Mirian Leitão
O Globo
A economista Silvia Matos, da FGV, diz que há um ano e meio a indústria de transformação tem apresentado um "péssimo desempenho". Admite que o setor é afetado pela crise externa, mas não só por isso. Ela explicou ao blog que a demanda do mundo pelos nossos produtos manufaturados recuou e, por outro lado, a competição internacional se intensificou.
- Mas isto não explica tudo, pois a nossa indústria tem apresentado um desempenho muito aquém do previsto. Também houve um acúmulo expressivo de estoques e a piora nas expectativas do setor contribuiu para a contração dos investimentos. E os nossos velhos problemas estruturais fecham este quadro tão dramático do setor - diz a economista.
Rodrigo Nishida, da consultoria LCA, também comentou sobre a demora da indústria em retomar o crescimento. Ele diz que a normalização do nível de estoques é recente e que a situação passou a melhorar para todas as categorias de uso somente a partir de junho.
- Diante do aumento das vendas provocado pelas recentes medidas domésticas de estímulo, primeiro a indústria queima os estoques, depois passa a produzir em nível maior. Esse é um dos fatores que ajudam a explicar a recuperação lenta até o momento. Outra questão é a manutenção da penetração dos importados em um patamar elevado - afirma.
Segundo o economista, a crise externa fez com que muitas empresas estrangeiras procurassem novos mercados, como o Brasil. Nesse ponto, ele diz, entra a questão da competitividade da indústria brasileira que, "sabidamente, não é das maiores".
Ele aponta também outro fator: a queda das exportações de manufaturados. Lembra que a Argentina e a Europa são os principais destinos das vendas da nossa indústria, mas ambos passam por sérios problemas. Enquanto o vizinho atravessa forte desaceleração, as incertezas em relação à zona do euro continuam.
Para Silvia Matos, da FGV, como a economia mundial não deve se recuperar tão cedo e as pressões inflacionárias estão voltando, o cenário de melhora consistente não está assegurado.
O desempenho do setor em julho
Sobre a alta de 0,3% registrada em julho em relação a junho, Silvia Matos acha que ainda se trata de um resultado muito fraco, considerando todas as desonerações tributárias em curso. E cita, por exemplo, a categoria de bens de consumo duráveis, que cresceu apenas 2,2% entre maio e julho em relação aos meses de fevereiro a abril.
Já o economista Mauro Rochlin, do Ibmec-Rio, diz que o resultado de julho, divulgado hoje pelo IBGE, não é ruim, pois mostra continuidade na recuperação. Ele destaca a alta de 1% da produção de bens de capital, que indica aumento da capacidade de produção, após crescimento de 1,3% em junho.
- É o segundo resultado mensal positivo e sugere que o investimento pode contribuir para a retomada do crescimento - diz o economista.
Para ele, o crescimento da produção de veículos mostra que a política do governo começa a dar algum resultado.