domingo, agosto 26, 2012

Greve, que greve?


Thiago Jansen
O Globo

Salas de aula cheias, fila no bandejão e corredores movimentados revelam que greve nas universidades federais do Rio não é unanimidade entre alunos, professores e funcionários

PAULA GIOLITO
Dia a dia da grave na UFRJ: no campus Fundão,
 sala cheia para a aula de Arquitetura para Engenharia Civil

RIO — Na manhã de quarta-feira (22), cerca de 140 alunos da graduação do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) se reuniram em uma das salas do Bloco D do Centro de Tecnologia (CT), no campus do Fundão, para assistir a uma das aulas, de arquitetura voltada para a construção civil. Apesar da quantidade de jovens no local, o silêncio do ambiente era quebrado apenas pela fala da professora e por eventuais alunos que entravam atrasados — sem lugares disponíveis, estes traziam suas próprias cadeiras do corredor e tentavam acomodá-las no espaço restante da sala. A cena seria considerada normal não fosse o fato de os professores da rede federal de ensino superior do país estarem em greve há mais de três meses. O flagrante revela que a paralisação — a mais longa do setor desde 2001 — não é unanimidade.

— Por aqui, quase todos os professores não aderiram à greve e terminaram o ano letivo normalmente. Eles só não lançaram as notas oficialmente porque o sistema da universidade está paralisado e as inscrições em disciplinas não podem ser feitas — afirma Mateus Marques da Silva, de 21 anos, aluno do 9º período de Engenharia Civil da UFRJ e um dos estudantes presentes à aula de quarta-feira. — Alguns professores, inclusive, fizeram um acordo com os alunos e extraoficialmente já começaram a adiantar aulas de disciplinas do próximo período.

O movimento no restaurante universitário do prédio é outro indício de que a greve parece não ter afetado tanto o cotidiano do local — é importante ressaltar que as aulas da pós-graduação e do mestrado não pararam em momento algum. Por volta de meio-dia, a fila para entrar no refeitório se estendia para fora do prédio. Além disso, de acordo com funcionários do restaurante, a queda no número de refeições distribuídas durante a paralisação foi baixa em relação ao período normal de aulas — de 900 para 700 por dia.

A estudante de Matemática Mayara de Souza, de 19 anos, é outra que na manhã de quarta-feira estava no Centro de Tecnologia. à espera do início de uma aula, em plena paralisação nacional — a adesão dos professores de seu curso à greve foi pequena e alguns também já começaram aulas de disciplinas do próximo semestre, ainda que o primeiro período letivo de 2012 esteja oficialmente paralisado.

— Das cinco matérias que estava fazendo, quatro já terminaram. Uma não foi concluída porque o professor aderiu à greve. Mas já estou fazendo duas disciplinas do próximo período. Alguns professores fizeram um processo de pré-matrícula improvisado e que será verificado quando o sistema de inscrições voltar a funcionar — afirma ela, que ainda tem dúvidas quanto à validade das aulas durante a greve.

Como explicar as razões para o movimento grevista mais longo da última década não ter alcançado consenso? De acordo com Eduardo Linhares Qualharini, professor da engenharia civil da UFRJ, isso ocorre por causa da existência de dois diferentes perfis de profissionais dentro das universidades. Alguns têm vínculos somente com a instituição de ensino, mas outros estão ligados a projetos que recebem investimentos da iniciativa privada.

— Os primeiros tendem a optar pela greve porque dependem mais de seus salários como professores. Já os demais são mais resistentes na adesão a esse tipo de paralisação porque estão ligados a outras atividades e parcerias da universidade com empresas privadas que não podem ser interrompidas — explica Eduardo. — Além disso, a decisão de aderir ou não à greve é algo pessoal, já que ninguém é obrigado a participar dela.

Diretora da Seção Sindical dos Docentes da UFRJ (Adufrj) e professora da graduação de direito da universidade, Luciana Boiteux tem uma visão semelhante.

— No caso do Direito, a adesão foi grande, principalmente por causa da questão salarial. Além disso, há a revindicação da reestruturação da carreira como um todo. Já os professores do Centro de Tecnologia, por exemplo, acabam sendo casos à parte por estarem ligados a projetos onde a iniciativa privada está. Eles vivem uma realidade diferente — afirma Luciana.

As aulas no Fundão não são uma exceção à regra. Na Praia Vermelha, onde funcionam os cursos de Comunicação Social, Economia, Psicologia, Educação e Serviço Social da UFRJ, o campus agora parece estar em férias, com pouquíssimos alunos circulando pelo local. Lanchonetes estão vazias e os serviços das secretarias funcionando sob regime de plantão. Mas uma parte significativa dos professores de graduação do campus preferiu terminar as aulas do período passado antes de aderir à greve, que teve início oficial em maio.

No Instituto de Economia, os corredores estão vazios não porque os professores interromperam as aulas, mas porque também aguardam o novo calendário acadêmico. De acordo com o diretor geral do instituto, Carlos Frederico Leão, a adesão dos professores do curso à greve foi de apenas 30%. A maioria deles já terminou as aulas do período passado e espera o fim da paralisação dos atos acadêmicos para retornar às atividades. O mesmo aconteceu na Comunicação.

— A maioria dos professores da Escola de Comunicação da UFRJ não aderiu à greve no início e, mesmo após sua decretação, continuou a dar aula até o fim do período. O campus está vazio porque mesmo esses professores chegaram a um impasse, já que não podem lançar as notas dos alunos e nem iniciar o próximo semestre letivo porque o sistema está paralisado, o que impede o controle de presença e as inscrições nas disciplinas — afirma Henrique Arthur Hoehr, funcionário da seção de ensino da graduação de comunicação, curso no qual muitos professores já discutem a retomada das aulas na próxima semana mesmo que a greve continue.

— Quanto aos serviços, estamos prestando apenas alguns mais urgentes e fundamentais. Por exemplo, os alunos que só precisavam apresentar suas monografias para concluir o semestre já o fizeram. Há pouco mais de duas semanas, inclusive, houve uma cerimônia de colação de grau — informa Henrique.

E ainda há casos como o do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), no Centro. Na semana passada, professores e alunos do Instituto de História radicalizaram os conflitos internos em relação à greve e trancaram os portões do prédio para impedir a entrada de professores do curso que decidiram retomar as aulas. Na quarta-feira, a tensão no local era menor, porém a polarização era perceptível: enquanto alguns alunos assistiam a uma das aulas já retomadas no segundo andar do prédio, outro grupo, favorável à greve, participava de uma aula pública no pátio — uma das atividades culturais que estão sendo organizadas por aqueles a favor da paralisação.

— Depois do ato, professores dos dois lados acabaram voltando atrás em suas decisões. A tensão diminuiu um pouco, mas muitos professores ainda não sabem o que fazer, o que deixa os alunos confusos. Mesmo aqueles que são a favor da greve acabam não tendo muita opção a não ser assistir às aulas — afirma a estudante Gabriela Teixeira, de 20 anos, do 5º período de História.

Assim, ainda que a greve esteja sendo realizada nacionalmente, a situação dos alunos varia de acordo com o curso ou mesmo a instituição de ensino. Houve casos em que a adesão à paralisação ocorreu desde o início, como nos cursos de Serviço Social, Psicologia, Medicina, Letras, Filosofia, Ciências Sociais e Direito. Nos campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio) na Praia Vermelha, os corredores estão vazios e salas de aula fechadas — de acordo com alunos do curso de medicina, as aulas estão paralisadas desde o dia 30 de maio. Já na Universidade Federal Fluminense (UFF), alunos consultados dos cursos de Cinema, Biomedicina e Publicidade afirmaram que a maioria dos professores aderiu à greve em seu início, mas há casos como o curso de Engenharia Mecânica, em que as atividades continuaram normais.

Somente a situação dos calouros é idêntica em todas as unidades da UFRJ. Eles precisam aguardar o fim da greve para poderem se matricular nas disciplinas e já sabem que o período letivo vai atrasar, avançando por dezembro, janeiro, e chegando, talvez, a março.

Quanto ao fim da greve, professores e funcionários universitários do Rio dizem ser pouco provável que a paralisação vá além do final deste mês, já que no dia 31 de agosto a margem para negociação da categoria seria muito pequena, pois acaba o prazo para a entrega da proposta de Orçamento do governo a ser enviada ao Congresso. Um possível indício de que a paralisação se aproxima de seu fim foi dado na noite de ontem, quando os servidores técnicos-administrativos de 42 das 59 universidades federais em greve decidiram encerrar a greve. Outro pôde ser visto mais cedo no restaurante universitário central do campus do Fundão da UFRJ. Acostumados com o ritmo menor de distribuição de refeições durante greves, os funcionários do restaurante foram surpreendidos e tiveram que encerrar as atividades do local uma hora mais cedo que o habitual no almoço: o volume de comida preparada não foi suficiente para a quantidade de pessoas que apareceu para a refeição. De acordo com a nutricionista Daniele Moura, responsável pelo restaurante, é sinal de que o movimento no campus está voltando à rotina.

Aulas suspensas, lucros congelados
Há quem diga que a paralisação dos professores e servidores técnico-administrativos do ensino superior federal afeta mais os alunos, que têm seu aprendizado interrompido e o calendário acadêmico atrasado. Entretanto, existe um outro grupo de pessoas que tem grandes motivos para discordar. Donos de restaurantes, lanchonetes e livrarias nos campus universitários, eles estão vendo seu faturamento cair há mais de três meses, o que, em alguns casos, vem causando prejuízos.

— Estou há três meses abrindo meu estabelecimento para pagar somente as contas básicas. Desde que a greve começou, meu faturamento caiu mais de 90% — conta Fernando Palha Freire, proprietário do Café Cultural Palha Freire, no campus do IFCS-UFRJ, no Centro, e que teve que reduzir o horário de funcionamento da lanchonete pela metade para conter os gastos. — Muitas vezes, acaba sendo mais caro abrir do que manter fechado. Não sei se consigo resistir mais dois meses nessa situação.

Uma rápida visita ao campus da Praia Vermelha da UFRJ é o suficiente para perceber que o aperto pelo qual Fernando está passando também é compartilhado por outros donos de estabelecimentos comerciais na faculdade. Às 10h da manhã da última terça-feira, horário em que os estudantes das faculdades do campus costumam lotar o Asteriu’s Bar para lanchar ou tomar café, o movimento no local era inexistente — a lanchonete permanecia fechada e só abriria dali a duas horas.

Ao meio-dia, o Sujinho, bar/restaurante preferido para o almoço dos universitários no campus, também parecia prejudicado pela paralisação: ao contrário dos períodos de aula normais, quando suas mesas são disputadas com fila pelos estudantes, o lugar possuía cadeiras e mesas empilhadas.

E o prejuízo não está sendo só daqueles que vendem alimentos. Dono da Livraria Capitular, no IFCS, Márcio Neves conta que, em um mês de agosto normal, seu faturamento costuma ser de quase R$ 1.000 por dia, mas agora não tem chegado nem aos R$ 300.

— Antes, eu abria todos os dias, das 8h30 às 20h. Agora, com o baixo fluxo de pessoas por aqui, estou fechando às 18h30 — afirma Márcio.

Mesmo em locais mais movimentados e que mantiveram o ritmo de aula, como o prédio do Centro de Tecnologia da UFRJ, comerciantes se queixam das perdas. Paulo Henrique, que trabalha há 30 anos vendendo doces no local e já enfrentou outras greves, também está enfrentando dificuldades.

— Muitas pessoas ainda circulam bastante por aqui, mas mesmo assim meu rendimento está cerca de 70% abaixo do normal. As lanchonetes acabam sendo ainda mais afetadas. Mas não temos muito o que fazer. Vamos ver até quando essa greve vai — afirma Paulo Henrique.