Adelson Elias Vasconcellos
Prometi escrever sobre as pesquisas de avaliações do governo Dilma e é o que pretendo fazê-lo. Há pesquisas e pesquisas, há critérios e falta deles. E é isto que, ao final deste estudo, saltará aos olhos de todos.
Para início de conversa, deve haver algum critério oculto que fazem com que os números positivos engordem sobremaneira e, os negativos, simplesmente, desapareçam. Depois desta nossa viagem, fica o espaço aberto para quem desejar desvendar este estrondoso mistério.
Não se trata aqui de levantar suspeitas quanto a seriedade com que tais pesquisas são realizadas mas, sobremodo, de entender o critério empregado para apontar um resultado final.
Antes de prosseguir, uma breve reflexão.
Para que, afinal, serve um governo? São muitas suas missões e responsabilidades, por certo, mas destacaríamos como uma de suas principais missões o atendimento à população, em quantidade e qualidade, dos serviços básicos essenciais. Se entrevistarmos cem ou mil pessoas pedindo que elas apontem, pelo menos, cinco serviços públicos que consideram essenciais, talvez haja unanimidade sobre estes pontos: educação, saúde, segurança, infraestrutura (portos, aeroportos, estradas e energia elétrica) e saneamento básico (água e esgoto).
Não creio que se fuja muito desta relação mesmo que se aumente para 10 mil ou cem mil o número de entrevistados. Sem dúvida, tais itens compõem como que uma cesta básica em que o cidadão, que paga impostos, espera de seus governantes a máxima atenção.
Na relação que as pesquisas desenham para obter aprovação ou desaprovação, estranhamente, alguns destes itens são ignorados. Saneamento e infraestrutura não aparecem nos quesitos com que se busca a opinião dos entrevistados. Pelo menos nas realizadas pelo IBGE. E, é inegável, são questões de máxima relevância quando se pretende colher a opinião da maioria sobre a ação do governante em benefício do país.
Destes cinco itens apenas três são pesquisados: educação, saúde e segurança. Se a gente for analisar, agora, as pesquisas do IBGE, sobre a aprovação do governo Dilma, feitas em dezembro de 2012 e março de 2013, além destes pontos, há a inclusão de outros itens. São eles:
• Combate à pobreza
• Desemprego
• Meio-ambiente
• Impostos
• Combate à inflação
• Taxa de juros
Reparem que é sobre combate à pobreza, desemprego e taxa de juros que mais se fortalece o discurso de Dilma, justamente os itens em que seu governo mais investe no marketing.
Dito isto, vamos aos números. Comecemos por dezembro de 2012.
- Combate a pobreza: Aprovação: 62%; desaprovação: 36%; outros: 2%;
- Desemprego: aprovação: 56%; desaprovação: 41%; outros: 3%;
- Meio-ambiente: aprovação: 52%; desaprovação: 42%; outros: 6%;
- Educação: aprovação: 43%; desaprovação: 56%; outros: 1%;
- Saúde: aprovação: 25%; desaprovação: 74%; outros: 1%;
- Segurança pública: aprovação: 30%; desaprovação: 68%; outros: 2%
- Impostos: aprovação: 30%; desaprovação: 65%; outros: 5%;
- Combate à inflação: aprovação: 45%; desaprovação: 50%; outros: 5%;
- Taxa de juros: aprovação: 41%; desaprovação: 51%; outros: 8%.
Reparem que, em apenas três quesitos, a aprovação do governo Dilma logrou ter aprovação da maioria, isto é, acima de 50%. Nos demais, ele caducou. E, não obstante ser desaprovado em 2/3 dos itens pesquisados, o número final foi positivo, ficando em 62% (???).
Poderíamos tentar entender este índice final, somando-se todos os percentuais dos itens de desaprovação e dividi-los pela quantidades de itens da pesquisa, para se chegar a um índice de desaprovação geral. Faríamos o mesmo com os itens aprovados, repetindo-se para OUTROS que indica o percentual dos que não sabem ou não responderam.
Pois bem, sob tal critério, teríamos o seguinte:
- TOTAL DE APROVAÇÃO: temos 384, que, divididos por nove itens, resulta em 42,67%.
- TOTAL DE DESAPROVAÇÃO: temos 483, que divididos por nove itens, resulta em 53,67%.
- TOTAL DE OUTROS: temos 33, que, divididos por nove, resulta em 3,66%
Por fim, somando os três resultados, vemos que estão rigorosamente corretos: 42,67% + 53,67% + 3,66% = 100 %. Ok?
Como os 42,67% viraram 62% (avaliação positiva), 62% (expectativa em relação ao seu governo), 78% (aprovação de sua maneira de governar) e 73% (confiança nela), é um senhor mistério.
Poderíamos supor que, para os itens que receberam aprovação positiva, o peso seja maior na avaliação final do que os desaprovados. É uma hipótese. Mas qual peso? E por quê?
Vamos saltar, agora, para a pesquisa de março de 2013. Para efeito de análise, até porque são irrelevantes, deixaremos de lado os percentuais dos que não souberam ou não quiseram responder. Concentremo-nos apenas entre aprovados e desaprovados.
- Combate a pobreza: Aprovação: 64%; desaprovação: 34%
- Desemprego: aprovação: 57%; desaprovação: 40%
- Meio-ambiente: aprovação: 57%; desaprovação: 36%
- Educação: aprovação: 47%; desaprovação: 50%
- Saúde: aprovação: 32%; desaprovação: 67%
- Segurança pública: aprovação: 32%; desaprovação: 66%
- Impostos: aprovação: 36%; desaprovação: 60%
- Combate à inflação: aprovação: 48%; desaprovação: 47%
- Taxa de juros: aprovação: 42%; desaprovação: 50%
Empregando o mesmo critério das médias que fizemos com a pesquisa de dezembro de 2012, isto é, somando os percentuais de aprovação e desaprovação e dividindo-os, separadamente, pelo total de itens consultados.
Assim, teríamos:
- TOTAL DE APROVAÇÃO: temos 415, que, divididos por nove itens, resulta em 46,11%.
- TOTAL DE DESAPROVAÇÃO: temos 450, que divididos por nove itens, resulta em 50,00%.
- TOTAL DE OUTROS: temos 35, que, divididos por nove, resulta em 3,89%
Por fim, somando os três resultados, vemos que estão rigorosamente corretos: 46,11% + 50,00% + 3,89% = 100 %. Ok?
E, não obstante os números acima, o diagnóstico final apontou que o governo Dilma era aprovado por 63%.
Não vou nem entrar na discussão sobre confiança, modo de governar, expectativas porque são questões muito etéreas.
O que conta mesmo é o quanto a população aprova ou desaprova o governo Dilma sobre questões que despertam, diretamente, maior interesse da população e sobre as quais, afinal, se consuma o foco principal da atuação do governante.
Já disse, certa vez, que não brigo com números de pesquisa, desde que sua apuração siga um certo padrão, um critério técnico que não se choque com a lógica.
O que não pode, a menos que alguém esclareça com algum senso, é transformar 42,67% de aprovação na média dos itens coletados em 2012, e 46,11% de aprovação na média dos itens coletados em março de 2013, em aprovação geral fixada em 62% e 63%, respectivamente, como a pesquisa apontou.
Como também se estranha que outros itens como saneamento e infraestrutura tenham ficado de fora da avaliação.
No geral, fica claro que o governo Dilma está muito longe de receber avaliação tão positiva, como se informa, em seu modo de governar, quando nos fixamos em cada um dos itens. Entretanto, o marketing oficial, tanto do governo quanto do PT, ecoa na mídia como algo do outro mundo, ou para se usar um termo bem popular, “espetaculoso”. Será que alguém se prestou em analisar os números, em fazer contas para, pelo menos, encontrar coerência naquilo que estava sendo divulgado?
Assim, e até que alguém venha nos esclarecer, fica claro que, ao contrário do que se informa, o governo tem, na verdade, pela pesquisa de março de 2013, é 50,00% de desaprovação e, pela pesquisa de dezembro, 53,67%.
Mesmo que aqueles 62% e 63% tenham uma explicação clara e lógica que os justifiquem (há, necessariamente de haver, claro, do que contrário estamos diante de vigarice), há muito mais motivos de preocupação do que de comemoração diante do que as pesquisas revelam. Naquilo que é essencial para a população, que são os serviços básicos, a avaliação revela-nos um governo muito ruim de serviço.
Também se vislumbra, destes números, uma enorme avenida que se abre para que a oposição possa criticar e bater duro no governo Dilma. Não pode é aceitar passivamente ser constrangida pelo governo diante de uma aprovação que, como se viu, é muito menor do que aparenta. Talvez por aí se entenda o enorme esforço empreendido pela base governista para colocar obstáculos ao surgimento de candidatos que possam por em perigo o projeto de reeleição de Dilma Rousseff.
Até porque, considerando-se que Dilma foi a gerentona de Lula ao longo de seus dois mandatos, e estando seu partido no poder desde 2003, o país poderia ter avançado muito mais, pelo menos na qualificação dos serviços públicos essenciais para a população que, e as pesquisas revelam isto claramente, desqualificam o discurso petista sobre as virtudes de seus governantes.