domingo, abril 21, 2013

O esvaziamento da bolha Brasil


Leandro Ruschel
Exame.com

A pergunta mais freqüente dos participantes do mercado nos últimos tempos é sobre o comportamento diferente do Ibovespa em relação a outros mercados globais. Por exemplo, enquanto observamos o mercado americano testando e rompendo topos históricos em vários índices por aqui o mercado patina. Só em 2013 o Dow Jones apresenta 10,62% de alta, enquanto o IBOV amarga 11,28% de queda.

Historicamente o mercado brasileiro apresenta variações maiores mas usualmente na mesma direção do mercado americano. É um mercado com beta maior do que 1 em relação ao mercado americano. Tende a subir mais nas altas e cair mais nas quedas, mas não costuma trabalhar em direção contrária.

Fica mais fácil observar o comportamento utilizando um gráfico de longo prazo com IBOV(azul) e S&P 500 (vermelho) traçados, desde 1970 até 2012.


A alta mais forte no final do gráfico representado pela linha em azul é o período correspondente a 2002 – 2008, quando o IBOV produziu uma alta de 800% em dólar, contra uma alta de 100% do S&P. No crash de 2008 o mercado brasileiro caiu um pouco mais que o americano, fazendo uma recuperação em seguida e alcançado o maior afastamento do S&P em 40 anos. A partir de 2010 é que houve uma inversão de movimento, mesmo assim a distância de rentabilidade ainda é grande.


Ou seja, ainda existe espaço para correção de valor. Se pegarmos como base o valor de jan/1970 como 1 para 1 e traçarmos um gráfico da correlação iremos perceber que o mercado brasileiro ainda está “caro” em termos históricos.

O movimento natural dos recursos no mercado global é a busca de mercados mais arriscados em tempos de euforia e fuga para mercados “seguros” nos tempos de medo e pessimismo. O porto seguro do capital internacional continua sendo os EUA apesar de todo endividamento e crise dos últimos anos. Tivemos no Brasil um retorno fantástico na década passada e seria normal uma correção em algum momento. De uma certa forma podemos dizer que houve uma bolha Brasil na primeira década do segundo milênio.

Alguma correção seria normal mas o problema seria o mercado produzir uma correção mais alongada, como foi a da década de 70, depois do “milagre econômico”. Do ponto de vista dos fundamentos econômicos brasileiros perdemos uma oportunidade de ouro. Com um mercado interno gigante, recursos naturais fartos, uma população jovem e reformas que modernizaram o sistema financeiro e mataram o flagelo da hiperinflação o capital externo migrou em massa esperando que acontecesse aqui o que aconteceu na Coréia do Sul, ou seja, o Brasil finalmente sair da lista dos subdesenvolvidos para ocupar um lugar entre as economias mais avançadas. O auge do otimismo com o Brasil foi a capa da prestigiada revista The Economist em novembro de 2009 com o Cristo “decolando”.


Micou. Novamente provou-se a lógica do mercado ser movido por expectativas e não por fatos. E quando os fatos não se comprovam, as expectativas esvaziam como um balão murchando. Uma bolha no mercado financeiro pode ser resolvida assim, não necessariamente com um crash. O Japão que o diga com os 23 anos de correção do Nikkei desde o seu topo histórico em 1990.  É o velho ciclo de expansão e retração.

Tivemos alguns avanços imporntantes, mas perdemos a chance. O período de maior bonança global de todos os tempos mascarou (e ainda mascara) as deficiências. Faltou a visão política certa para abrir de vez a economia, acabar com as famigeradas leis trabalhistas abusivas, reforma tributária, corte de gastos do governo, investimento em infra-estrutura, reforma do judiciário e na educação. Além da reforma política e da intransigência com a corrupção. Ao invés disso regredimos ao mundo pré muro de Berlim e adotamos um regime que pratica o centralismo econômico. A sanha intervencionista atingiu diretamente ou indiretamente todos os setores, especialmente a gigante PETRO, VALE, setor elétrico, entre outros. A idéia de mega empresas brasileiras financiadas pelo BNDES já se provou um grande erro, mas é repetida. O governo destrói um dos grandes avanços institucionais que foi a lei da responsabilidade fiscal fazendo repasses diretos para o BNDES e para os grandes bancos. No final do ano passado o negócio foi maquiar os números mesmo, sem pudor. Agora a inflação embala. E não há sinal de mudança na trajetória.

Apesar de estarmos num momento propício para altas nas ações, como prediz o ciclo decenal e confirma o mercado global, patinamos. Claro que o mercado brasileiro pode reverter e geralmente reverte nos momentos de menor esperança. Mas por hora não há sinal, nem nos gráficos e nem nos fundamentos. O especulador, especialmente aquele que segue uma estratégia baseada em gráficos e estatísticas derivadas do preço nem deve se perguntar os motivos, apenas operar os sinais, tanto nas compras quanto nas vendas seguindo a tendência. Assim eu opero e dá para gerar lucro nas altas e nas baixas.

Mas como também me preocupo muito com o país quero explicar os motivos e defender as soluções. Não apenas para poder surfar mais uma bela tendência de alta, mas principalmente para ver toda a sociedade enriquecendo através de um mercado livre que gera maior eficiência e está ligado a um maior nível de liberdade individual. Não me satisfaz um país classe C, eu quero um país classe A. Ainda há tempo para mudar o rumo.