quarta-feira, maio 29, 2013

Brasil paga a conta e ainda perde mercado

José Casado e Janaína Figueiredo 
O Globo

Enquanto governos Lula e Dilma exercem paciência, China toma espaço no comércio

AFP/10-5-2013 
Cristina recebe funcionários do governo chinês: asiáticos aumentaram
3,5 vezes participação no mercado argentino, enquanto Brasil ficou estagnado 

Rio e Buenos Aires - Sobrou para o Brasil uma parte do custo da crise em que se meteu o governo Cristina Kirchner. A Argentina está impondo perdas significativas ao país, o principal sócio no Mercosul, por conta do descontrole da sua economia. Na emergência da escassez de dólares, o governo argentino decidiu restringir os gastos nas compras externas. Instituiu um bloqueio burocrático e crescente nos postos de alfândega aos produtos vindos do Brasil, o que levou a uma drástica redução do saldo comercial no ano passado (US$ 1,5 bilhão). Caiu 73% em relação a 2011.

As consequências desse processo são relevantes porque a Argentina é o maior mercado brasileiro de produtos industriais de alto valor. É o destino de 80% das exportações de máquinas e equipamentos (bens de capital) fabricados no Brasil. Essas vendas têm declinado nos últimos cinco anos, com perdas estimadas em US$ 3 bilhões anuais.

— Estamos pagando um preço muito alto pela crise argentina — acha Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). —Nossas exportações industriais eram de US$ 6 bilhões ao ano. Hoje está na metade e com tendência a cair. É um tipo de “solidariedade” aceita para manter o Mercosul que, para nós, resulta em grave retrocesso. Porque aumenta a vulnerabilidade da nossa economia, deixando-a cada vez mais "primarizada", isto é, baseada nas vendas de produtos primários agrícolas e minerais.

Danos ao Mercosul
A participação brasileira no mercado argentino está estagnada há uma década, informa a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ela ainda é significativa. Equivale a 30% do total das compras do vizinho. Mas essa hegemonia de parceiro privilegiado pelas regras do Mercosul está sendo perdida, de forma gradual, pelas concessões argentinas a países fornecedores que não integram o mercado comum.

É o caso da China. Enquanto a participação do Brasil permaneceu estacionada em um terço das importações, na década dos Kirchner no poder a participação do país cresceu 3,5 vezes. Chegou a 14% do total das compras externas realizadas pela Argentina no ano passado.

A tendência preocupa, dizem Mauro Laviola e Fábio Faria, vice-presidentes da Associação de Comércio Exterior. Depois de dez anos de bloqueios burocráticos impostos por governos Kirchner, o Brasil perdeu espaço e a China passou a dominar o mercado de máquinas e equipamentos da Argentina. No ano passado vendeu US$ 5,1 bilhões. Os brasileiros ficaram limitados a US$ 1,9 bilhão.

— Para nós, são enormes as restrições — comenta Faria.

Laviola complementa:

— Estamos perdendo não apenas vendas, mas um mercado conquistado. A Argentina desconhece o Mercosul e dá prioridade nas compras a produtos cujo preço unitário é muito inferior à média internacional. O efeito, para nós, é destrutivo em todos os sentidos.

O que era “paciência estratégica” com a Argentina — como definiu recentemente a presidente Dilma Rousseff — tornou-se um grave problema de política externa, no qual se expõe a falta de estratégia do Brasil, acha Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores (1995-2001).

— A Argentina não vê no Brasil um aliado realmente estratégico e ponto —diz Lampreia. — Eles estão inamovíveis e, assim, a tática de negociar sem irritá-los é péssima política. Tanto é que, até agora, só conduziu a mais represálias contra o Brasil.

Uma em cada três empresas com negócios na Argentina desativou suas operações locais nos últimos cinco anos. Foram 150 pelas contas dos exportadores. O êxodo continua: de janeiro a abril, saiu uma a cada 20 dias. Levaram projetos e o crédito barato de bancos públicos, como o BNDES, afetando empreendimentos locais como uma ferrovia e duas hidrelétricas. É má notícia para um governo em crise.

Há três semanas, Dilma foi a Buenos Aires negociar com Cristina. Ao perceber que não havia solução, irritou-se e antecipou o retorno. Mas não há previsão de que o governo brasileiro pretenda reagir. Continua na “paciência estratégica”.