segunda-feira, dezembro 31, 2012

Sinuca de Bico


Álvaro Bandeira(*)
Portal Terra

Acho que todos conhecem essa frase, fruto da dificuldade de se fazer uma jogada na sinuca. Pois bem, no meu entender o governo arranjou uma sinuca de bico para si.

Como se pressupõe, o ano de 2013 será tão difícil quanto foi 2012 para economia global e em especial para o Brasil. Pode efetivamente ser um ano de recuperação, mas ela se dará de forma assimétrica para diferentes países, ainda que tudo corra no tempo e no tamanho exato das medidas.

Dessa forma, não dá muito para contar com abertura de mercados para exportações, largos aumentos de competitividade nas empresas, ou mesmo de muitas medidas de peso por parte dos governos.

O Japão do novo primeiro ministro Shinzo Abe desfruta de endividamento da ordem de 240% do PIB, a Itália fica por volta da metade (ainda o dobro do cobrado pela União Europeia), pode ter de volta Berlusconi, e tanto ela quanto a Espanha tem picos de resgate de dívida em 2013.

Por aqui a presidente Dilma terá a dura missão de equilibrar o jogo sócio-político- econômico, impondo várias sinucas de bico que vão exigir enorme maestria para sair. Como concatenar taxa cambial juros e inflação? Qual o ponto de equilíbrio entre essas variáveis? Dólar desvalorizado permite inflação menor e consequentemente menores taxas de juros, ainda com taxa renitentemente acima do centro da meta. Em compensação perdemos competitividade nas exportações, dentre outros percalços.

Outra dicotomia está na posição dual de estimular investimentos em infraestrutura e incentivar o consumo agregado das famílias. É certo que o Brasil precisa preparar o futuro com investimentos em infra e atração de investidores externos e locais.

Porém, tais efeitos são de médio e longo prazo, diferente do resultado de reduzir impostos em automotores e linha branca, ou mesmo desonerar folha de pagamentos.

O governo estima que as desonerações em 2012 sejam da ordem de R$ 40 bilhões, mas o curioso é que a arrecadação até novembro subiu em termos reais 0,68%.

O governo fala em investimentos pesados e em 2012 gastou nisso somente a metade do previsto no orçamento. Divulga “n” novos projetos, mas sempre coloca o BNDES como grande provedor, quando sabemos que recursos são escassos e a conta aparecerá no futuro para ser quitada.

A atração de investidores pressupõe risco regulatório menor e regras e contratos longevos, mas insistem em mudar marcos regulatórios. A formação bruta de capital fixo encolheu bastante em 2012 e o governo acena com ampliação e crescimento da taxa de investimento em relação ao PIB. A teoria esta em dissintonia com a prática.

A outra dúvida é ampliar gastos de governo com investimentos e conter programas assistencialistas que restringe ao pobreza.

Mas a renitente presença da inflação alta é o maior mal para as classes mais desfavorecidas. Como os recursos são limitados (ainda que inflados pela perspectiva de crescimento, no momento irreal), terá que optar.

Certamente o governo da presidente Dilma está diante da “escolha de Sofia” que trata do dilema de uma mãe polonesa, filha de pai anti-semita, presa num campo de concentração durante a Segunda Guerra e que é forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos.

Só torcemos para que a escolha de Sofia da presidente seja a mais correta possível.

(*)  Economista-chefe sócio da Órama Investimentos