terça-feira, julho 17, 2012

Delta fez saques de R$ 5 milhões no mês que antecedeu eleições de 2006. Coincidência?


Breno Costa, Andreza Matais e Filipe Coutinho
Folha de São Paulo

Às vésperas das eleições de 2006, a empreiteira Delta Construções sacou, em um movimento considerado atípico pelas autoridades financeiras, R$ 5,1 milhões de uma de suas contas.

Os saques ocorreram ao longo do mês de setembro de 2006, e pararam exatamente no último dia útil antes das eleições daquele ano.

As retiradas foram feitas por um funcionário, que disse à Folha que "apenas fazia o transporte" do dinheiro. Os pacotes, diz, eram entregues a superiores na Delta.

"Fiz alguns saques, mas o que era para se fazer, o por quê, eu não sei", disse Alexandre Pinto, assistente financeiro na empreiteira.

Membros da CPI do Cachoeira investigam se a Delta abasteceu caixa dois de partidos --o que a empresa nega. A atipicidade dos saques foi constatada pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), do Ministério da Fazenda.

ARTIFÍCIO
Até aqui, os indícios de saques suspeitos envolviam as eleições de 2010, e as retiradas eram efetuadas não diretamente pela Delta, mas por meio de empresas de fachada abastecidas pela empresa.

Editoria de arte/Folhapress
Chamaram a atenção dos técnicos do Coaf, conforme relatório inicialmente citado pela revista "Veja", tanto o volume de dinheiro sacado quanto a forma pela qual ocorriam as retiradas.

O Coaf descobriu que os R$ 5,1 milhões foram sacados com 59 cheques entre R$ 75 mil e R$ 99 mil, logo abaixo do teto de R$ 100 mil a partir do qual os bancos têm que informar ao Banco Central.

A suspeita a é de que tenha havido tentativa de burlar a fiscalização. O relatório afirma que o método usado pode ter servido como "artifício para burla da identificação dos responsáveis pelos depósitos e dos beneficiários".

As eleições de 2006 marcaram a reeleição do ex-presidente Lula. No ano seguinte, a Delta passou a ser a empreiteira mais favorecida com verbas do governo federal.

OUTRO LADO
A construtora Delta informou, por meio de nota, que somente responderá perguntas sobre o caso que "vierem a ser formuladas pelos canais institucionais".

Entre as perguntas feitas pela Folha estava o questionamento sobre o motivo dos saques e o destino dado aos R$ 5,1 milhões.

A empresa afirma que os relatórios do Coaf "não são peças acusatórias", mas "ferramentas de gestão das instituições públicas".

"A partir desses relatórios são empreendidas, ou não, ações determinadas pelas instituições", diz a nota.
A Delta não esclarece se a construtora foi questionada sobre as movimentações atípicas notadas pelo Coaf.

A empresa sugere que a Folha consulte sua "fonte de informações" para verificar se, eventualmente, já foram realizados "procedimentos formais destinados a sanear as dúvidas levantadas pela reportagem" devido ao fato de o caso referir-se a 2006.

Sobre os repasses para empresas de fachada, e que resultaram em saques, a Delta não tem comentado casos específicos. De uma forma geral, afirma que os pagamentos têm relação com prestações de serviços e obras tocadas pela empreiteira.