Ricardo Galuppo
Brasil Econômico
A presidente Dilma Rousseff desembarcou na Argentina para um encontro com a presidente Cristina Kirchner, e o resultado da viagem será idêntico ao das tentativas anteriores de entendimento em torno das pendências comerciais com o vizinho.
Entre janeiro e setembro deste ano, as exportações brasileiras para a Argentina recuaram cerca de 20% em relação a período equivalente em 2011. E isso aconteceu única e exclusivamente porque a Casa Rosada, a despeito das promessas feitas em encontros anteriores, insiste em dificultar a entrada de artigos brasileiros.
O que acontecerá é o seguinte: Dilma esboçará preocupação com a atitude de Buenos Aires no comércio com o Brasil. Cristina fingirá que passará a respeitar o que for combinado.
Na semana que vem tudo seguirá exatamente igual ao que é hoje e as empresas brasileiras que mantêm relações com a Argentina continuarão sofrendo todo tipo de restrição.
O atual governo da Argentina já mostrou ao mundo um caráter idêntico ao de Gardelón, o personagem "muy amigo" criado pelo humorista Jô Soares nos anos 1980. Acontece que, dos países relevantes para a economia, o Brasil é o único disposto a levá-lo a sério.
A postura brasileira - é bom dizer - até encontra justificativa nos manuais da diplomacia. Ceder em alguns pontos pode ter o efeito de manter a situação sob controle e evitar problemas maiores.
O problema é que só o Brasil cede. Desde o governo de José Sarney, o que se vê é a concessão crescente de benefícios ao vizinho no comércio bilateral. Agora, porém, a situação chegou a um ponto em que tais benefícios não podem mais ser vistos apenas como vantajosos à Argentina.
Eles têm que ser considerados, também, prejudiciais ao Brasil. Querer exercer no âmbito do Mercosul o mesmo papel que a Alemanha exerce na Europa (o de líder forte o suficiente para amparar os mais necessitados) só funcionaria se o país tivesse alguma vantagem.
No entanto, o que ocorre é que, na prática, o Mercosul tem funcionado como o obstáculo que impede o Brasil de tirar mais proveito em suas relações com os países desenvolvidos.
O Mercosul, como um bloco destinado a dar aos países sul-americanos uma posição de força no relacionamento com o mundo desenvolvido, morreu. Acabou. Evaporou.
O que sobrevive é uma união aduaneira destinada a drenar a força da economia brasileira em benefício dos vizinhos liderados por Cristina Kirchner e Hugo Chávez, da Venezuela. Na semana passada, descobriu-se que o bloco será ampliado.
A Bolívia de Evo Morales, depois de estudar com atenção o convite que lhe foi formulado, mandou dizer que aceita aderir ao Mercosul. Atenção! Não foi a Bolívia que pediu para se juntar ao Brasil. Foi o Brasil, como integrante do Mercosul, que convidou o maior produtor de folhas de coca do mundo para se juntar a ele... Pode?