Ricardo Setti
Veja online
(Foto: Isape)
Um poço de exploração na grande reserva de Vaca Muerta,
na província argentina de Neuquén: cobiça das petroleiras da China
O assalto do governo argentino à empresa petroleira privada YPF, até então pertencente à espanhola Repsol, pôs fim às embrionárias negociações pelas quais a multinacional chinesa Sinopec pretendia adquirir a maioria das ações da companhia agora estatizada. Também não seguiu adiante o suposto interesse da Sinopec em comprar a YPF estatizada — um portal de notícias econômicas chinês chegou a afiançar que a oferta chegaria a 15 bilhões de dólares.
O que não arrefeceu foi o interesse das multinacionais chinesas da área, todas estatais, pela joia da coroa que a YPF, ainda em mãos da Repsol, descobriu em novembro de 2011: a grande reserva petrolífera de Vaca Muerta, na província de Neuquén, na Patagônia argentina — onde também atua, entre outras empresas estrangeiras, a Petrobras.
Foi a maior descoberta de petróleo da história da Repsol. E provavelmente o fato que deu o empurrão final na cobiça que o governo da presidente Cristina Kircher já revelava em relação à YPF, ex-estatal privatizada em 1999.
Para começar, seriam 21,1 bilhões de barris
A formação geológica de Vaca Muerta se estende por 30 mil quilômetros quadrados, dos quais a YPF tinha concessão para explorar 12 mil. Apenas em 8 mil quilômetros desses 12 mil, chegou-se a estimar que possa haver 21,1 bilhões de barris de petróleo. Imagine-se o potencial da formação inteira.
(Foto: EFE)
Quando a subsidiária YPF encontrou petróleo em Vaca Muerta,
a Repsol anunciou ser a maior descoberta de sua história
Calcula-se que a exploração de Vaca Muerta requeira 5 bilhões de dólares anuais, no mínimo, pelos próximos cinco anos, dinheiro que a Argentina não tem nem em sonhos. É aí que entrariam as gigantes chinesas: China Petrochemical Corporation (Sinopedc), China Petroleum Corporation (Cnpc) e China National Offshore Oil Corporation (Cnooc).
A Cnoc dificilmente terá chances numa eventual negociação com o governo de Cristina Kirchner, já que possui desde 2010 50% das ações do grupo argentino Bridas, controlador da segunda maior empresa de petróleo argentina, a Pan American Energy. Quanto às outras duas, ainda não se sabe ao certo — tudo o que se refere a dados estratégicos da China é tratado como segredo de Estado.
A China tem dinheiro e quer petróleo; a Argentina tem petróleo e precisa de dinheiro
Fontes do mercado de petróleo, contudo, lembram que, entre o final de 2011 e o começo do ano, a Cnpc obteve um empréstimo de 30 bilhões de dólares do Banco Chinês de Desenvolvimento para financiar sua “expansão internacional”. A empresa, pois, disporia de caixa para entrar firme na exploração de Vaca Muerta.
O problema é que ninguém sabe, agora, quais serão as regras para que empresas estrangeiras atuem na área petrolífera na Argentina kirchneriana, useira e vezeira em rasgar contratos. De todo modo, existem condições favoráveis a acordos nas duas pontas da possível negociação: o lado chinês necessita desesperadamente de petróleo para assegurar o brutal crescimento do país; do lado argentino, há petróleo, mas nada de dinheiro.

