sexta-feira, março 08, 2013

Chávez não aproveitou alta de 500% do petróleo para diversificar economia


Nice De Paula e Henrique Gomes Batista  
O Globo

Venezuela sofre com inflação alta e apagões de energia

Fernando Llano / AP
Em 2006, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitou a Venezuela
 e participou da inauguração de uma plataforma de petróleo 

RIO — Os 14 anos de governo não foram suficientes para Hugo Chávez tornar a economia da Venezuela menos dependente do petróleo, origem de cerca de 90% das exportações do país. Desde o início de seu governo, em 1999, a cotação do petróleo seguiu uma trajetória ascendente, saltou de US$ 14 para a cerca de US$ 95, numa alta de mais de 500%, e gerou uma montanha de dólares que alimentaram programas sociais, mas não foram usados para diversificar a economia, dizem especialistas.

- O grande legado de Chávez é o social e seu maior fracasso é no aspecto econômico. Há mais de cem anos a Venezuela é um Estado rentista do petróleo e assim permanece. A única coisa que mudou foi para as mãos de quem vai a maior parte desta renda, que passou a ser distribuída entre as camadas mais pobres da população - diz Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e atual diretor da Faculdade de Economia da Faap.

A maioria dos produtos consumidos no país são importados, os episódios de desabastecimento tem se repetido e a inflação fechou o ano passado na casa dos 22%, menor apenas do que a de quatro países num ranking de 184 nações elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Sem investimentos em áreas essenciais, a população também tem sofrido com apagões. Um dos mais recentes, ocorrido dia 27, atingiu 10 dos 23 estados do país.

- A Venezuela é um país onde jorra petróleo, mas falta água e a energia é escassa. Isso acontece porque faltou investimento em infraestrutura e na competitividade da economia. As outras indústrias, que não a de petróleo, foram relegadas. O grande desafio da era pós-Chávez é reduzir a dependência do petróleo e diversificar a economia - diz o economista Marlos Lima, chefe do Centro Latino Americano da FGV.

Ricupero lembra, que quando houve o choque de petróleo, a Venezuela recebeu bilhões de dólares, mas o dinheiro ficou com os partidos tradicionais, o que mudou com Chávez e seus mais de 20 programas sociais, ainda que estes fossem usados para dar prestígio ao presidente.

- A Venezuela é um país meio sui-generis, pode fazer uma distribuição de recursos que nenhum outro país pode. Mas até isso tem um limite. Hoje, a economia está desorganizada, a inflação está alta, tiveram que desvalorizar a moeda. O grande problema agora será combater os desperdícios e reorganizar a economia - diz.

Para Marcus Dezemone, professor de História da UERJ e UFF, a maior falha de Chávez foi não ter aproveitado a cotação do petróleo para acelerar a industrialização do país.

- Mas não se pode chamá-lo de populista, o modelo é muito mais complexo. O governo chavista promoveu redução da pobreza, da desigualdade e do analfabetismo.

Carlos Pinkusfeld, professor da UFRJ e diretor do Centro Celso Furtado, destaca a redução da pobreza em 50%, e da pobreza extrema em 70%, mas diz que o país sofre do mal da abundância de recursos naturais:

- Ele manteve a estrutura e a dependência que o país sempre teve do petróleo.

Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, diz que o sucessor de Chávez vai enfrentar grandes desequilíbrios econômicos.

- Isso fará com que todos os esforços do novo presidente sejam internos, deixando pouca margem para mudanças na política externa.