Gilson Schwartz
Exame.com
Escrevo a poucas horas do fim do mundo. Coincidência ou não com o calendário Maia, quem acompanha o debate mundial sobre o futuro da internet deve estar convencido a essa altura de que o mundo da internet está por um fio.
A internet surgiu como um movimento aberto nos EUA dos anos sessenta e alcançou o status de rede global, obviamente não por acaso, com o apogeu e glória da chamada globalização (anos 90). Internet é sinônimo de comunicação em tempo real numa escala global, exigência tanto da Guerra Fria quanto da gestão contínua de fluxos financeiros mundializados.
Essa internet global do mundo livre ganhou significados e impactos surpreendentes em governos totalitários como a China. Na semana passada, essa nova “Guerra Fria” assumiu os contornos de uma guerra digital aberta na cúpula da União Internacional de Telecomunicações (agência regulatória que nasceu para dar conta do mercado de telegrafia).
O fato é que o número de governos metendo a mão nem sempre visível de seus tecnoburocratas em redes digitais subiu de 4 para 40 no últimos 10 anos – o alerta foi publicado pelo fundador da internet, Vint Cerf, em artigo no New York Times de maio.
O futuro da internet depois de Dubai parece mais incerto. Como em tantas deliberações da ONU, o princípio da maioria sem hegemonia apenas prolonga indefinidamente os impasses. Na prática, talvez com excessiva polidez, a liderança do mundo livre achou melhor botar as barbas de molho.
Público X Privado
A questão da liberdade na rede não é apenas coisa dos “gringos”. Na União Européia, as dificuldades com a garantia de privacidade na “nuvem” são a preocupação número um dos especialistas e líderes da área. É o caso de Paolo Balboni, diretor científico da “European Privacy Association” endossado por todos os participantes de um seminário sobre computação de alta performance na nuvem, na Alemanha, em setembro.
A preocupação vale para a integridade de dados científicos que circulam em redes de cooperação internacional mas também é crítica para pequenas empresas com dados sensíveis armazenados nas tais nuvens.
Vem para primeiro plano a questão do controle. Para Vint Cerf, que ajudou a colocar no mundo a internet como a conhecemos, o vigor da rede não é fruto da genialidade dos engenheiros que a criaram, mas da capacidade de usar de modo criativo, aberto e tolerante à diversidade os protocolos de comunicação entre máquinas, ampliando de modo revolucionário a capacidade humana de acessar, compartilhar, criar e distribuir informação, conteúdo e valores.
Uma internet aprisionada nos dilemas do tipo “Público X Privado” que marcaram a Guerra Fria é um retrocesso mental, intelectual e espiritual. O mundo da internet é correlato do mundo real. Se no mundo real a liberdade é ameaçada, o mundo da internet pode ser ainda mais tirano e cruel. Afinal, a distopia de uma sociedade amparada no “Big Brother” é bem mais antiga que o “reality show” que já fez tanto sucesso no Brasil e no mundo.
Mais que nunca o terreno é o da economia política da imaginação. Pode a rede afinal ser controlada por um único fio? Somos e vivemos como ícones ou marionetes?
O risco é confirmar-se atrás do ícone do entretenimento uma sombra totalitária a exigir censura e impor corrupção. Controlar a internet é encarar a força dessa contradição.