Marina Guimarães
O Estado de São Paulo
País também fez uma consulta jurídica à OMC sobre o caso, segundo confirmou o chanceler paraguaio José Félix Fernández Estigarribia
BUENOS AIRES - O presidente do Paraguai, Federico Franco, decidiu apresentar à Argentina um protesto formal pelas barreiras contra as importações, que prejudicam as exportações de seu país ao mercado argentino. O Paraguai também fez uma consulta jurídica à Organização Mundial de Comércio (OMC) sobre o caso, segundo confirmou o chanceler paraguaio José Félix Fernández Estigarribia.
"Pedimos à assessoria da OMC que comece a estudar o assunto. Há um regime prévio de assessoramento e consultas e temos esperanças de que possamos destravar isso", disse Estigarribia em entrevista coletiva nesta segunda-feira. A decisão já havia sido antecipada pelo próprio presidente na sexta-feira passada, em entrevista coletiva.
O presidente da União Industrial Paraguaia (UIP), Eduardo Felippo, disse que os contêineres provenientes de seu país são submetidos a uma fiscalização rigorosa e são abertos para verificação e controle em território argentino. Segundo ele, tais medidas engessam o fluxo comercial e colocam em risco as mercadorias e a credibilidade do Paraguai como fornecedor confiável. O empresário afirmou que essa prática compromete exportações avaliadas entre US$ 100 milhões e US$ 120 milhões por semana. O Paraguai é o quarto exportador mundial de soja e depende dos portos argentinos para exportar seus produtos a outros países.
"Paraguai não pode aceitar essa situação, que é ofensiva e conduz a uma asfixia da economia", reclamou Felippo durante entrevista em Assunção. O presidente da Câmara de Empresários de Navios Cargueiros, Guillermo Herecke, denunciou que os inspetores argentinos também estão cobrando tarifas "exorbitantes" para os produtos paraguaios. Para o chanceler Estigarribia, as "cobranças excessivas de tarifas contradizem os acordos em vigor".
Na semana passada, o presidente Franco criticou duramente a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. "Podemos ser pobres, mas dignos. Não será este governo que ficará submetido a um governo argentino que, neste momento, faz pouco favor à integração da região", disse ele. As relações do Paraguai com a Argentina e com os demais sócios do Mercosul estão estremecidas desde junho, quando os três sócios fundadores do bloco regional (Brasil, Argentina e Uruguai) decidiram suspendê-lo como sanção pelo processo sumário de impeachment do presidente Fernando Lugo.
Na mesma ocasião, o Mercosul aprovou a entrada da Venezuela como sócio pleno, um status que o Paraguai se recusa a aprovar. A Argentina retirou seu embaixador em Assunção após o impeachment de Lugo. Os governos do bloco regional se comprometeram a aplicar apenas uma sanção política ao Paraguai como retaliação pelo golpe, para não prejudicar economicamente o país.
Porém, o chanceler Estigarribia entende que "se essas medidas as barreiras argentinas continuarem, os sócios estarão uma vez mais não cumprindo com o que prometeram". "Disseram que haveria sanções políticas, que por si só já são injustas e arbitrárias, mas agora haveria sanções econômicas", reclamou.