segunda-feira, setembro 03, 2012

Quem são os intolerantes aqui?


Klauber Cristofen Pires 
Mídia Sem Máscara


Prestem atenção na imagem ao lado. Foi extraída da Folha de São Paulo. Pois, sabem os leitores qual nome foi atribuído a esta foto pela editoria daquele jornal? "intolerância1.jpg"! Trata-se da seleção brasileira bicampeã olímpica de vôlei, rezando em agradecimento a Deus pela vitória merecida e suada. Falando sério: elas merecem isto?

Tendo sido movido pela curiosidade ao ter lido o artigo “Já Notaram?”, do filósofo Olavo de Carvalho, fui lá conferir o link que hospeda o texto sob o título "Brasil é ouro em intolerância", de autoria do jornalista André Barcinski, que acusa os atletas brasileiros de pregarem a intolerância por rezarem a Deus, operando uma mal-disfarçada inversão da defesa da liberdade religiosa justamente com a intenção de tolhê-la.

A começar, o "tolerante" invoca a condição do estado laico do estado brasileiro e a constitucional liberdade religiosa para questionar se por acaso "alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?" Eis aí uma boa pergunta! Aliás, justamente por ser tão procedente, ele mesmo, como jornalista, deveria tê-la feito antes de sair por aí indagando sobre a hipotética heterogeneidade do grupo com base unicamente na sua verve especulativa. 

Se, estatisticamente, somos quase 90% de cristãos em nossa população, por que tanto alarde ou preocupação com o remotamente possível fato de haver algum ateu ou budista no grupo dos atletas do vôlei feminino que de per se não se importa com a oração grupal? Ora, jamais conheci algum ateu que não deixasse muito clara a sua posição. Duvido que um ateu se sujeitaria a participar da oração grupal! Desta forma, não se mostra um tanto suspeito que o "tolerante" jornalista da Folha saia por aí defendendo os direitos civis dos próprios titulares que, se não forem meramente os fantasmas da sua ideologia laicista, preferem não reivindicá-los?   

Mas, esperem aí? Porque o "tolerante" recorreu ao argumento de que o Brasil é um "estado laico? Por acaso já vivemos todos em um regime socialista, isto é, somos todos funcionários públicos sob as ordens de algum “grande timoneiro”? Ora, uma coisa é o estado ser laico, mas nem eu nem os atletas estamos a serviço dele, justamente porque dispomos da liberdade religiosa! O "tolerante" precisa parar de confundir-se: a "obra-prima do mestre Picasso" não é o mesmo que a "pica de aço do mestre de obras"...

No afã de atribuir aos atletas brasileiros a pecha de intolerantes, o "tolerante' omite do público que eles estão rezando para si mesmos, no pleno gozo de suas liberdades civis, entre elas, a liberdade de expressão, a liberdade de associação e, pombas, a liberdade religiosa! Como podem, pois, ofender a religiosidade ou a irreligiosidade alheia? 

Em um dos parágrafos, o “tolerante” aplaude a Fifa e a Dinamarca por terem feito reclamações contra atletas brasileiros que demonstram em público suas convicções religiosas. Note-se, contudo, como nem uma, nem outra, esta última vítima constante de atos de verdadeira e violenta intolerância por parte da crescente comunidade muçulmana imigrante, saíram em protesto pelo fato dos muçulmanos rezarem para Alá ou portarem suas vestes típicas. Parece muito claro, então, que o discurso da intolerância só vale para cristãos. 

Agora vejamos este trecho do Sr Barcinski: “Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada. Nem à política, nem à educação, nem à ciência e nem ao esporte.”. Como diz um motejo popular aqui no Pará: “- Tá, cheiroso!”.

Não bastante, peço a atenção dos leitores para avaliarmos o primor de candidez de outro lídimo “tolerante”, o Sr. Daniel Sottomaior, presidente da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos).

Não há absolutamente uma linha no seu artigo intitulado “Oração da Vitória” que não espelhe a sua visão napoleonicamente esquizofrênica.

Porém, antes de discorrer sobre o seu texto, eu lançaria a pergunta a quem quiser responder: Se alguém não acredita em Deus, por que necessita agremiar-se em uma associação com a paradoxal finalidade de afirmar... uma negação?

Senão, vejamos: imaginem por um curto lapso que eu seja vegetariano, e um grupo de amigos combina uma confraternização em uma churrascaria. Eu vou, sirvo-me apenas dos vegetais no buffet, e todos curtimos aquele maravilhoso encontro. Afinal, no quê os amigos preferirem comer carne pode me ofender? Ou ainda: não sou ligado em futebol, mas os meus amigos conversam sobre futebol e usam as camisas dos seus times prediletos. Em quê isto pode afetar o meu desprezo por este esporte?

Na verdade, em ambas as situações, eu somente poderia ficar ofendido por ter as minhas pretensões totalitaristas contidas: eu não quero comer carne, e não quero que ninguém coma! Eu não gosto de futebol, e também ninguém, por meus exclusivos critérios, deve gostar!

O sujeito começa por atribuir a Deus de “um hipotético sujeito poderoso o suficiente para fraudar uma competição olímpica” e pergunta: “merece ser enaltecido publicamente? Por acaso, a competição foi fraudada? Pior ainda: Será que as atletas do vôlei, bicampeãs olímpicas, desejariam honestamente que Deus fraudasse as competições para dar-lhes a vitória? Pelo visto, tal como o jornalista Barcinski, o Sr Sottomaior considerou suficientes suas próprias convicções pessoais antes de perguntar a elas.

Eu mesmo não sei o que cada uma diria, mas como cristão, poderia responder ao militante ateu da seguinte forma: que Deus não fraudou as dores de Jesus nos seus momentos de agonia, mas deu-lhe forças espirituais para suportar sua provação. Assim, ao agradecer pela vitória, estou agradecendo por outras coisas que me fazem sentido: estar vivo, ter saúde, ter tido oportunidade, autoconfiança, perseverança, disciplina, coragem, paciência, liderança...

O trecho em seguinte merece um trato especial:

“Os problemas começam quando a prática religiosa se torna coercitiva, como é a tradição das religiões abraâmicas. Os membros da seleção de vôlei poderiam ter realizado seus rituais em local mais apropriado. É de se imaginar que uma entidade infinita e onibenevolente não se importaria em esperar 15 minutos até que o time saísse da quadra”.

Quem, Sr Sottomaior, das atletas do vôlei e de toda a equipe, foi coagido a rezar? Que ramo das religiões abraâmicas obriga alguém a aderir à prática religiosa? Posso até concordar que entre os muçulmanos assim se dê. Mas quanto ao Brasil e a todos os países ocidentais de formação cristã, bem como Israel? Então eu lhe pergunto: Se ou no dia em que a Atea tiver poderes para dispor sobre a liberdade religiosa alheia, poderemos usufruí-la plenamente?

Ademais, é fato que Deus não se importaria em esperar quinze minutos, mas qual o problema de terem feito sua oração naquele instante? Acaso nossas vidas devem ser pautadas pelas suas convicções particulares? Quem sabe,os cristãos deveriam enviar à Atea ou ao SrBarcinski as planilhas com as rotinas de suas vidas para serem aprovadas previamente...

Se até aqui o Sr. Sottomaior ainda havia quebrado seu próprio recorde de encaixar o mundo no buraco do próprio umbigo, leiam esta: “Com a sua atitude, a seleção olímpica do país deixa de representar a mim e aos milhões de brasileiros não cristãos”. Arrego! Sob o mesmo raciocínio, strictu sensu, as atletas do vôlei são mulheres, e por isto, também não me representam. Mas esperem aí: chutando que as mulheres brasileiras componham 50% da população, então as nossas magníficas bicampeãs representam o Brasil muitíssimo mais como cristãs (> 90%)! Ou representariam mais como estereótipos do que o ateísta do texto em comento determinasse que fossem, a seu bel grado?

Só pra finalizar: o sujeito ainda coloca em questão a seguinte argumentação: “Além disso, o Comitê Olímpico Brasileiro é financiado por recursos públicos --2% da arrecadação bruta das loterias federais”. Sr. Sottomaior, eu lhe pergunto novamente: “- e daí?” O Estado brasileiro patrocina oficial e ostensivamente invasores de terras, o aborto, o gayzismo, o desarmamentismo, o clientelismo e quiçá, a sua Atea, e nada disso a mim representa ou a muitos mais milhões de brasileiros. Elas, as meninas do vôlei, fizeram muito jus ao patrocínio que receberam, mas a oração, como nem poderia deixar de ser, foi um ato privado. Não gostou?

Então vá cometer haraquiri baiano, mas deixe os cristãos exerceram a sua religiosidade com a liberdade que a Constituição nos garante, assim como você tem a sua de ser ateu.