Adelson Elias Vasconcellos
Encastelados em torres de marfim, assim se referiu o Editorial do jornal O Globo sobre as resistências do Poder Judiciário – não apenas este Poder, mas ele principalmente – em ver revelados não apenas seus salários astronômicos, mas o que se construiu em volta em termos de privilégios.
As esquerdas, PT destacadamente, sempre propugnaram uma terrível luta de classes, pobres contra ricos, norte/nordeste contra sul/sudeste, patrões contra empregados, porque entendiam que, a moda napoleônica, a melhor estratégia para se conquistar a simpatia da opinião pública seria dividir para ganhar. E, até hoje, Lula e seus arautos, aparecem com discursos descendo o sarrafo na tal das “zelites”. Mas jamais tiveram a honestidade de apontar, afinal de contas, quem eram as “zelites” que tanto amaldiçoavam.
De certa forma, já desmontei esta farsa, e mostrei quem no Brasil é elite de fato. Enquanto as esquerdas apontavam dedo em riste na direção dos grandes empresários, ou latifundiários, sem nunca fazer distinção entre os produtivos e os inúteis, é muito provável que tenham poupado da crítica a elite estatal que, de certa forma sempre existiu – e o Judiciário representa uma ala desta elite, talvez a mais antiga de todas -, para poderem triunfar sobre os fortes sindicatos ligados aos servidores públicos em geral. E os sindicatos sempre foram uma força tarefa com que o PT pode contar para sua ascensão política. Houve outros segmentos aliados, mas os sindicatos formam a base na qual o PT nasceu e cresceu. Daí porque tenha aliviado a barra desta elite encastelada em torres de marfim.
Por mais que tente empurrar o povo brasileiro para ignorância – que o governo petista apelidou de sua revolução na educação – algo na sociedade brasileira se move lentamente. Aos poucos, vamos descobrindo que não precisamos de governo para nos dizer o que fazer, onde ir, o que ler, como pensar, o que vestir. E nesta descoberta, vamos tomando consciência de que governos são apenas transitoriedades do poder, mas o país permanece vivo, febril e que o tal Estado existe para servir à sociedade. Que os governantes, assim como toda a estrutura funcional que circula a sua volta, não passam de meros empregados da própria sociedade. É ela quem deve tutelar o Estado, e não o contrário como vem ocorrendo com o PT no governo.
É ruim que mais de 1/3 de nossos universitários sejam analfabetos? Não é apenas ruim, é péssimo, mas demonstra o que se esconde por detrás dos movimentos e ações petistas no campo da educação. Assim como é péssimo constatar que nossos alunos de nível médio sabem e aprenderam menos hoje, do que seus similares de 10 anos atrás. Assim como se reveste em verdadeira tragédia conhecer o mapa da violência atual e saber os contingentes de jovens que tem sido vítimas de um poder voltado apenas para si mesmo.
É diante de leis como a que permite ter acesso à informação dos entes públicos que, aos poucos, esta consciência cívica vai despertando, vai ampliando horizontes e vai dando ao homem comum a plena visão de que, apesar de todos os discursos, de todas as publicidades, de todos os programas de boas intenções, de todas as farsas e mistificações, o petismo no poder não apenas é pior do que as demais oligarquias que por lá transitaram, como ainda vai destruindo as bases, as instituições e os valores que, bem ou mal, se mantinham intactas e que formavam o conjunto da unicidade social de nossa identidade. E se não bastasse este processo destrutivo, foi se alinhando e aliando ao que de pior existia e ainda sobrevive na política brasileira.
A sensação de impunidade e a percepção de corrupção nunca foram tamanhas como agora. E, na medida em que a sociedade vai levantando a ponta do véu que encobre todas as tramas e tramoias, trapaças e falcatruas, não é apenas desencanto que passa a sentir. É indignação mesmo. É um sentimento de traição. Não fosse este espírito dolente do povo brasileiro, e muito provavelmente, panelaços e buzinaços seriam rotina à frente de prédios públicos, principalmente, em frente dos três palácios em Brasília que representam os três poderes. Não seria um protesto violento. Não da forma bárbara e estúpida como que algumas categorias agem, a mando do próprio PT, depredando e destruindo patrimônio público, o que por si só desmonta qualquer argumento que pudessem ter em seu favor.
Os movimentos de resistência tendem a se tornar mais violentos porque ninguém quer ficar mal visto diante da opinião pública. Ninguém quer parecer o que sempre foi: eterno pária e useiro gigolô da Nação. Contudo, a sociedade brasileira precisa impor sua regra em definitivo. Chega de elites escondendo-se por detrás de falsas aparências travestidas de “interesse público”. O verdadeiro interesse público é aquele em que cada tostão saído do Tesouro tenha a devida e obrigatória prestação de contas. Bastam os sigilos, as confidências, os segredos de Estado. O Brasil não está em guerra com ninguém a não ser com ele mesmo. De um lado, precisamos pôr abaixo a estrutura feudal construída em torno de determinadas figuras públicas que se alimentaram o tempo todo de privilégios imorais. De outro, precisamos impor ao ente público que, não produzindo ele nada sem que a nação contribua e financie o que quer que seja em seu beneficio, é um direito, do qual não devemos abrir mão, exigir a correta aplicação destes recursos. Chega de enriquecer vagabundos e engordar contas bancárias em paraísos fiscais com recursos desviados de educação, saúde, segurança, saneamento, estradas, transporte público, etc. Em resumo: chega de financiar a construção de torres de marfim para uso e fruto da elite estatal.
Que cada um receba de acordo com o seu trabalho e com a importância que sua função representa para o conjunto da sociedade. Mas que não se pratiquem os abusos com recursos que pertencem a todos e a todos devem beneficiar, e não apenas alguns privilegiados refratários da modernidade e da transparência, até porque este caminho de modernidade e transparência é inexorável, por mais resistência e obstáculo que se tenha de enfrentar, ele não tem volta.