segunda-feira, julho 23, 2012

Brasil não está no radar da Europa, diz especialista do euro


Marco Prates
Exame.com

“A zona do euro tende a não olhar para o resto do mundo”, afirma o colunista do Financial Times Wolfgang Münchau, que virá ao Brasil para discutir os rumos da União Europeia

Kai Pfaffenbach/Reuters
Para colunista do Financial Times, União Europeia não coloca
 o Brasil  no "radar" e quer sempre "exteriorizar" problemas

São Paulo - Wolfgang Münchau é voz ativa na Europa quando se trata de discutir os rumos da crise que o continente vem enfrentando - e o mundo sofrendo. Na próxima semana, o colunista do jornal britânico Financial Times estará no Brasil para participar do seminário "O Brasil e o Mundo em 2022", realizado pelo BNDES.

Selecionado para falar sobre o futuro da Europa – e, em última instância, da permanência do euro como moeda – Münchau acredita que os 17 países integrantes da União Europeia chegaram a uma encruzilhada. “Temos de avançar em uma direção ou outra, mas não podemos nos alongar por mais tempo”, sentencia ele.

Para o especialista, criador da organização não governamental Eurointelligence, a União Europeia não tem olhos para o resto do mundo, a não ser para “exteriorizar“ problemas. Preocupados com sua própria desaceleração, não colocam o (fraco) desempenho de Brasil e China no radar.

EXAME.com – Na sua avaliação, a solução para a crise na zona do euro passa pela união do sistema bancário, como vem sendo falado?
Wolfgang Münchau - Sim, é um componente necessário da solução neste momento. É difícil conceber que uma união monetária sem união bancária vá funcionar. Nos últimos anos temos visto uma renacionalização do sistema bancário. Você tinha um sistema bancário pan-europeu, na forma como os bancos operavam, além das fronteiras. Mas quando veio a crise, cada país foi responsável pelos seus bancos, o que era uma posição insustentável.

EXAME.com – Os chamados eurocéticos (contrários ao euro) ganharam força na Europa com a crise e as dificuldades dos líderes para solucionar os problemas?
Münchau - Sim. Quer dizer, os eurocéticos disseram o tempo todo que o euro não vai funcionar porque a zona do euro nunca será um país com união política. É difícil julgar o que vai acontecer, mas há algumas evidências de que a afirmação é verdadeira. É difícil imaginar que a zona euro vai tomar as medidas necessárias para se avançar para uma união política, em parte porque o eleitorado não quer. Existe uma oposição significativa para muito do que está acontecendo, na Alemanha e na Holanda. Isso limita a possibilidade de manobra dos líderes, o que torna a solução mais difícil para a zona euro. As soluções necessárias são união bancária, união fiscal e união política. Isso significa que eles têm de criar um sistema que funciona, que é sustentável e suficientemente robusto. Um sistema de supervisão bancária precisa ser bastante completo. Eu acho que Eurobonds (emissão de títulos conjuntos de dívida pública europeia) serão necessários no final, além de alguma forma de compartilhar dificuldades. É muito fácil pensar em uma solução, o difícil é implementá-la.

EXAME.com – O movimento contra a austeridade tem forte presença na Alemanha? A chanceler Angela Merkel enfrenta alguma oposição interna?
Münchau - Existem na Alemanha algumas pessoas que se opõem à austeridade, mas na Alemanha não tem austeridade. A Alemanha tem um orçamento com leve contração, mas a economia vem se saindo relativamente bem. Então se você olhar apenas para lá, o orçamento é relativamente moderado. Deveria até ser talvez um pouco mais expansionista neste momento em que o ritmo da economia está enfraquecendo, mas não é nada comparado ao que ocorre na Itália, Espanha ou Grécia.

EXAME.com – Como as notícias de que Brasil e China estão em desaceleração são recebidas na Europa?
Münchau - A zona do euro tende a não olhar para o resto do mundo. O único país para o qual sempre olham é os Estados Unidos. É surpreendente quão pouco isso está no radar deles. Pense na zona euro: há 17 países e eles são governados por 17 governos. Eles sempre se comportam como pequenas economias abertas, apesar do fato de que são uma grande economia fechada. É por isso que eles pensam que podem sempre melhorar a própria posição a custa do resto do mundo. E o que eles não reconhecem é que o Brasil, a China e EUA estão desacelerando ao mesmo tempo, portanto a capacidade de exteriorizar problemas é muito reduzida. As exportações da Alemanha estão diminuindo. Este problema geralmente não é entendido. Os europeus não sabem que estão governando essencialmente a última economia fechada, mesmo que finjam estar governando uma pequena economia aberta.

EXAME.com - O seminário do qual o senhor vai participar fala do Brasil e o mundo em 2022. Como vê a Europa daqui a 10 anos?
Münchau – Será uma de duas possibilidades. Ela pode quebrar. Neste caso, é difícil prever quando poderia ser. Se a zona do euro acabar, vai ser muito grave para a economia europeia e global. Muitas instituições financeiras irão desacelerar. Afinal, (a União Europeia) é o segundo maior país do mundo. Imagine que todos os ativos neste país estarão em dúvida. Cada banco na Europa, pelo menos por algum tempo, se sentirão inseguros sobre o valor de seus ativos. Vai depender de como e até que ponto os países honrarão as dívidas. Se um país for deixar a zona do euro, como calcular o que é dívida relativo a uma empresa italiana ou a um banco italiano? E essa incerteza estará sobre a economia global e irá afetar cada país. O destino brasileiro seria terminar em recessão. E a recessão europeia acabaria em uma depressão. Isso é o que uma quebra significa.

EXAME.com - E a outra opção?
Münchau - Alternativamente, se a zona euro permanecer unida, a única maneira de ficar assim é fazendo a coisa certa: eles precisam abraçar as mesmas políticas que eu falei e, quando fizerem isso, podemos sair desta crise em dois anos. Poderíamos estar olhando para um bom crescimento a partir de 2014. Nós atingimos o que chamo de bifurcação ou encruzilhada. O ponto em que temos de avançar em uma direção ou outra, mas não podemos nos alongar por mais tempo. Quanto mais tempo você se alonga, pior a crise fica, ao ponto em que não poderemos mais funcionar.