Casa Rosada.

Transação pode ajudar Casa Rosada em escândalos
Atualmente, aliados do governo estão no comando dos jornais “Pagina 12”, “Tiempo Argentino” e “Ambito Financiero”, dos canais de TV “Telefe”, “Crónica”, “América”, “CN23” e “Canal 9”, entre outros. Em todos os casos, as empresas são amplamente beneficiadas na distribuição dos recursos da publicidade estatal.

Uma pesquisa da consultoria Monitor de Medios mostrou que, no ano passado, o jornal “Tiempo Argentino”, de tiragem inferior a dez mil exemplares diários, recebeu cerca de US$ 10 milhões em publicidade oficial, um crescimento de 141% em relação a 2010. Como comparação, o “Clarín”, que vende 300 mil jornais por dia, recebeu US$ 700 mil, uma queda de 74%. O grupo é considerado pelo governo um de seus principais inimigos.

Para Cristina Kirchner, ter o canal C5N nas mãos de um empresário aliado é importante no momento em que o governo vive uma crise com a Espanha pela expropriação da petrolífera Repsol-YPF, e em que o vice-presidente e outros funcionários estão envolvidos em casos de corrupção e outros escândalos.

Hadad nunca foi antikirchnerista, mas tampouco um defensor incondicional do casal. A entrevista com Alberto Fernández foi realizada pelo jornalista Marcelo Longobardi, antigo amigo de Hadad. A censura exercida pela Casa Rosada foi confirmada pelo ex-apresentador da CNN Alberto Padilla, que estava no estúdio do canal no momento. Hadad negou ter censurado o ex-chefe de Gabinete e argumentou que o programa tinha passado de seu horário — versão desmentida por Padilla.

Nesta quarta-feira, nos corredores do C5N, jornalistas se perguntavam o que mudará a partir da chegada de López.