segunda-feira, maio 13, 2013

Apatia do governo extingue chances de controle da inflação no curto prazo


Adriano Lira
Veja online

Alta dos juros realizada no mês passado demora a surtir efeito e desonerações têm sido incipientes, o que faz com 'dragão' fique mais difícil de domar

 (Matthew Dixon/Getty Images/iStockphoto) 
Inflação deve ficar perigosamente próxima  da meta de 6,5% até o fim do mandato de Dilma

Com alta de 0,55% em abril sobre março, a inflação segue sem dar trégua ao bolso dos brasileiros. E o pior: no curto prazo, não há indícios de que a força do dragão vá arrefecer. Diante da leniência do governo, os números divulgados nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ameaçam as previsões do Banco Central, que acreditava que a inflação recuaria a partir do segundo trimestre do ano. Analistas ouvidos pelo site de VEJA são unânimes ao afirmar que as medidas adotadas até aqui são incipientes - e a preocupação com o pleito do ano que vem coloca em segundo plano as políticas de combate à inflação.

Em março, a inflação pelo IPCA foi de 0,47%. No acumulado de 12 meses até março, a alta foi de 6,59% e superou a meta de inflação anual de 6,50% estipulada pelo governo. Apesar da inflação maior do mês passado, quando se leva em conta a série acumulada até abril, a inflação dos últimos 12 meses fica em 6,49%, no limite da meta.

O aumento da taxa básica de juros, medida adotada pelo BC para frear a alta dos preços, não funciona no curto prazo - mudanças nos juros levam de seis a nove meses para surtir efeito na economia. Antes de 2014, o efeito dos cortes promovidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), portanto, será meramente o de elevar o otimismo dos analistas ouvidos pelo Banco Central para projeções como as da pesquisa Focus - o que influencia as expectativas do empresariado. Sérgio Vale, economista da MB Associados, defende um aumento maior na taxa de juros, mas não acredita que isso irá acontecer. "Como teremos eleição no ano que vem, o governo não elevará muito a Selic, para que a presidente Dilma Rousseff termine seu mandato com as taxas de juros mais baixas da história", afirma ele.

Outra medida poderia domar o dragão nos próximos meses - e não é realizada com o devido afinco - são mudanças na taxa de câmbio. Quando o real está mais valorizado em relação ao dólar, os produtos importados se tornam mais baratos e a oferta de produtos aumenta - com mais produtos nas prateleiras, a tendência é que a inflação recue. Por outro lado, o real valorizado faz com que tudo o que é produzido no Brasil fique mais caro quando é exportado, o que dificulta a venda de produtos nacionais para outros países.

Até mesmo as medidas que barateiam os preços mais rapidamente, como os cortes tributários ou a redução na conta de luz acabaram se tornando incipientes.  "Houve desoneração de um lado, mas a queda do desempenho de setores como o varejo fez com que a redução da conta não surtisse efeito", afirma Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria Integrada. Uma alternativa para reduzir a inflação no curto prazo, de acordo com Alessandra, seria aumentar os juros relacionados ao crédito oferecido à população. "Com um menor poder de compra, a população compraria menos, o que aumentaria a oferta de produtos e reduziria os preços", diz ela. A medida, contudo, poderia comprometer a popularidade da presidente em busca de seu segundo mandato.

Para o economista da MB Associados, a realidade é que o governo não se preocupa muito com a inflação. "Para eles, a inflação é a graxa que oleia as engrenagens do crescimento", afirma. Já Alessandra acredita que as altas pontuais na Selic deverão continuar, mas nenhuma mudança radical no controle da inflação deve ocorrer até o fim do mandato de Dilma. "O governo não vai abrir mão de sua política expansionista, com investimentos públicos, juros mais baixos e consumo elevado, o que tornará a inflação ainda mais preocupante", afirmou ela.