terça-feira, novembro 06, 2012

Sem política pública, biomassa a base de bagaço de cana não avança


Gustavo Porto
O Globo

País poderia gerar energia equivalente a duas usinas de Itaipu. Mas custos elevados desanimam investidores


SÃO PAULO – A energia elétrica produzida em usinas térmicas a partir da biomassa do bagaço de cana-de-açúcar, ou seja, de uma fonte renovável, tem capacidade de agregar ao sistema brasileiro 15.300 megawatts (MW) médios em 2020, o correspondente a 18% do consumo nacional previsto para aquele ano. Esse total é mais de sete vezes a capacidade instalada atual, de 2.112 mil MW médios — da qual mil MW são utilizados pelo sistema, e o restante pelas usinas de açúcar e etanol —, quase duas vezes o que o estado de São Paulo consumiu em 2011, ou, ainda, duas usinas de Itaipu.

Mas a falta de uma política para o setor ameaça esse potencial. Com a concorrência das usinas eólicas, que têm isenção do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em toda a cadeia para serem construídas, e das térmicas a gás, que têm um custo bem menor por serem extrativistas, as unidades de biomassa são, cada vez mais, minoria nos leilões do governo federal para a aquisição de energia nova.

Desde 2011, nos últimos dois leilões, de toda demanda contratada, 43% vieram de eólicas, com 78 projetos; outros 43%, de apenas dois projetos de térmicas a gás; enquanto as dez usinas de biomassa colaboraram com apenas 4% do total.

— O preço médio de R$ 103 por MW (em 2008 era de R$ 153), os leilões misturando fontes diferentes de energia e a concorrência desleal com as outras geradoras não incentivam mais as usinas — diz Zilmar José de Souza, gerente em bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

Bioeletricidade reduziria emissões de CO2
Para Souza, a política setorial de longo prazo para a bioeletricidade deveria prever leilões específicos dessa fonte, divididos de acordo com a demanda regional.

Estudo da Unica mostra que se todo o potencial de bioeletricidade fosse incorporado ao sistema elétrico, haveria uma economia de 5% da água dos reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste, e 2,9 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2) deixariam de ser emitidos. De acordo com o consultor e sócio-diretor da empresa de consultoria Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, também presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), “é preciso ainda a criação de uma política tributária específica, que diferencie essa energia limpa, gerada com base na biomassa, da suja, vinda do gás, por exemplo”.

Na avaliação do consultor, a falta de incentivo para a bioeletricidade pode determinar as decisões das usinas na área agrícola.

— As próximas variedades de cana têm um potencial de produzir de 40% a 50% mais açúcar e etanol, ou ainda até o dobro de fibra, que seria uma cana que pode ampliar a produtividade para a energia elétrica. Sem incentivo para a bioeletricidade, no futuro próximo, certamente os produtores poderão optar pelas variedades com mais açúcar — conclui Carvalho.