sexta-feira, abril 27, 2012

Cruzamento de dados mostra coincidência entre depósitos na Suíça e empresa ligada a Teixeira


Jamil Chade 
Estadão.com

Propinas pagas a dois ex-cartolas da Fifa divulgadas na Europa reflete as conclusões dos documentos da CPI do Futebol de 2001

Fabio Motta/AE 
Fora da CBF, Ricardo Teixeira responde 
por acusações de recebimento de propinas


Propinas pagas a dois ex-cartolas da Fifa divulgadas nesta semana pelo Conselho da Europa coincidem com as conclusões que documentos da CPI do Futebol de 2001, que já indicaram transações ligadas a Ricardo Teixeira.

Esses pagamentos de propinas já foram revelados há dois anos pela rede britânicaBBC e pelo jornal suíço Tages Anzeiger, que indicaram pela primeira vez que o outro cartola envolvido nos pagamentos era justamente o ex-presidente da Fifa, João Havelange.

Ambos fizeram o mesmo cruzamento de dados para chegar à conclusão de que os envolvidos eram Ricardo Teixeira e João Havelange e que recebiam o dinheiro da empresa de marketing ISL para influenciar em contratos de transmissão da Copa do Mundo.

Como o próprio Estadão revelou com exclusividade, Havelange passou a ser investigado pelo Comitê Olímpico Internacional após as revelações da BBC e, uma semana antes de receber o julgamento em 2011, pediu sua renúncia de seu cargo em Lausanne. O caso foi arquivado por conta de sua saída da entidade.

Há pouco mais de um mês, a reportagem do Estado ainda revelou que Teixeira estava se preparando para apresentar uma defesa de seu caso, alegando que havia recebido o dinheiro de fato. Mas que atuava apenas como “laranja” de Havelange.

Em 2011, o próprio tribunal entregou documentos ao Estado em que indicava que os suspeitos admitiram perante o juiz suíço o recebimento das propinas e indicou que a ISL funcionava como um verdadeiro banco paralelo privado da Fifa, com propinas que chegariam a US$ 140 milhões.

CONTAS
Agora, a revelação foi feita pelo procurador do Tribunal de Zug, Thomas Hildbrand, em uma audiência fechada no Conselho da Europa, que se debruça sobre o escândalo que envolve a empresa ISL e a Fifa. Na audiência, o suíço se recusou a revelar os nomes dos envolvidos, alegando que o caso foi encerrado com o pagamento de uma multa milionário e que as identidades dos suspeitos foram mantidas em sigilo. Mas confirmou que dois cartolas fraudaram a Fifa e apresentou uma lista dos depósitos, que chegariam a quase US$ 40 milhões. Segundo ele, essas pessoas "enriqueceram" graças a essas propinas e jamais devolveram o dinheiro aos cofres da entidade.

Comparando com os dados da CPI no Brasil, há uma coincidência entre os depósitos. No documento suíço, os suspeitos denominados apenas como E e H tinham participação financeira na companhia G. Entre 1992 e 2000, essa empresa G recebeu da ISL 32 depósitos. Já pelos dados da CPI do Futebol, esses depósitos coincidem em suas datas e valores aos depósitos da Sanud, onde Teixeira e Havelange aparecem como sócios.

Outros dados mostram que depósitos e valores a outras empresas listadas pelo procurador suíço coincidem com empresas referidas na CPI como Garantie JH e Renford Investiments Ltd, em valores que chegariam a quase US$ 40 milhões. O próprio procurador suíço afirmou não poder certificar o valor final da propina, já que poderia ser ainda superior.

PRESSÃO
O documento do Conselho da Europa ainda julga que o atual presidente da Fifa, Joseph Blatter sabia de todas as transações e critica o cartola por não ter atuado para combater o problema. Blatter se recusou a dar uma resposta ao Conselho.

Na Justiça suíça, os documentos que revelariam os nomes dos envolvidos ainda estão sendo mantidos em sigilo. Mas cinco jornais europeus entraram com uma ação para permitir que os documentos sejam publicados. Uma decisão da Corte Suprema da Suíça é aguardada para este ano. Blatter, insiste que não tem problemas com a publicação dos documentos.