MENSALÃO: torcida pela aposentadoria do ministro Peluso — e para tumultuar o julgamento — mostra quanta gente, no poder, não está nem aí para as instituições e os interesses reais do país
Ricardo Setti
Veja online
(Foto: STF)
Peluso: muita gente não quer que ele vote -- e pelas piores razões
Amigos do blog, aquilo que o Lauro Jardim, titular do ótimo Radar On-line, chama de a turma do “aposenta, Peluso”, revela o quão pouco vastos setores do poder prezam as instituições — instituições que podem ser imperfeitas, mas são que existem, as que temos, as votadas e formatadas por representantes eleitos pelos brasileiros e que, em todo caso, constituem o que diferencia a vida civilizada da barbárie.
Vamos analisar o que significa a torcida para que o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, que continua hoje, se estenda o mais vagarosamente possível, com manobras dos advogados de defesa apresentadas exatamente para isso, de forma a que cheguemos ao próximo dia 3 de setembro, uma segunda-feira, dia em que o ministro Cezar Peluso completa 70 anos de idade e precisa deixar a corte por haver atingido o limite de idade previsto na Constituição.
Suponhamos, só por hipótese, que essa “torcida” dê certo.
Suponhamos que as sessões consumidas pela defesa — após a apresentação da acusação pelo procurador-geral da República — e, depois disso, pela leitura dos relatórios dos ministros Joaquim Barbosa, relator, e Ricardo Lewandowski, revisor, sejam de alguma forma metralhadas pelos advogados dos mensaleiros com os recursos protelatórios possíveis e imagináveis.
Imaginemos, então, só por hipótese, que o ministro Cezar Peluso não disponha de tempo para expedir seu voto antes do dia 3, e que o julgamento, de alguma forma, seja perturbado por sua ausência. (Lembremo-nos de que no caso da Lei da Ficha Limpa, o fato de o Supremo estar com 10 e não 11 ministros levou em outubro de 2010 a um empate de 5 votos a 5, e a questão da aplicação das novas regras de inelegibilidade só foi decidida em março do ano passado, com o voto-desempate do novo ministro, Luiz Fux. A decisão foi de que as regras só valeriam para as eleições a partir deste ano, 2012).
Nesse caso de Peluzo não poder votar, o que teremos, ou o que já temos, de parte da “torcida”?
1. A suposição de que Peluzo votaria pela condenação.
2. A suposição de que, assim sendo, no Supremo Tribunal, dão-se jogos de cartas marcadas.
3. A suposição de que a presidente Dilma Rousseff é capaz de se afastar da posição digna em que vem se mantendo — a de não se intrometer na questão do mensalão, sobretudo para defender os réus – e escolher, para a vaga de Peluzo, alguém dócil aos desígnios do PT e, mais especificamente, disposto de antemão a votar contra a condenação dos réus.
4. A suposição de que algum jurista com catadura suficiente para chegar ao Supremo se preste ao papel humilhante, deprimente e atentatório à dignidade da Justiça de aceitar uma nomeação nessas condições.
5. A suposição de que a opinião pública está tão anestesiada por tantos anos de atropelos à lei e à decência que, resignada, daria de ombros a tudo isso.
Ou seja, a torcida do “aposenta, Peluso” — que infelizmente abrange muita gente do PT, do Congresso e dentro do próprio governo Dilma — significa que boa porção do poder só se interessa pela sobrevivência de seus apaniguados, e não está nem aí para a lei, a Justiça e os reais e permanentes interesses nacionais.
Para eles, quanto mais desmoralizadas as instituições, melhor. O caminho para jogadas mais sinistras fica mais fácil.
