Com Estadão Conteúdo
Mais da metade dos senadores usará verba pública para quitar dívida com Leão
(Alan Marques/Folha Imagem)
Chuva e raios atinge o edifício do Congresso Nacional em Brasília
O Senado vai gastar 5 milhões de reais para quitar a dívida de Imposto de Renda não recolhido sobre o 14º e 15º salários dos senadores nos últimos cinco anos. Pelos dados divulgados no final da noite desta terça-feira, mais da metade dos 81 senadores decidiram quitar com dinheiro público as parcelas do imposto cobrada pela Receita Federal. Apenas 36 senadores na ativa optaram por pagar do próprio bolso a despesa.
No valor de 26.700 reais cada, os salários extras foram pagos aos senadores no período de 2007 a 2011. A Diretoria-Geral do Senado informou que vai transferir para o contribuinte a despesa extra de 5.043.141,43 reais referentes ao imposto de renda de 119 senadores, incluindo titulares, suplentes e ex-senadores.
A Casa divulgou apenas a lista com o nome de atuais e ex-senadores que se comprometeram a quitar o débito com dinheiro próprio. Entre os 46 parlamentares que vão tirar do próprio bolso o valor que deve ser repassado para a Receita estão os atuais ministros Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Aloizio Mercadante (Educação), Marta Suplicy (Cultura) e Edison Lobão (Minas e Energia), e outros políticos que não exercem mais o mandato, como Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente) e o ex-vice-presidente da República Marco Maciel.
Pela relação se constata, pela omissão dos nomes, que os três senadores do Acre, entre os quais está o vice-presidente do Senado, Aníbal Diniz (PT), juntamente com Jorge Viana (PT) e Sérgio Petecão (PSD), vão pagar o Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) com dinheiro do Orçamento. Na mesma situação estão os três senadores por Roraima, Angela Portela (PT), Mozarildo Cavalcanti (PTB e Romero Jucá (PMDB) e dos senadores por Alagoas, Fernando Collor (PTB), Renan Calheiros (PMDB) e Benedito de Lira (PP).
A lista dos senadores que vão usar o dinheiro público para quitar o débito com a Receita inclui ainda nomes como Pedro Simon (PMDB-RS), Paulo Paim (PT-RS), Delcídio do Amaral (PT-MS), Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), Maria do Carmo Alves (DEM-SE), João Vicente Claudino (PTB-PI), Magno Malta (PR-ES) e Francisco Dornelles (PP-RJ), entre outros.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Sabem por que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo? Bem, o leitor poderá apontar pelo menos meia dúzia de razões, sem precisar muito esforço.Mas certamente uma delas, por incrível que pareça, mora e reside no Congresso Nacional. Senão vejamos.
Imaginemos que o leitor trabalha e esteja de carteira assinada e com todos direitos trabalhistas e previdenciários. OK? E, talvez, o leitor receba algo como 3 salários mínimos por mês, e, de acordo com certo economista que, por conta do seu milagre de pura feitiçaria, o leitor pertence a tal “nova classe média”. E, por conta deste seu status, sobre seu salário o governo se sente no direito de lhe aplicar um confisco na forma do tal imposto de renda na fonte. Assim, quando o amigo recebe seu salário de “classe média”, ele já virá com os devidos descontos de previdência social e o indefectível imposto na fonte. E, de acordo com a tabela, sobre os três salários haverá um descontinho de módicos 27,52. Como o amigo foi promovido a “nova classe média”, talvez até se sinta orgulhoso pelo garrote que lhe é aplicado.
Mas para os nossos senadores, que além de todo o aparato que somos obrigados a pagar para que eles tenham a boa vida que têm, também há um salário de pouco mais de R$ 26 mil, equivalentes a aproximados 49 salários mínimos ou, ainda, 14 vezes o que o nobre leitor recebe.
Ora, se você que recebe três salários mínimos é confiscado, por que um senador não o seria? Assim, a Receita Federal tratou de cobrar dos senadores a parcela do imposto na fonte obrigatória que, durante certo tempo, eles deixaram de pagar. E, aí os gênios arranjaram uma forma de assaltar nosso bolso ainda mais: simplesmente, transferiram a obrigação para o senado pagar. Como o dinheiro que há no caixa do senado é resultado integral dos impostos que nós pagamos, chegamos a uma das fontes de nossas desigualdades. O leitor, que recebe apenas 3 salários mínimos por mês, já recebe seu salário com o devido desconto na fonte, enquanto os senadores, esses nossos eternos gigolôs, e que recebem mais de 14 vezes o que o amigo recebe, transferem a sua obrigação pessoal de pagar o imposto para o contribuinte.
Compreendeu, amigo leitor, por que nossos gigolôs, a seu modo delinquente, ajudam a provocar uma das maiores desigualdades sociais e injustiças tributárias do planeta?
E agora a cereja deste bolo rançoso. Como no ano seguinte ao apresentar sua declaração de renda à Receita Federal, se o cretino ainda tiver direito à restituição de imposto, o canalha vai colocar algum em seu bolso, resultado do imposto que era obrigação dele pagar mas que o malandro - e no seu pior sentido - fez você pagar por ele.
Fica a pergunta: cadê o Ministério Público que não toma uma atitude para impedir tamanha patifaria com o contribuinte? Pois é...
Se o leitor ficar indignado, não esquenta nem se estresse: eles não estão nem aí. Não é só vergonha na cara que falta a esta gangue...
