terça-feira, novembro 06, 2012

País está vulnerável aos apagões e fragilidade pode piorar


Renée Pereira
O Globo

 Falha nas linhas de transmissão pode derrubar o sistema, por falta de proteção adequada

VANER CASAES/AGÊNCIA BAPRESS
O Elevador Lacerda, em Salvador, no apagão de 25 de outubro

RIO E SÃO PAULO – A fragilidade verificada no sistema brasileiro de transmissão nos últimos meses poderá piorar se o governo não planejar adequadamente a entrada em operação do novo mix de energia previsto para os próximos anos. A construção de mega-hidrelétricas, como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, pode deixar o sistema mais vulnerável, alertam especialistas.

Um dos motivos é que essas usinas estão distantes dos principais centros de consumo e exigirão grandes linhas de transmissão para levar a energia do Norte para o Sudeste. Se os mecanismos de proteção não funcionarem de forma eficiente, qualquer falha na linha poderá derrubar todo — ou boa parte — do sistema interligado. O diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, destaca que, quando essas linhas começarem a funcionar, será necessário fazer “esquemas especiais e dimensionar medidas de proteção, de forma que a perda não se propague”.

Outro fator de instabilidade é que, no período chuvoso, essas hidrelétricas vão gerar muito mais energia do que durante a seca. Para se ter uma ideia, a quantidade de água no mês mais úmido do Rio Xingu, onde está sendo construída Belo Monte, é 25 vezes maior do que no mês mais seco. Em Santo Antônio e Jirau, essa proporção é de 11 vezes. Ou seja, a entrada e a saída de energia do sistema serão maiores.

É preciso investir em modernização
Junte-se a isso uma série de pequenas e médias usinas em construção, como as usinas de biomassa, os painéis solares e parques eólicos. Estudo feito pelo Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP) mostra que essas unidades entram e saem do sistema nacional com maior frequência. Isso exige manobras mais complexas e deixa o sistema exposto a falhas.

Mas especialistas alertam: além de melhor planejamento da operação, a rede de transmissão exige maior concentração de investimentos em manutenção e modernização das atuais instalações. Na avaliação do professor da USP Sidnei Martini, ex-presidente da Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep), o sistema brasileiro precisa passar por um check-up geral, fazer um diagnóstico aprofundado para detectar falhas e permitir a adoção de medidas preventivas:

— É preciso ir além da manutenção rotineira.

Martini destaca que, com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o consumo de energia vai crescer de forma excepcional. Se a rede não estiver preparada, há o risco de apagões durante os eventos. O governo federal nega que os últimos desligamentos sejam resultado de falta de investimentos na rede.