Josias de Souza
“Doa a quem doer” será uma boa expressão-lema para ser usada no Brasil quando, no futuro, quiserem contar como o país era cínico. Ela volta de tempos em tempos. Retornou nesta segunda-feira nos lábios do ministro Gilberto Carvalho, o Gilbertinho. Chefe da Secretaria Geral da Presidência, ele insinuou que bandido não terá vida fácil no governo. “Cortaremos na carne, doa a quem doer. Sempre foi assim, desde o governo Lula e continua sendo.”
Gilbertinho enxerga um quê de exagero na tese segundo a qual há corrupção demais no governo. “A impressão de que há mais corrupção agora não é real. O que há mais agora é que as coisas não estão mais embaixo do tapete.” Quando o “doa a quem doer” vem associado à jura de que nada será enfiado sob o tapete pode-se até desconfiar de ironia de quem ainda usa esses chavões, mesmo conhecendo o que se passa ao redor. Ou é ironia ou é desfaçatez.
Esses códigos costumam ser mencionados em meio a investigações rigorosas que nunca dão em nada. No julgamento do mensalão, o STF deu a entender que os ventos mudaram de rumo. Ministros e autoridades devem ter mais cuidado. Melhor se abster de pronunciar qualquer coisa parecida que com “cortar na própria carne” ou “doa a quem doer”. Pode comprometer a seriedade do momento. Gozação, agora, não.
