Fábio Guibu
Folha de São Paulo
Em meio à maior seca das últimas décadas no sertão nordestino, a agricultora Maria de Amorim, 67, perdeu suas duas únicas fontes de água durante a construção do canal da transposição das águas do rio São Francisco em Custódia, a 340 km de Recife.
Seu poço foi soterrado pela obra e a pequena mina que existia a cem metros do seu sítio secou. Empreiteiras, segundo ela, usaram toda a água para construir o canal.
"Moro aqui há 37 anos e a mina nunca tinha secado", disse. "Antes de as empreiteiras chegarem, a água dava para todo mundo. Podia vir gente com tambor, lata, do jeito que fosse, sempre tinha." As construtoras, diz, usaram carros-pipa e bombas de sucção.
"Eles botaram dois motores: um ficava ligado de dia, e o outro, de noite. Quando a mina secava, eles cavavam a areia com máquina. Nunca pararam de puxar, só quando faltou mesmo. Aí pararam."
Lalo de Almeida/Folhapress
Canteiro abandonado na obra de transposição do rio São Francisco
no município de Floresta, no sertão pernambucano
As obras de transposição do rio São Francisco
no município de Floresta (PE) estão paradas
Segundo ela, nesse período as empresas lhe forneciam dois carros-pipa por mês. Quando elas se foram, há cerca de um ano, a ajuda acabou. "Ficaram de fazer meu poço novo e nunca fizeram. Agora estou pagando R$ 600 por mês por dois caminhões."
Os carros-pipa vêm da cidade de Serra Talhada; o dinheiro, das aposentadorias dela e do marido, o que dá cerca de R$ 1.200 mensais. "Até agora, a transposição só tirou a água que a gente tinha, não trouxe nada."
Além do canal, a propriedade de Maria de Amorim também foi atravessada pela obra da ferrovia Transnordestina. Apesar dos transtornos, ela diz que não pensa em reivindicar compensações: "Não vou fazer questão porque com o governo a gente é piaba em boca de tubarão."
No sítio vizinho, o agricultor Antonio Brasiliano Siqueira, 67, também responsabiliza as construtoras pelo fim da água na mina. A exemplo de Maria, diz, resignado, que não vai tomar providências.
"A firma carregou a água todinha para fazer o canal, mas com o governo a gente não pode dizer nada, não é? Eles não pediram para usar, mas fazer o quê?"
A construtora OAS, responsável pelo lote da transposição na área em questão, não respondeu aos questionamentos.

