domingo, setembro 30, 2012

O que Nuzman ainda não respondeu sobre furto de dados


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Cartola da Rio-2016 já considera o caso encerrado. Mas é justamente a falta de transparência do comitê que transforma um caso constrangedor em escândalo

Antonio Scorza/AFP 
Carlos Arthur Nuzman em entrevista coletiva sobre o furto de dados
 de Londres-2012 por funcionários do comitê Rio-2016, que ele preside 

A tentativa de fugir de qualquer culpa e a preocupação em poupar todos os superiores dos funcionários demitidos acabam transformando o caso em algo maior do que poderia ter sido

Durante uma semana, o presidente do Comitê Organizador da Olimpíada Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, se negou a falar publicamente sobre o caso defurto de dados de Londres-2012 por funcionários brasileiros. Depois que o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, pediu em público que Nuzman se explicasse, o cartola enfim resolveu falar. Numa entrevista coletiva realizada na quinta-feira, na sede do comitê, Nuzman minimizou a importância do episódio, assegurando que não houve violação grave de segurança e garantindo que não existe mais nenhum problema com os britânicos. 

Por conta própria, ele declarou que o caso foi "encerrado". Faltou apenas prestar as explicações que o próprio ministro do Esporte cobrou. Os aspectos mais importantes do caso continuam nebulosos (confira na lista abaixo). Cada vez mais, há pistas de que a transferência não-autorizada de dados não incluiu informações altamente confidenciais - os próprios britânicos disseram que aceitariam compartilhar o material copiado pelos brasileiros. 

A maneira como Nuzman lidou com o fato, porém, pode ter tornado um episódio apenas constrangedor (e sem grandes consequências) num escândalo. Afinal, uma das funcionárias demitidas já negou ter praticado qualquer irregularidade e deixou claro que fez apenas o que foi instruída a fazer. Chegou a dizer também que pelo menos dois dos demitidos nem sequer acessaram os computadores de Londres. Um dos responsáveis pela transferência de conhecimento entre Londres e Rio é Mario Cilenti, um dos diretores da Rio-2016 - e um dos homens de confiança de Nuzman. 

Agora, suspeita-se de demissões injustas e de uma manobra para ocultar responsabilidades. A tentativa de fugir de qualquer culpa e a preocupação em poupar todos os superiores dos funcionários demitidos acabam transformando o caso em algo maior do que poderia ter sido. Culpa da falta de transparência de Nuzman - e pior para o próprio comitê organizador, que seguirá sendo questionado sobre o episódio.

O furto de dados em Londres: o que ainda falta responder

Por que as demissões não tinham sido divulgadas?
O comitê da Rio-2016 é uma entidade privada, mas o assunto é de interesse geral e a realização dos Jogos envolve o uso de verbas públicas. Se os funcionários cometeram apenas um erro de procedimento e os dados transferidos não eram de extremo sigilo, por que não anunciar publicamente essas punições no momento do ocorrido (em meados de setembro)?

Por que não revelar quais dados foram furtados?
Nuzman e seus auxiliares afirmam que não podem detalhar quais informações foram copiadas sem autorização por questões contratuais com Londres-2012. É difícil acreditar, porém, que os britânicos reclamariam se os brasileiros revelassem, por exemplo, que tipo de documento foi trazido, quais eram os assuntos tratados neles e qual era o volume de dados.

Por que apenas os funcionários foram punidos?
Foram nove os demitidos, todos sob a mesma acusação. É de se estranhar que todos tenham cometido uma mesma irregularidade sem que seus superiores tivessem conhecimento disso - ou, mais importante ainda, que os chefes não tivessem instruído os funcionários a agir daquela maneira. A funcionária Renata Santiago já disse que só seguiu ordens superiores.

Por que não detalhar as falhas dos nove demitidos?
Ao tentar lavar as mãos e se distanciar do episódio, Nuzman deixa de esclarecer como ocorreu a cópia não-autorizada de dados. Há informações de que um dos funcionários obteve um enorme volume de informações nos computadores de Londres e ainda instruiu os colegas a imitá-lo. Todos os demitidos fizeram o mesmo? Qual foi o erro de cada um dos punidos?

Por que demorar tanto a falar sobre o caso?
Se o furto de dados era mesmo um episódio sem grandes consequências, pela ausência de documentos importantes entre as cópias não-autorizadas e pela resolução satisfatória da crise com o comitê londrino, o que impediu Nuzman de falar abertamente sobre o episódio logo no início, evitando que o caso ganhasse uma repercussão tão grande nos últimos dias?