Natuza Nery
Folha de São Paulo
"Eu vou dar uma de Arno Agustin [secretário do Tesouro] e mudar de posição para concordar com a presidente", brincou o economista Bernardo Figueiredo, um dos principais nomes do Executivo, escolhido para ser o presidente da poderosa Empresa de Planejamento e Logística.
A provocação levou aos risos o grupo que hoje opina sobre a infraestrutura do governo Dilma Rousseff.
Trata-se do time de "espancadores" da Esplanada, aquele que há mais de três meses vem montando um novo modelo de concessões nas áreas de portos, aeroportos, energia, rodovia e ferrovia.
O nome do grupo faz alusão ao hábito da presidente de somente tirar um projeto do forno se este sobreviver a uma "sova" sistemática de críticas.
O desafio não é pequeno: a transferência de obras e serviços à iniciativa privada é vista como essencial para dinamizar a economia e dar conta dos investimentos.
Além de definir o destino de diversos setores cruciais, as reuniões ilustram como as decisões são tomadas. Quando a presidente está fora, as discussões são mais longas e menos objetivas.
Quando ela está presente, os encontros são mais focados, e também mais tensos. Não raro, uma proposta execrada durante semanas volta à lista de medidas prováveis.
Os debates presidenciais tem duas fases: a do "corredor polonês", ou hora da bronca, e a "sessão tricô", quando Dilma costuma notar o sapato novo de um, a gravata repetida do outro ou contar uma piada para relaxar.
"MACAQUINHOS"
"Mostre isso ao Mário Veiga", ordenou Dilma ao grupo. Trata-se de um ex-assessor hoje fora do governo, mas sempre chamado a opinar nas discussões sobre energia.
Em uma das reuniões, ele exibiu um vídeo em que dois macacos são alimentados. O primeiro ganha um pepino. O segundo, uma uva. Quando o animal percebe que o vizinho ganha a fruta, joga irritado o pepino no chão e agita a gaiola.
Moral da história: se a conta de luz cair só para um setor, o outro irá reclamar.
A metáfora surtiu efeito, e hoje o Planalto estuda reduzir encargos federais tanto da indústria quanto do consumidor doméstico.
Certa vez, Paulo Sérgio Passos (Transportes) reclamava do vazamento do plano para a imprensa. Foi logo cortado: "Ô, Paulinho, aqui quem não pode vazar é você. Eu posso". Todos riram.
Em outra, a presidente cancelou abruptamente uma reunião ao ver Passos lendo um calhamaço de planilhas.
A cena entrou para os registros do Palácio como "a reunião mais rápida do Oeste", e o ministro ganhou um codinome: "30 segundos".
Dilma é famosa pelas broncas, mas gosta de chiste. "Arno é filho de pai rico", costuma brincar. Também provoca seu ministro da Fazenda: "Sabiam que o Guido era muito namorador?".
ESPANCADOS
Ninguém, porém, é imune ao "corredor polonês".
O ministro da Aviação Civil, Wagner Bittencourt, tinha lugar cativo lá desde o leilão de Guarulhos, Brasília e Viracopos, uma das maiores frustrações do governo.
Semana passada, foi promovido. Diante de toda a equipe, Dilma fez um desagravo ao auxiliar. No encontro, os "espancadores" se surpreenderam: pela primeira vez, em meses, ela não brigou com quem defendeu a concessão de Galeão e Confins, assunto até então proibido.
Talvez um sinal de que o vento possa soprar de novo pela privatização. Dilma não gosta da antítese "privatista" e "estatizante" para definir as posições de sua equipe. Isso, porém, não impede gracejos.
"Vim reforçar a bancada neoliberal", ironizou Nelson Barbosa, o número dois da Fazenda. É apontado como a antítese do colega Arno Agustin. Este, aliás, foi um dos primeiros a concordar com a chefe sobre o fim das concessões de aeroportos.
Diz-se, inclusive, que Arno nunca discorda da chefe. Quando ouviu a provocação de Figueiredo, saiu-se com essa: "Vou instituir multa para quem mudar de posição". Todos riram. Inclusive Dilma.

